Maior alvo da Fifa, gritos de 'bicha' geram mais de R$ 2 milhões em multa

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • AFP PHOTO /DANIEL CASELLI

    Manifestações homofóbicas da torcida chilena geraram as penas mais pesadas

    Manifestações homofóbicas da torcida chilena geraram as penas mais pesadas

Nove federações e confederações nacionais, todas de países da América Latina, foram multadas por gritos e cânticos homofóbicos das torcidas em partidas das eliminatórias para a Copa da Rússia. Ao todo, as multas somam 610 mil francos suíços (mais de R$ 2 milhões) e foram aplicadas ao longo do último ano.

A seleção chilena, além de multada, foi proibida de atuar em seu principal estádio em uma partida no ano que vem.

O endurecimento da punição faz parte de uma postura mais agressiva da Fifa na tentativa de coibir manifestações homofóbicas nos estádios. O relatório do Comitê de Disciplina da entidade divulgado na última quinta-feira mostra o endurecimento.

Entre todas as posturas punidas pela Fifa, gritos de bicha (ou puto, na acepção espanhola do termo) e canções que fazem referência à sexualidade de maneira depreciativa foram as infrações que receberam as multas mais altas. Ao todo, a Fifa apontou 26 ocorrências desse tipo. Houve até mais casos de invasões de campo e de acendimento de artefatos pirotécnicos (como sinalizadores), mas em geral eles renderam punições mais brandas, como uma advertência.

As multas por homofobia variaram entre R$ 50 mil e R$ 165 mil. O único caso punido apenas com advertência foi um jogo da Eslovênia com o México, no qual os latinos foram acusados. Apontados como a origem do grito no continente, os mexicanos já recorreram de algumas dessas punições, alegando que em sua cultura, a provocação não é considerada ofensiva.

Problemas como invasão de campo, uso de sinalizadores e atrasos no início ou reinício de jogo foram punidos com multas mais baixas ou advertências.

Em setembro, a atual secretária-geral da Fifa, a senegalesa Fatma Samoura, a primeira mulher e primeira pessoa não europeia a ocupar o cargo, já havia prometido penas mais duras para episódios de discriminação, como racismo, homofobia e xenofobia. Federações como as da Croácia e de Kosovo também foram multadas por gritos xenófobos de seus torcedores contra os sérvios.

Multa é considerada pouco eficaz na conscientização do torcedor

Mas a multa será suficiente para silenciar manifestações homofóbicas nos estádios?

De acordo com o defensor público Bruno Baghin, que atua no núcleo de diversidade da Defensoria Pública de São Paulo, o endurecimento da punição é um avanço no combate à homofobia dos estádios. Ele afirma, porém, que a perda de mando de campo ou a impossibilidade de entrada de torcedores talvez fossem medidas mais eficazes.

"Se você pune o clube apenas com multa, o torcedor não sente, pro torcedor não tem um efeito imediato", disse ele, que recentemente iniciou um processo contra uma organizada do Corinthians, também por homofobia. "Mas não poder entrar no estádio ou o time perder ponto, isso sim gera um receio no torcedor, que vai controlar o colega do lado, evitar que esse grito se propague."

A associação chilena de futebol, aquela que sofreu as penas mais duras até agora, iniciou uma campanha de conscientização em parceira com uma ONG de combate ao preconceito. A federação mexicana, apesar de ter recorrido da punição, também lançou filmes a favor da diversidade, com a participação de jogadores da seleção.

Procurada, a CBF não informou se pagará ou recorrerá das multas (que no caso dela somam R$ 150 mil), mas disse que está fazendo uma campanha para evitar discriminação em jogos da seleção brasileira.

"A CBF promove a campanha Somos Iguais contra todos os tipos de preconceitos", escreveu a entidade em nota. "Nas partidas de competições organizadas pela CBF, placas de publicidade são usadas para divulgar a campanha. Desde o jogo contra a Bolívia, uma mensagem pelo respeito vem sendo repetida (telão e locutor no serviço de som) antes e no intervalo da partida. Esse procedimento será repetido em Brasil x Argentina, no Mineirão."

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