Trauma e rebaixamento: como a tragédia de 2009 afetou o Brasil de Pelotas

Emanuel Colombari e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

  • Daniel Cassol/UOL

    Acidente de ônibus em janeiro 2009 vitimou o zagueiro Régis e o Cláudio Millar (na bandeira); preparador de goleiros Giovani Guimarães também morreu no desastre

    Acidente de ônibus em janeiro 2009 vitimou o zagueiro Régis e o Cláudio Millar (na bandeira); preparador de goleiros Giovani Guimarães também morreu no desastre

O desastre aéreo da Chapecoense na madrugada da última terça-feira (29) trouxe às memórias de muitos torcedores outra tragédia recente do futebol brasileiro: o acidente rodoviário envolvendo a delegação do Brasil de Pelotas em 15 de janeiro de 2009.

Na ocasião, o time voltava de um amistoso contra o Santa Cruz (RS) na cidade de Vale do Sol quando o ônibus da equipe saiu da pista e caiu de uma ribanceira. Morreram o zagueiro Régis, o atacante Claudio Millar e o preparador de goleiros Giovani Guimarães.

Na ocasião, o Brasil de Pelotas era presidido por Helder Lopes, que escapou do acidente – segundo o então dirigente, "foi a única viagem que eu não fui". Hoje, passados quase oito anos daquele acidente, o próprio Helder relembra o fato ao acompanhar o drama da Chapecoense. E conta o que o time passou para superar o trauma e os danos psicológicos.

"Foi muito semelhante com a tragédia da Chapecoense, só que em dimensão menor. Porque não faz diferença perder duas, três pessoas ou 71. Perde igual, né? Como é que você vai dizer para uma mãe a perda?", questiona Helder, empresário do ramo imobiliário, em entrevista ao UOL Esporte.

"A dificuldade na época foi imensa, porque ninguém é profissional de tragédia. Ninguém se prepara para chorar morto, para administrar perdas. Ninguém se prepara para isso. A gente fez um trabalho no sentimento humano", completou.

Daniel Cassol/UOL
Segundo Helder Lopes (à direita), então presidente do Brasil de Pelotas, prioridade foi confortar famílias de vítimas fatais
O dirigente lembra que a prioridade do Brasil de Pelotas na ocasião foi "confortar as famílias das vítimas fatais", antes de cuidar dos feridos. Inicialmente, sete integrantes da delegação se feriram no acidente, o que atrapalhou profundamente a participação do time no Campeonato Gaúcho daquele ano. Apesar dos esforços inclusive de rivais, que emprestaram jogadores, o Brasil foi lanterna da competição, com uma vitória e quatro empates em 15 jogos e acabou rebaixado.

"O ideal teria sido o quê? Teria sido nós não disputarmos (o Gauchão) por várias questões - técnicas, táticas, físicas, psicológicas e emocionais", explica Helder, em situação semelhante à da Chape – o time catarinense não entrará em campo na última rodada do Campeonato Brasileiro, e conta com o apoio dos clubes da Série A para não ser rebaixadas nas próximas três edições do torneio.

"Em momento algum, ela (a Federação Gaúcha de Futebol) oficializou o seguinte: 'Olha, vocês não jogam e não caem'. Seria o ideal, não jogar e não cair. E como se faz isso? Formalizando perante aos outros clubes, perante a CBF. Porque eu também não seria ingênuo de chegar ao presidente da Federação (Gaúcha, Francisco Noveletto) e falar: 'nós não vamos jogar e não vamos cair', porque amanhã ou depois algum clube que cai ou se sinta prejudicado vai entrar na Justiça", explica, citando o Internacional como caso referente à tragédia de 2016.

"Eu não sei a ideia, mas paira no ar - o Internacional não quer jogar a última rodada do Brasileiro da Série A, e, se não sair a última rodada, não terminou o campeonato. Se não terminar o campeonato, não tem rebaixado. É uma armação, é uma brecha que estão tentando abrir; então, no nosso caso, nunca ninguém oficializou", acrescentou Helder Lopes.

Na época, pesou contra o afastamento do Brasil de Pelotas o fato de o clube ter compromissos a cumprir com os funcionários do clube.

"Eu tinha que indenizar as famílias dos mortos, tinha que dar assistência médica, hospitalar, alimentação, auxílio às famílias e aos feridos, e pagar salários. Porque eles tinham contratos em vigência. Como é que eu faço isso sem jogar futebol? Se eu não tenho o aporte financeiro?", relembra.

