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Como imitar uma águia fez brasileiros viverem pânico na Libertadores

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

18/11/2016 06h00

Hoje sem nem ter uma divisão para atuar no Campeonato Brasileiro, o São Caetano viveu momentos de glória no início do século XXI. Entre os momentos mais históricos da equipe do ABC estão o título paulista de 2004, o vice da Libertadores em 2002 e um jogo mais que especial no mesmo torneio sul-americano do ano de 2004: uma classificação para lá de inesquecível em pleno estádio Azteca, contra o América do México, em jogo que o elenco do São Caetano chegou até a temer o risco de morte.

Depois de uma vitória por 2 a 1 no Anacleto Campanella, o São Caetano vinha perdendo por 1 a 0 no Azteca e sendo eliminado nas oitavas de final pelo América do México, time o qual já havia enfrentado duas vezes na fase de grupos e criado certa rivalidade, especialmente com o meia Blanco, ídolo mexicano. No segundo tempo, porém, Fabrício Carvalho serviu Triguinho, que invadiu a área e mandou para as redes, fazendo o gol que colocava o São Caetano nas quartas de final. Após o apito final, sobrou provocação, e uma briga generalizada estourou.

“Eu dei o passe do gol para o Triguinho, e ao final da partida, comemorando ali, eu acabei fazendo uma águia, que é o símbolo do América do México... o Blanco provocava muito a nossa equipe e, quando fazia gol, fazia aquela imitação de águia. E após o jogo e a classificação eu acabei imitando a águia e foi um alvoroço total, a torcida ficou bastante chateada, bastante enervada no momento”, recorda Fabrício Carvalho em entrevista ao UOL Esporte.

Fernando Santos/Folha Imagem
Imagem: Fernando Santos/Folha Imagem
“Eles já estavam fazendo festa, tinham mais de 70 mil pessoas no estádio, estava preparada uma grande festa após o termino da partida no caso de uma classificação da equipe deles, mas nós acabamos estragando a festa, e agora a gente dá risada com muita naturalidade, mas no momento foi bastante difícil, conflitante, a gente não conseguia sair de campo. Começou uma discussão entre o Silvio Luis, Blanco e o Anderson Lima, onde o Anderson Lima acabou levando uma cotovelada do Blanco no final do jogo. O Cabañas também estava lá e acabou tendo um entrevero entre eles, e aí começou toda a briga”, lembra o ex-atacante do Azulão.

A briga tomou conta do Azteca e até mesmo torcedores chegaram a invadir o gramado com alguns objetos. Entre eles, estava um inusitado carrinho de mão, que por pouco não virou arma de guerra. O elenco do São Caetano – que na época era comandado por Muricy Ramalho – só conseguiu escapar depois de correr muito desde o meio-campo até o vestiário, local onde conseguiu encontrar um pouco de paz antes de ser escoltado rumo ao hotel.

“O nosso goleiro reserva, o Fabiano, começou a brigar com o massagista deles, levou uma cacetada na cabeça, até lembro muito bem que teve um corte na cabeça, e depois do jogo a gente tirou um sarro porque os policiais mexicanos são baixinhos e a torcida conseguia entrar, e a gente não ia ser defendido por esses caras, não, eles não teriam condições de nos defender, não, então nós ficamos no meio-campo esperando o alvoroço terminar, e a torcida tanto de um lado como de outro tentando invadir o campo, empurrando o alambrado e, quando a gente se deu conta, nós olhamos para trás e vimos torcedores descendo do alambrado com pedaço de ferro nas mãos... Não me pergunta aonde eles acharam pedaços de ferro lá, e vieram em nossa direção; tinha carriola também, porque no intervalo do jogo o zelador do campo entrava pra fazer algum reparo no gramado, e eu pensei: ‘os torcedores vão pegar a carriola’, eu imaginei isso, e estavam vindo em nossa direção e, no momento, a gente saiu correndo atrás do gol que estava o Silvio Luiz”, conta Fabrício Carvalho.

“Eu só lembro que a escada da descida para o vestiário era tipo caracol, você imagina mais de 15 pessoas tentando passar por aquilo ali. Então, as pessoas de longe não imaginam realmente o que a gente passou lá, todo o temor... E a porta, quando a gente tentou entrar no vestiário, estava fechada, eu lembro que a gente meteu o pé na porta e arrebentamos e entramos. Quando acabou o jogo eu estava com câimbra, eu esqueci câimbra, esqueci tudo e saí correndo [risos]. Nós ficamos quatro horas para sair do estádio porque a torcida estava realmente revoltada, não imaginava o que a gente ia aprontar contra eles lá dentro. O treinador era o Muricy Ramalho, ele entrou assustado no vestiário, não era para menos, né? Depois fomos escoltados do estádio até ao hotel e me lembro que a primeira coisa que eu fiz quando cheguei no hotel foi ligar para o Brasil, eu imaginava que toda a minha família estava bastante aflita por toda essa situação ocorrida, então eu liguei e passei tranquilidade para o meu pai e minha mãe”, acrescenta.

Fabiano, um dos principais personagens da briga, recorda do seu ponto de vista como foi a classificação e, especialmente, toda confusão que colocou os atletas e a delegação do time brasileiro em risco. Ele ainda acrescenta as provocações de Blanco, principal responsável pela briga que levou alguns jogadores do São Caetano até às lágrimas, tamanha a tensão.

