Ex-Ponte, Ricardo Jesus é campeão na Ásia em meio a tragédia e luto no time

Bruno Freitas

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Morte de rei da Tailândia interrompe torneio e torna brasileiro campeão

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Há poucas semanas, o brasileiro Ricardo Jesus chegou para treinar em seu clube na Tailândia e encontrou um clima de luto no vestiário. Seu técnico e alguns colegas de time estavam em prantos e informaram o ex-atacante de Inter e Ponte Preta que haviam se tornado campeões nacionais da temporada, de uma hora para outra. Mas o choro ali não tinha nada de alegria e, na verdade, marcava um desespero coletivo em razão da morte do rei do país, Bhumibol Adulyadej, horas antes.

O falecimento do monarca de 88 anos comprometeu o funcionamento do país de uma forma geral e interrompeu o campeonato nacional de futebol a duas rodadas do encerramento. Desta forma, o Thai Honda, de Ricardo Jesus, acabou decretado campeão de forma antecipada e inesperada. No entanto, segundo o brasileiro, não houve margem para qualquer manifestação de celebração. Tratado como uma figura divina na Tailândia, Adulyadej permaneceu sete décadas no trono, e suas regras de conduta regeram a vida de gerações de tailandeses. Por isso, a morte do líder inspirou uma catarse de luto sem precedentes na nação asiática de 67 milhões de habitantes.

"Foi meio de surpresa para a gente a interrupção do campeonato. A gente estava a duas rodadas do final do campeonato, nosso time estava a uma vitória para ser campeão. Apesar da idade, ele ainda tinha muita influência no país. Era considerado uma espécie de semideus aqui, algo divino para eles. Foi trágico para o povo tailandês. Eles perderam o prazer de ver futebol, de se divertir. Eles não tinham cabeça para pensar em calendário de futebol", afirmou Ricardo Jesus, em entrevista ao UOL Esporte.

Damir Sagolj/ Reuters
Bhumibol Adulyadej, rei da Tailândia, morreu no último dia 13 de outubro
"O país ainda está de luto. Faz dez dias da morte do rei, mas a maioria das pessoas continua andando de preto nas ruas, com todo mundo cabisbaixo", acrescentou o atacante, em conversa por telefone desde Bangcoc.

Ao tomar conhecimento do fim abrupto da temporada, graças à morte de Adulyadej, Ricardo Jesus ouviu que não haveria comemoração oficial do clube. A recomendação era de que os jogadores festejassem de forma discreta, apenas com familiares ou amigos – de preferência, sem transmitir a desconhecidos a impressão de que "estavam feliz" num momento de recolhimento e tristeza coletiva.

"Vi jogadores do meu time chorando, o treinador do meu time chorando muito quando foi confirmada a morte do rei. Muito emocionado, muito triste. No dia seguinte o pessoal estava muito emocionado, não conseguiu nem comemorar o título", relatou o brasileiro de 31 anos.

Apesar da interrupção do campeonato nacional, a seleção da Tailândia terá que entrar em campo em breve pelas eliminatórias da Copa. A partida contra a Austrália será disputada em novembro, ainda com clima oficial de luto pela morte de Bhumibol Adulyadej, com manifestações de torcida intimidadas – gritos, bandeiras e tambores foram proibidos pela federação local. Os fãs só poderão comparecer ao estádio em Bangcoc vestindo preto, cinza ou cores escuras.

Feliz na cidade de "Se Beber Não Case 2"

Arquivo pessoal
Atacante Ricardo Jesus passeia com a família durante uma folga na Tailândia

Destaque do Thai Honda durante a temporada, com 13 gols marcados em 26 jogos, Ricardo Jesus pretende continuar na Tailândia e negocia a renovação de contrato. O brasileiro diz que sua família se adaptou muito bem à Tailândia e elogia a qualidade de vida em Bangcoc. Apesar de reconhecer o caos do trânsito, o atacante está satisfeito em se locomover de trem pela metrópole ("é muito eficiente e pontual"). De quebra, o campeão nacional elogia a sensação de segurança nas ruas da cidade que abrigou as filmagens de "Se Beber Não Case 2".

"Bangcoc tem uma qualidade de vida muito boa, com segurança. Minha família está adaptada aqui, minha filha está na escola, minha esposa fez amizades", comentou Ricardo Jesus. "É uma cidade que não para, movimentada 24 horas por dia, com muito turismo. Com trânsito caótico, é verdade. E realmente é muito parecida com o filme. Mas é muito segura", emendou o jogador do Thai Honda.

Colega de Ronaldinho no México: "para contar aos netos"

Revelado pelo Internacional, Ricardo Jesus diz que mantém uma relação de afeto com o clube gaúcho, bem como com a Ponte Preta – o jogador é natural de Cosmópolis, no interior de São Paulo, perto de Campinas. O atual campeão tailandês ainda acumula passagens por Portuguesa, Avaí, Atlético-GO e Fortaleza.

Fora do Brasil, Ricardo Jesus passou pela Rússia e pela Grécia. Nos últimos anos também esteve no futebol mexicano, com as camisas de Querétaro e Tijuana. No primeiro, teve a chance de dividir os vestiários com Ronaldinho Gaúcho. Mesmo com o antigo melhor do mundo em declínio, o atacante conta que a experiência foi inesquecível para todos os envolvidos.

"Foi até uma surpresa quando ele foi para lá. Aquela admiração, quando você é fã, você vê pela televisão, e de repente está dividindo o vestiário com você. Foi muito bacana, a gente pôde conversar, trocar ideias. É uma coisa que a gente pode contar para os netos", afirmou. "O time cresceu muito com ele. De repente passou a levar muita gente para os estádios e virou um time grande no México", concluiu.

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