"Sabe como nós conseguimos este aporte financeiro para minimizar essas questões? Esses gastos? Pelos patrocínios. Tu tem um time, o patrocínio só vai botar (a marca) na camisa se jogar, né? Então, para buscar patrocínio, era com esta condição - o torcedor não vai pagar ingresso se não tiver futebol. Nós tivemos alguns patrocínios de empresas privadas, tivemos um auxilio ridículo do Governo do Estado, uma quantia irrisória - que eu considero baixa - da Federação Gaúcha de Futebol. Todos esses valores em dinheiro foram revertidos em indenização aos familiares dos mortos. As outras receitas provenientes do futebol foram para pagar todas as nossas despesas com o futebol. Cumprimos com todos os deveres legais e morais."

O trauma após o acidente

Diante do cenário, o Brasil de Pelotas passou a sofrer com os resultados em campo. No Gauchão, foi rebaixado em 2009 e só retornou à elite ao conquistar o título da Divisão de Acesso em 2013. No Campeonato Brasileiro, o time foi rebaixado da Série C em 2011, retornando ao faturar o vice da Série D em 2014. Em 2015, chegou às semis da Série C, subindo para a disputa da Série B em 2016.

O acidente de 2009, porém, foi um duro golpe nas pretensões do clube na época. "Os jogadores remascentes do acidente não tinham condições psicológicas e nem físicas. Os jogadores não conseguiram dar continuidade ao condicionamento físico. O emocional imperou. Os novos que chegaram não tinham condições físicas, e a condição psicológica influencia em todo o grupo. Uma viagem nossa era um terror - ninguém reclamava, mas a gente percebia, os jogadores que não descansavam, não dormiam. Aquele jogador que a gente sentia que era extrovertido, que conversava, que falava, tu percebia que estava mais calado", explica Helder, indo além.

"Isso é trauma que, em alguns casos, o tempo dilui; em outros, não. Isso influenciou para o rebaixamento (em 2009). Nenhum treinador ia conseguir dar condição de trabalho técnico, tático. No acidente, o treinador era o Armando Desessards, que hoje é o nosso gerente-executivo. Após o acidente, assumiu o treinador Claudio Duarte; na segunda fase, assumiu o Abel Ribeiro", acrescentou.

Divulgação/Site oficial do Atlético-GO
O depoimento é atestado por jogadores que chegaram ao clube após o acidente. É o caso do meia Magno (foto), atualmente no Atlético-GO. Campeão da Série B em 2016, o jogador não pertencia ao grupo na época do acidente; mesmo assim, afirma que as sequelas emocionais permaneceram por bastante tempo.

"Assim que eu cheguei lá, percebi o time muito desestruturado psicologicamente, emocionalmente - principalmente jogadores que estiveram naquele acidente. Eles estavam muito sentidos ainda, e pouco a pouco a gente foi tentando se reerguer, mas com muita dificuldade. Hora ou outra vinham as lembranças", explica Magno.

"Isso acabou afetando a gente no Estadual. Chegou um momento que eu falei pra mim: 'Onde eu estou?'. Não tinha mais clima, mas tinha que ter a continuidade da competição. Posso falar que foi muito difícil", acrescentou.

Danrlei: o desabafo e as lembranças

Entre o fim de 2008 e o começo de 2009, o Brasil de Pelotas havia anunciado a contratação do goleiro Danrlei, ídolo do Grêmio com passagens por clubes como Fluminense e Atlético-MG. Embora praticamente não tivesse atuado em 2008, Danrlei chegou ao clube rubro-negro como um dos grandes reforços para a competição.

O goleiro estava no ônibus que se acidentou na cidade de Canguçu (RS), e inclusive ajudou no socorro aos companheiros. Hoje, nem gosta de falar "sobre esta questão".

"É difícil, porque depois (do acidente) eu só joguei por obrigação. Senão, não faria, não faria mesmo. Eu não tinha a menor capacidade psicológica, física, de forma alguma, de jogar futebol - tanto que eu não queria mais. Você não consegue imaginar como vai ser a sua vida daqui para frente. Tu entra no ônibus e vê que não consegue entrar, tu faz tal coisa e vê que não consegue fazer mais", relata Danrlei, citando a tragédia da Chapecoense.

"Eu sei como é ruim. Na verdade, é muito pior do que aconteceu com a gente. Eu tinha amigos ali, pessoas que que eu conhecia, e muitas vezes a gente sabe que aquela comoção passa em três dias, quatro dias. Tudo aquilo que todo mundo promete que vai fazer, que vai ajudar; depois baixa a poeira e ninguém faz nada na maioria das vezes", acrescentou, em tom crítico.

