'Anjo' nunca entrou num estádio de futebol e deseja conhecer sobreviventes

Felipe Pereira

Do UOL, em Medellín (Colômbia)

Johan Alexis Ramirez, 15 anos, estava deitado na cama quando ouviu um estrondo. Ele e o pai acordaram tentando entender o que acontecia e correram para oferecer ajuda no resgate às vítimas do acidente que vitimou a delegação da Chapecoense, na semana passada. O garoto auxiliou no resgate de três sobreviventes, o que lhe rendeu uma fama que o jovem não consegue dimensionar.

Ele continua vivendo em um povoado bastante afastado de Medellín e fazendo as mesmas atividades de antes. Como está de férias, vai ajudar o pai na roça todos os dias. Mas o que Johan gostaria é conhecer as pessoas que ajudou a salvar e as famílias das vítimas fatais.

Fama no Brasil é desconhecida

Tratado como 'anjo' pela imprensa internacional, Johan pouco sabe sobre a popularidade e o carinho que conquistou no Brasil. "Só sei que um senhor fez uma reportagem sobre mim. Está em português e não posso entender bem."

Ser conhecido não mudou a rotina do garoto que mora numa casa simples de um povoado. Ele continua madrugando para trabalhar na roça com o pai, assim como fez na terça-feira depois de ajudar a resgatar os sobreviventes.

"Consegui dormir lá pelas 4h30 e tive que acordar às 5h30 para trabalhar. Neste momento estamos cumprindo um contrato de hortênsias. Precisamos arrancar uma plantação de hortênsias."

Johan trabalha desde os cinco anos e se preocupa em ajudar o pai a pagar pelo arrendamento das terras. Eles plantam tomates e milho.

Nunca foi ao estádio e gostaria de se encontrar com os sobreviventes

"Fui uma vez ao estádio, mas só vi por fora. Nunca entrei no estádio, nunca vi uma partida."

O estádio em questão é o Atanasio Giradot, local onde o Atlético Nacional, time do coração, manda suas partidas. No futebol internacional, Johan torce pelo Real Madrid e o jogador preferido é Cristiano Ronaldo. Mas hoje os atletas que mais deseja conhecer são aqueles que ajudou a tirar dos destroços do avião da Lamia.

Ele gostaria de ser um jogador profissional. Se afastou deste caminho no ano passado, ao deixar de ser o lateral ou volante do time do povoado onde vive. Faltava dinheiro para ir aos treinos.

Reconhecimento familiar

Depois de ajudar os bombeiros e policiais, Johan conversou com o pai, Miguel Ramirez, sobre o que aconteceu na noite da segunda-feira passada. "Eu e meu pai falamos que nos sentimos satisfeitos de ajudar as pessoas. E todos os meus familiares têm me parabenizado por ajudar aquelas vidas."

A noite do acidente mudou o garoto de 15 anos. Ele ressalta que foi uma mudança positiva.

"Sou uma pessoa diferente e mudei para melhor. Já tenho uma resposta à vida: que você sempre tem que ajudar sem esperar nada em troca, fazer com o coração. Que o material não importa nada. O mais importante e sentir-se bem."

Em seguida, completa que está se sentindo bem no momento.

Oração pelas vítimas 

O acidente com o avião da Lamia introduziu uma nova rotina nas orações de Johan.

"Desde aquele momento, todas as noites tenho rezado por eles. Pelas pessoas que sobreviveram, mas ainda mais pelas famílias das pessoas que morreram, para que tenham força para seguir adiante."

Lembrança de uma noite difícil

O garoto conta que, quando chegou ao local do acidente, o jogador Alan Ruschel havia acabado de ser encontrado. As imagens do trabalho dos bombeiros e policiais estão vivas na memória. "Me lembro que Alan estava quase inconsciente e o bombeiro falava com ele para que respondesse e não desmaiasse."

O caso do atleta teve um final feliz. Outros, porém, não tiveram a mesma sorte. "Outra situação que lembro muito foi quando estávamos tirando um paciente. Estava imobilizado, andamos 10 metros e ele morreu. Não sei quem era."

Função no resgate

O garoto de 15 anos ficou encarregado de conduzir os socorristas porque conhece bem a região. Johan conta que guiou os bombeiros que carregam Alan Ruschel, Follmann e Erwin Tumir (boliviano tripulante do avião). Os outros dois sobreviventes foram levados por seu pai. A dupla permaneceu ajudando até ser expulsa por um policial. 

"Eu estava tirando o Tumiri e um policial nos mandou sair. Meu pai explicou que estávamos ajudando e mostrando o caminho para resgatar as pessoas. Ele disse 'não importa, que saiam'. Quando um bombeiro nos defendeu, ele disse que era para sair e saímos."

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