Crianças de Chapecó discutem tragédia em sala de aula para enfrentar a dor

Bruno Freitas, Danilo Lavieri, Felipe Vita e Luiza Oliveira

Do UOL, em Chapecó (SC)

Empurradas para viver um luto não programado, as crianças de Chapecó são uma das faces mais escancaradas da dor da cidade, depois do acidente que vitimou a delegação da Chapecoense na Colômbia, na segunda-feira. Nos últimos dias, os sentimentos de tristeza e de incompreensão têm acompanhado os meninos locais até a sala de aula, onde eles encontram incentivos para se expressar emocionalmente.

Na manhã de terça-feira, quando a notícia da queda do avião da Chapecoense se espalhou, a maior parte das escolas da cidade dispensou seus alunos. As aulas estiveram suspensas também na quarta, mas foram retomadas na última quinta (na sexta os estudantes estarão novamente dispensados). No entanto, apesar da volta ao ambiente escolar, crianças e adolescentes não tiveram condições emocionais de se dedicar a matérias de sala – nem mesmo os professores.

Felipe Vita/UOL
"Não deu para ter aula. A gente passou a maior parte do tempo discutindo como foi essa perda. A concentração deles em termos de matéria, de disciplina, não teve nenhuma. Impossível. Queira ou não, a gente também acaba transmitindo para eles esse sentimento de dor", relatou Joceli Zancanaro, professora da Escola Estadual Pedro Maciel.

"Hoje mesmo já fizemos orações, fizemos trabalhos com cartazes. Eles estão inconsoláveis, bem difícil realizar qualquer trabalho de conteúdo", endossou Alexandra Pacassa, professora na mesma escola.

Escola vizinha de estádio é retrato de luto

Com uma espiada pela janela da sala de aula da Escola Estadual Pedro Maciel é possível ver a Arena Condá do outro lado da rua. A relação entre os dois espaços é mais do que de proximidade física, já que cerca de 70 jogadores das categorias de base da Chapecoense estudam ali. Também por isso, o clima de luto dominava o ambiente na instituição de ensino.

Na quinta, vários alunos circulavam dentro da escola com camisas da Chapecoense. Alguns deles não conseguiam segurar as lágrimas. Na frente da Pedro Maciel, garotos discutiam conjecturas para as causas do acidente em Medellín, com repertório de quem estuda aviação civil. Não era possível se desvencilhar do tema.

Felipe Vita/UOL
Alunos circulavam com camisas da Chape; alguns não conseguiam segurar lágrimas

"Foi difícil chegar à escola. A gente é vizinho do estádio. A gente chega aqui e dá de cara. Sempre víamos os jogadores chegando. É bem difícil para a gente, dói. Muitos daqui da escola conheciam os jogadores", disse Bruna Martins, de 14 anos.

Após as aulas da manhã, Marcos Vinícius Scherer deixou a escola na companhia da amiga Maiara Gonçalves da Silva, ambos de 14 anos. Os alunos cruzaram a rua e se instalaram nas arquibancadas da Arena Condá, depois de enfrentarem uma manhã delicada em ambiente de estudo.

"Foi bem complicado, a escola bem quieta. Como na nossa escola estudam os jogadores, ali está bem quieto. Não está a escola normal, com aquele alvoroço. Corredor quieto", descreveu o estudante.

Já de volta à calçada da frente da escola, Bernardo Flores comentava com um amigo sobre o acidente da Chapecoense. O menino de 13 anos se emocionou ao recordar ter recentemente realizado o sonho de ganhar uma camisa autografada pelos jogadores "Cheguei a chorar na escola. Não tenho palavras para descrever", afirmou.

Crianças também levam a dor até a Arena Condá

No estádio da Chapecoense, um destacamento de psicólogos e agentes de saúde atuou nos últimos dias de forma voluntária para atender as famílias das vítimas. No entanto, em alguns momentos, esses profissionais tiveram que lidar com questões trazidas por torcedores do time – inclusive os mais pequenos e seus pais.

"É uma cidade que vai ter que elaborar o luto. Eu encontrei um pai que me perguntou: 'como vou explicar para o meu filho que o (goleiro) Danilo morreu? Ele tinha tudo do Danilo em casa'", relatou o psicólogo André Pedrosa, funcionário da Prefeitura de Chapecó e professor universitário na cidade.

Dentro do gramado, crianças como Carlos Miguel Garcia também são conscientizadas sobre o que está acontecendo. O menino de 5 anos é um dos mascotes da Chapecoense, costuma entrar em campo com os jogadores, vestido de índio. Nos últimos dias, esteve na Arena Condá para brincar e entender aos poucos a situação ao seu redor.

"Por enquanto ele não tem muita noção do que está acontecendo. Me perguntou se um amigo dele tinha morrido, um diretor chamado Gélson. Eu levei ele até o Gélson e falei: 'viu, ele não morreu'. Quando os corpos chegarem acho que ele vai começar a ter noção", afirmou Alessandro Garcia, pai do pequeno mascote.

Bruno Freitas/UOL
'Por enquanto ele não tem muita noção do que está acontecendo', diz pai de C. Miguel

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