Daniel Cassol/UOL Esporte
Danrlei não gosta de relembrar acidente de 2009, mas cita falha humana; ex-goleiro ainda lembra mensagens trocadas com Danilo, da Chapecoense

Para o ex-goleiro, os dois acidentes foram provocados por falhas humanas. "Isso é o que dói mais. Isso transforma em algo muito pior. A única coisa que eu rezo e peço a Deus é que aquelas pessoas que estão hoje se comprometendo, falando 'vamos fazer isso', que façam. Que façam de verdade algo concreto, que não deixem isso nas redes sociais, que não deixem isso para uma entrevista só, que façam principalmente para as famílias", cobrou.

Em meio ao desabafo, porém, Danrlei relembra com carinho o trabalho com o preparador Giovani Guimarães. Embora os dois tenham sido colegas por poucas semanas no começo de 2009, o ex-goleiro cita bons momentos na convivência com o profissional.

"Eu cheguei lá depois do começo da pré-temporada. Tinha decidido que eu não ia mais jogar, ia pedir para não jogar, mas o Armando Desessards - hoje gerente-executivo - é meu amigo. Ele pediu para eu jogar, (disse) que precisava de um jogador experiente, e me convenceu a ir. Nas primeiras semanas, ficamos treinando eu e o Giovani. O Giovani estava com uma menina pequena, estava feliz, terminado o curso dele de educação física no final do ano de 2009. Só falava da neném, (dizendo): 'Ela está começando a falar'. Um cara do bem, um cara família, cheio de planos para o futuro", descreve.

"Você já imaginou quantos sonhos tinham os jogadores da Chapecoense? O próprio Danilo, que era goleiro… Quando teve o o jogo contra o Internacional em Porto Alegre, no qual ele foi muito bem. Mandei uma mensagem para o João Rodrigues que foi prefeito lá em Chapecó e é meu amigo. Falei para ele: 'Os gremistas todos te abraçam, tu fechou o gol, trouxe uma felicidade para nós, gremistas'. Foi um bom jogo, aquela coisa de rivalidade. O Danilo mandou (mensagem) pelo João Rodrigues, agradeceu e tudo mais, mandou uma camisa dele."

Assessor relembra motorista: 'Estava a 90 km/h na curva'

Aos 34 anos, Carlos Insaurriaga é o atual assessor de imprensa do Brasil de Pelotas. Naquele 15 de janeiro de 2009, era o fotógrafo do clube e um dos passageiros do ônibus que rolou pela ribanceira. Estava sentado no fundo do veículo, nas poltronas da fileira da direita. E talvez tenha sido a posição escolhida que o salvou.

"Eu estava mais no fundo do ônibus, do lado oposto do lado do motorista. Quem se machucou mais e faleceu estava do lado do motorista, na fileira atrás do motorista. O que tombou primeiro foi o lado do motorista", diz Insaurriaga, também apontando uma falha humana no acidente.

"Pela investigação que foi feita, foi constatada que era um motorista inexperiente. Tinha carteira nem fazia um ano, era um mecânico da empresa que, no dia, não tinha motorista; a empresa acabou dando isso para ele e ele falou 'eu levo', então deixaram ele levar. Tanto na ida como na volta, ele fez bastante barbeiragem, se perdeu. Ele estava me parece com quase 90 km/h de velocidade em uma curva que é 360 graus (sic); quando tu está de carro, você sente (a curva) a 40 km/h, imagina um ônibus e ainda em 90 km/h", acrescenta.

No momento do acidente, o então fotógrafo estava acordado, ouvindo música. "Eu não consigo dormir em viagem. Estava com fones escutando música. Foi tudo muito rápido, as pessoas se debatendo dentro do ônibus… Eu tive uma lesão no tornozelo, não cheguei a ter fratura, mas fiquei quase dois meses sem caminhar. No momento do acidente, eu tentei me levantar e não consegui por causa da perna; me arrastei até a janela e aí me retiraram, me puxaram para fora. Do lado de fora, tentei levantar para ajudar e não consegui. O pessoal falou: 'Acho que tu quebrou a perna'. Aí eu fiquei esperando o resgate."

O discurso de Insaurriaga reforça o impacto do acidente no emocional do grupo na ocasião. Mesmo passados quase oito anos, o assessor não esquece o choro dos jogadores nos vestiários.

"Eu trabalhei no dia do jogo de estreia do Gauchão (6 de fevereiro, empate em 1 a 1 com o São José em Pelotas) de muleta. Fui todo errado, mas fui. (O jogo) comoveu toda a nossa cidade. Nossa torcida é bastante humana, sempre abraçou o clube, e não foi diferente desta vez. Grande parte do grupo não conseguiu jogar. Alguns (ficaram) visivelmente transtornados. No vestiário, jogadores chorando. O pessoal ficou bastante sentido, e o pessoal que veio de fora acabou se contagiando com este clima - tanto que deu rebaixamento."

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