Como Medellín "parou" para ajudar a levar a Chapecoense de volta para casa

Felipe Pereira e Gustavo Franceschini

Do UOL, em Medellín (Colômbia)

  • Divulgação/Cuenta Oficial del Departamento de Policía Antioquia

    Equipes de resgate no local da queda do avião com o elenco da Chapecoense

    Equipes de resgate no local da queda do avião com o elenco da Chapecoense

Quando a aeronave sofreu uma pane elétrica e chocou-se contra a montanha, o drama estava apenas começando. Em uma tragédia da magnitude da que atingiu a Chapecoense, com 71 mortes em um acidente na última terça, ser rápido significa minimizar a dor. Para que familiares pudessem ter os corpos de seus entes queridos com a maior celeridade possível, a Colômbia mobilizou centenas de pessoas nos últimos três dias, entre bombeiros, psicólogos, tradutores, médicos, advogados e agentes funerários.

"São mais ou menos 800 pessoas trabalhando. Uma operação dessas, com essa complexidade, em três dias, tem de ser qualificada como rápida. Em outras situações, podíamos estar até agora retirando os corpos", disse Carlos Ivan Marques, diretor nacional de riscos e desastres do governo colombiano.

O esforço coletivo permitiu que os corpos de bolivianos, paraguaios, venezuelanos e, principalmente, brasileiros pudessem voltar para casa. Nesta sexta, se tudo correr como o planejado, aviões dos três países devem pôr fim à operação que começou nos minutos seguintes ao choque levando todos de volta. 

Primeiros socorros no frio e acesso difícil

Alertados pelo aeroporto e pelo povoado vizinho à montanha Cerro Gordo, local da queda, equipes de paramédicos e bombeiros foram ao local. O terreno acidentado exigia uma caminhada de 40 minutos do último ponto em que veículos chegavam até o local do acidente. Cada pessoa era carregada por quatro ou seis socorristas, contou ao UOL Esporte Luiz Afonso, da Cruz Vermelha.

Com a chuva e o vento que marcaram a primeira madrugada, as buscas chegaram a ser suspensas por algumas horas, mas logo foram retomadas. O esforço feito para retornar a montanha pode ter salvo a vida de Neto, último sobrevivente a ser resgatado. Com hipotermia e muitas fraturas e escoriações, ele hoje se recupera gradativamente em um hospital de Rio Negro, na região metropolitana de Medellín. 

Voluntários oferecem as próprias casas às famílias

O baixo número de sobreviventes, no entanto, levou as autoridades a se planejarem para o pior. Uma campanha online pediu voluntários para a recepção às famílias - psicólogos e tradutores de português eram as prioridades. Mais de 200 pessoas compareceram aos postos indicados para serem separados em trios ou duplas que tinham a missão de prestar todo auxílio aos parentes que decidissem ir a Medellín.

A maioria das famílias decidiu não vir, mas quem fez a viagem se apoiou intensamente nesse grupo. Segundo o embaixador brasileiro na Colômbia, Júlio Bitelli, alguns voluntários abriram suas casas para os parentes que preferiram um ambiente mais familiar e acolhedor que um hotel.

Procedimentos legais na madrugada

O fato do avião não ter explodido na queda evitou que os corpos fossem carbonizados. Com isso, os procedimentos de identificação foram acelerados ao máximo para que as vítimas pudessem ser enviadas aos seus países de origem de forma breve.

O problema é que o trâmite legal exige alguns processos burocráticos. Além da identificação em si, as autoridades fazem a necropsia para decidir a causa da morte e providenciam os documentos para a expedição do corpo, como contou Jorge Pagura, diretor da comissão de médicos da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

O processo, como um todo, exigiu plantão de um batalhão de médicos legistas e advogados convocados pelo governo colombiano ao longo de duas madrugadas. Tudo para cumprir o cronograma e permitir que os corpos fossem trasladados antes do fim de semana.

Embalsamando as vítimas mutiladas

Depois de todo o processo legal, por questões estéticas e sanitárias, os corpos de quem não sobreviveu são levadas ao serviço funerário. Cerca de 150 funcionários de quatro empresas especializadas de Medellín fizeram uma força-tarefa para preparar e embalsamar as vítimas. Foram turnos insalubres de 20 horas por dia, em que os retornos para casa serviram apenas para um banho e um breve cochilo, como conta Carlos Alberto Palacios, chefe de uma das funerárias.

O trabalho foi um dos mais difíceis de todo o processo. Em contato direto com as vítimas, os profissionais tiveram de recuperar as mutilações causadas pelos acidentes antes do envio dos caixões. Os corpos menos avariados consumiram duas horas de trabalho. Mas estes eram minoria. Os técnicos trabalharam cerca de quatro horas em quase todas as vítimas.

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