AP Photo/ Eduardo Verdugo
Imagem: AP Photo/ Eduardo Verdugo
“Ah, não tem como esquecer este jogo, foi um jogo atípico. O nosso time era muito bom, não foi nada de mais a gente ter eliminado o América lá. É que teve essa comemoração do Fabricio Carvalho imitar a águia... No jogo aqui o Blanco tinha feito um gesto em cima do finado Serginho, ele fez o gol aqui no Brasil e ficou imitando, sei lá se era uma galinha, e o time todo ficou muito bravo, eu já tinha brigado com o Blanco aqui no Brasil durante o aquecimento, a gente foi discutir lá no México de novo e ele disse que ia me pegar, estava um clima meio hostil no México, e nós fomos para lá e eliminamos eles. Ele era muito folgado, um dos mais do futebol mundial. Ele tem muita moral lá no México, ele é ídolo lá. Ele deu uma cotovelada no Anderson Lima que, se pega de jeito, ele estaria aleijado”, lembra Fabiano, que depois dá detalhes de sua ‘briga particular’ com o massagista do América (vídeo acima).

“Foi uma troca de soco pesada, eu com o massagista do América, e tudo aquilo depois eu fui saber que foi o Blanco que armou. Ele deu dinheiro para o cara me pegar e o cara me agrediu com aquele spray que usam aí. Cortou a minha cabeça, e eu peguei o massagista de porrada. Eu também acredito que o Fabricio Carvalho, quando fez o gesto de imitar a águia, não quis menosprezar ninguém, foi uma comemoração para tirar sarro do Blanco, e acabou causando tudo aquilo, mas foi gostoso, até pelo o que o Blanco fez aqui no Brasil. Mas a briga foi feia, o Marcelo Matos chorava, muitos jogadores nossos ficaram desesperados com aquela situação. Teve hora lá que a gente achou que ia morrer, era muita gente contra nós, a sorte foi que eu abracei o Oscar Ruiz, que apitou o jogo, seguimos para o vestiário e entramos juntos... Foi onde a gente se salvou porque a torcida estava dentro de campo já, tinha mais de mil pessoas dentro do campo, então essa invasão de torcedores foi assustadora”, recorda.

O já experiente Anderson Lima, na época com 31 anos, admite que a ira de Blanco não foi ‘de graça’, e foi provocada através de uma dica de um amigo sobre um detalhe da vida pessoal do jogador mexicano, não revelado pelo ex-lateral direito do São Caetano. Revoltado, Blanco não deixou barato e largou o cotovelo em Anderson Lima, em mais uma passagem da briga.

“Naquela época nós tivemos quatro confrontos contra eles: na fase de grupos e depois nas oitavas da Libertadores da América, e eu tinha um amigo no México que tinha contato com o Blanco e me disse que ele era pavio curto em relação a algumas coisas que ele não gostava de ouvir. E aí eu peguei ele nesse campo frágil e o segundo jogo lá, nas oitavas, foi uma batalha, mas a nossa equipe era muito bem treinada, era muito bem formada naquele ano, e a gente sabia o que queria, era um grupo realmente sensacional... E no final do jogo teve confusão, eu pensava que ia ficar só dentro de campo, mas infelizmente passou para fora, para os torcedores, os torcedores ficaram revoltados e automaticamente a gente se reuniu no meio de campo; e quando a gente estava no meio do campo a torcida conseguiu abrir o portão do fundo. Então imagina a gente? Nós ficamos numa encruzilhada, a gente não tinha para onde correr, então foi uma partida muito difícil dentro e fora do campo”, conta.

AP Photo/Natacha Pisarenko
Imagem: AP Photo/Natacha Pisarenko
“Eu não posso falar o que eu falei pra ele, mas eram coisas ligadas à parte pessoal, que tiravam ele do sério. Era coisa particular dele, de família, mas eu não quero entrar muito no mérito, isso já passou, e essas coisas não valem mais a pena, eu já tinha falado para ele aqui em São Caetano e depois no segundo jogo, quando a gente marcou o gol de empate, aí começaram as provocações. E o Blanco já tinha arrumado confusão desde o primeiro jogo, na fase de grupos, já era uma rivalidade. E no final, quando eu falei para ele, ele me acertou uma cotovelada e, automaticamente, teria que sair do campo e ir para o vestiário, só que ele ficou atrás do gol quando foi expulso e, quando acabou o jogo, o goleiro Silvio Luiz se ajoelhou para agradecer a Deus e o Blanco veio e deu um pontapé nele, e a confusão começou. Eu também acho que a nossa logística foi muito errada em relação a termos de segurança. A gente só tinha o Carrasco [segurança], contrataram dois seguranças de terno e gravata que realmente não eram o que a gente necessitava naquele momento. Ou seja, foi um momento difícil porque o jogo passou ao vivo aqui no Brasil e nossos familiares ficaram preocupados”, completa.

Classificado para as quartas de final, o São Caetano acabou eliminado nos pênaltis pelo Boca Juniors, da Argentina, que só foi batido na grande decisão pelo Once Caldas, da Colômbia, também nas penalidades máximas.

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