Ex-PM preso por chacina na Pavilhão 9 depõe e evita família das vítimas

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

  • André Lucas Almeida/Futura Press/Estadão Conteúdo

    Integrantes da torcida Pavilhão 9, do Corinthians, fazem protesto contra chacina na sede da organizada (18.abr.2016)

    Integrantes da torcida Pavilhão 9, do Corinthians, fazem protesto contra chacina na sede da organizada (18.abr.2016)

O ex-PM Rodney Dias dos Santos, único acusado preso pela chacina de oito pessoas em abril do ano passado na sede da torcida organizada Pavilhão 9, do Corinthians, prestou depoimento no Fórum Criminal da Barra Funda nesta quarta-feira (26). Familiares das oito vítimas estavam lá para ouvir o que ele tinha a dizer sobre o caso à Justiça -- foi o último depoimento no processo que corre na 5ª Vara do Júri de São Paulo antes da decisão se ele vai a júri popular pelo crime ou não.

Antes do ex-PM entrar na sala de audiências e começar o depoimento, porém, sua defesa pediu à juíza Giovanna Christina Colares, responsável pelo caso, que esvaziasse a sala. Ele argumentou que assim seu cliente falaria mais livremente e traria revelações sobre o caso. A juíza concordou, familiares das vítimas e jornalistas foram retirados do local e o depoimento aconteceu a portas fechadas.

"É uma vergonha, esse sujeito não tem nem coragem de olhar na nossa cara", desabafou o empresário Marco Antônio Corassa, de 55 anos, pai de uma das vítimas que foi ao fórum acompanhar o caso. "É mais uma manobra para tentar protelar o processo e evitar a condenação", afirmou Corassa.

"Fico triste por que acho que eu tinha o direito de ouvir o que o assassino do meu filho tem a dizer sobre o que ele fez", afirmou a mãe de outra vítima, que pediu para não ser identificada. "É uma dor muito grande perder um filho deste jeito e não conseguir acreditar que a Justiça vá ser feita. Já soltaram o outro PM que estava preso, agora esse suspense, a gente não sabe o que estão dizendo e decidindo lá dentro, vai que soltam esse também", afirmou ela. 

Em dezembro do ano passado a Justiça mandou soltar o Policial Militar Walter Pereira da Silva Júnior, a pedido do próprio promotor do caso, Rogério Leão Zagallo. Na ocasião, o pedido de Zagallo surpreendeu a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, a autoridade policial responsável pelas investigações e a assistência da acusação, formada por um advogado contratado pelos familiares das vítimas. Todos se manifestaram contrariamente à soltura do réu, mas o pedido do Ministério Público foi acatado e o PM liberado para responder às acusações em liberdade.

Um terceiro suspeito pelo crime nunca foi identificado. Os matadores enfileiraram as vítimas de joelhos com as mãos na cabeça e depois executaram um por um com tiros na cabeça. Além dos oito mortos, outras quatro pessoas sobreviveram à chacina.

Depoimento

Em seu depoimento nesta quarta-feira, o ex-PM reafirmou que é inocente e apresentou uma nova versão para o crime: segundo ele, os responsáveis seriam integrantes de uma facção criminosa. O motivo seria uma disputa por ponto de venda de drogas no Ceasa com uma das vítimas, um dirigente da torcida organizada que está entre os mortos.

As outras vítimas estavam "no lugar errado na hora errada". Apesar das supostas revelações, o ex-PM não acusou ninguém nominalmente e nem revelou por que não contou esta versão antes. Ele afirma que os policiais do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) incriminaram ele, e forçaram as testemunhas do caso a reconhecê-lo.

O depoimento de Santos foi remetido ao Gaeco (grupo de trabalho do Ministério Público que investiga crime organizado), para os promotores averiguarem a história. Enquanto isso, o ex-PM segue preso e o processo, em andamento. Agora, a juíza do caso vai ouvir as alegações finais da acusação e da defesa para decidir se Santos será levado para julgamento ou será absolvido. Seu advogado, Adilson Menezes, deixou o fórum sem falar com a imprensa.

Para o advogado contratado pelas famílias para ajudar na acusação, Saraiva Santos, não há novidade. "Ele repetiu o que vem dizendo com uma variação ou outra, contou a história de vida dele, como era amigo de várias vítimas, mas não há fato novo", avalia o assistente de acusação. 

"Agora falta apenas o resultado de uma perícia no celular do réu, pedida pela defesa, e as alegações finais. Devemos ter uma decisão se vai a juri ou não até o início do ano que vem", afirmou o defensor público Victor Luiz Oliveira, que também ajuda o MP na acusação. O promotor responsável pelo caso não participou da audiência (uma promotora substituta o representou). A juíza responsável pelo processo também não comentou o caso.

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