Reverendo Moon: Quatro anos após morte, times vivem crise e deixam futebol

Emanuel Colombari

Do UOL, em São Paulo

  • Lee Jae-Won/Reuters

    Reverendo Moon (à esquerda) criou a Igreja da Unificação, responsável por Cene (MS) e Atlético Sorocaba (SP); morte de líder em 2012 deu início à decadência dos clubes

    Reverendo Moon (à esquerda) criou a Igreja da Unificação, responsável por Cene (MS) e Atlético Sorocaba (SP); morte de líder em 2012 deu início à decadência dos clubes

Na última segunda-feira (31), o Atlético Sorocaba anunciou que se afastaria do futebol profissional em 2017. Rebaixado na Série A2 do Campeonato Paulista em 2016, o clube vive situação financeira instável e tentará colocar as contas em dia. Assim, fica de fora da Série A3 de 2017, dando lugar ao Taboão da Serra (terceiro colocado da Segunda Divisão 2016).

A situação atual reflete um panorama contra o qual o clube sorocabano tenta lutar desde 2012. Naquele ano, morreu Sun Myung Moon, também conhecido como Reverendo Moon, fundador da Associação das Famílias para Unificação e Paz Mundial, a chamada Igreja da Unificação. O fato acabou sendo determinante na paralisação das atividades não apenas do Atlético Sorocaba, que pertence à Igreja, mas também do Cene (MS), outra equipe da entidade.

Líder de sua própria religião na Coreia do Sul desde a década de 1950, Moon começou a apostar no Brasil na década de 1990. Na época, seus investimentos desembarcaram no município de Jardim (MS), a cerca de 230 km de Campo Grande. A meta era transformar a pequena cidade em uma sede da Igreja da Unificação do Brasil.

Logo, milhares de imigrantes sul-coreanos começaram a chegar à recém-criada Fazenda Nova Esperança, onde trabalhavam. No tempo livre, os funcionários do estabelecimento jogavam futebol, defendendo o Centro Esportivo Nova Esperança, equipe amadora fundada por Paulo Telles na fazenda. Bastante interessado em futebol, Reverendo Moon – que fundou na Coreia do Sul o Ilhwa Chunma FC – decidiu profissionalizar o time. Assim, em dezembro de 1999, surgiu oficialmente o Clube Esportivo Nova Esperança, conhecido pela sigla Cene.

Em 2000, a Igreja da Unificação passou a investir também no Atlético Sorocaba, então na Série A3 do Campeonato Paulista. Fundado em 1991, o clube passou a ganhar terreno rapidamente nas divisões de acesso de São Paulo. Em 2002, estreou na Série A2; dois anos depois, estava pela primeira vez na elite do Campeonato Paulista, caindo em 2005.

Divulgação
O Cene também colheu frutos rapidamente. Em 2002, depois de se transferir para Campo Grande, conquistou o Campeonato Sul-Matogrossense. Repetiu o feito em 2002, 2004, 2005 e 2011, além de ter ficado com o vice-campeonato em duas ocasiões: 2003 e 2007.

Até que o Reverendo Moon morreu, aos 92 anos, em 3 de setembro de 2012. E o destino dos dois clubes de futebol da Igreja da Unificação começou a mudar - para pior.

O início do fim dos clubes do reverendo

No MS, a morte de Moon agravou uma situação de crise pela qual o clube já vinha passando. Sem os mesmos investimentos por parte da Igreja da Unificação, a diretoria passou a entrar em conflito. Hae Ung Jang, então diretor financeiro do clube, deixou o cargo. Sobraram José Rodrigues, presidente desde 2002, e Paulo Telles, fundador e vice-presidente.

Rodrigues chegou a descartar problemas com o Cene após a morte de Moon. Entretanto, sem sua principal referência, a diretoria logo se dividiu; com isso, os problemas financeiros se acentuaram.

No final de 2014, rebaixado no Campeonato Paulista, o Atlético Sorocaba escolheu uma nova diretoria. Dong Mo Shin foi eleito presidente, tendo José Rodrigues como vice-presidente executivo, Benedito Sampaio como vice de futebol e Rogério Dias como diretor administrativo.

Ao mesmo tempo em que era o presidente do Cene, José Rodrigues era o presidente em exercício – segundo o site da Federação Paulista de Futebol – do Atlético Sorocaba. Em campo, a equipe sul-matogrossense sentiu a falta de investimentos. Campeã estadual em 2014, foi lanterna do torneio em 2015. Rebaixada à Série B, pediu licença em 2016.

Rasdair Mata/Divulgação
Cene foi campeão sul-matogrossense em 2014; no ano seguinte, caiu

"O Cene se manteve por dois anos sem ajuda da Igreja, e por incrível (que pareça), fomos campeões em seguida, 2013 e 2014. Ocorre que o atual presidente - que é presidente no Atlético - se vendeu aos conceitos dos líderes da Igreja do Reverendo Moon para, de forma bizonha, fecharem todos os clubes sobre os quais o reverendo tinha influência direta ao redor do mundo", afirmou Paulo Telles ao UOL Esporte. De fato, a Igreja da Unificação decidiu vender o Ilhwa Chunma FC, que passou às mãos da Prefeitura de Seongnam em 2014 e virou o Seongnam Football Club.

No Brasil, a solução financeira foi arrendar a vaga do Cene para o Guaicurus e vender o centro de treinamentos, o que enfrenta resistência do fundador do clube. "Entrei com o processo na Justiça tentando impedir de venderem o CT do Cene. Pelo menos, até agora, está impedido - não sei até quando", disse Paulo Telles.

A situação é semelhante no interior de SP. Afastado do futebol profissional, o Atlético Sorocaba não sabe o destino de seu centro de treinamentos (sede dos treinos da seleção da Argélia na Copa do Mundo de 2014) e de suas equipes de base. Com futuro indefinido, a única certeza do clube é que os investimentos oriundos da Igreja da Unificação passaram a fazer falta.

"Todo esse projeto do Atlético Sorocaba era um projeto do próprio Reverendo Moon mesmo. Ele era um homem idealista; entendia que, através do esporte, poderia quebrar muitos paradigmas – barreiras raciais, econômicas, nacionais. Através do futebol, ele queria implantar essa filosofia de paz mundial. Ele investiu financeiramente e todo seu coração no Atlético Sorocaba", contou Benedito Sampaio, vice de futebol do clube paulista, por telefone.

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Atlético Sorocaba foi rebaixado na Série A2 2016; em 2017, não entrará em campo

"Com o falecimento dele, esses investimentos não existem mais. Ficou muito difícil. O futebol é muito caro e se criou uma estrutura bastante cara. Aí fica muito difícil tocar o futebol. Por isso que é necessário saldar as despesas", acrescentou.

Nos dois clubes, a solução foi tirar o time de campo – o Cene em 2016, o Atlético Sorocaba em 2017. No Mato Grosso do Sul, porém, Telles vê necessidade mais drásticas de mudança, com direito a renúncia de José Rodrigues e a convocação de novas eleições.

"Hoje, se eles me entregarem o clube, sou capaz de retirar ação do impedimento da venda do CT. Para mim, é muito mais importante o Cene vivo do que o CT", diz Paulo Telles, que prevê o retorno imediato do futebol do Cene após a eventual renúncia do atual presidente. "Fui o fundador do clube, comecei ele dentro de uma fazenda juntos com peões e trabalhadores rurais. Não é impossível para nós recomeçarmos do nada, do zero. Eles saindo, nós levantamos de novo", promete.

No Atlético Sorocaba, Benedito Sampaio faz planos para o retorno. Segundo ele, o clube não paralisará totalmente suas atividades, mas terá que rever "direitinho" o projeto para poder retornar aos gramados na quarta divisão paulista.

"A diretoria anterior não conseguiu antever, prever as consequências do falecimento do Reverendo Moon. Na sequência, o clube sentiu mesmo a falta de investimento. Agora, a ideia é reparar o futebol por enquanto, pelo menos nesse próximo semestre, e resolver todos os problemas financeiros, estudar o projeto direitinho, fazer um planejamento consistente", afirma o vice de futebol.

Rasdair Mata/Divulgação
José Rodrigues, presidente do Cene e presidente em exercício do Atlético Sorocaba
À reportagem, Paulo Telles ainda faz duras críticas aos administradores do Cene e do Atlético Sorocaba.

"Eles poderiam até sair do futebol como saíram, mas jamais poderiam fechar os clubes. Os clubes não são deles, são patrimônio histórico e cultural das cidades de Sorocaba e Campo Grande. É desrespeito com todos os cidadãos e torcedores", critica. "A Igreja quer vender todo o patrimônio que os clubes têm para pagar dívidas - até aí, tudo bem, se eles provarem que são donos realmente. Mas fechar os clubes? Isso é desrespeito. Se não querem mais tocar, saiam, deixam os sócios e torcedores escolherem novas diretorias e deixem os clubes viverem. Não respeitam nem o legado que o Reverendo Moon deixou no Brasil."

O UOL Esporte tentou entrar em contato com José Rodrigues. No entanto, o dirigente não respondeu aos contatos até a publicação desta reportagem.

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