Apresentador pôs rádio no ar sozinho e noticiou morte de irmão ao vivo

Danilo Lavieri e Luiza Oliveira

Do UOL, em Chapecó (SC)

  • Reprodução

    Fabio Schardong deu a notícia da morte do irmão

    Fabio Schardong deu a notícia da morte do irmão

Eram 3 h da manhã da última terça-feira quando o jornalista Fabio Schardong foi acordado pelo filho. A notícia era que o avião da Chapecoense havia desaparecido do radar. Prontamente, ele vestiu a primeira roupa que viu na frente, saiu correndo e em menos de 15 minutos já estava na rádio Chapecó. Sozinho, ligou os equipamentos e colocou a rádio no ar. Fábio ancorou um programa por quase 4 h até dar sua última notícia para os ouvintes: não havia mais sobreviventes no voo.

O anúncio das mortes já seria tarefa árdua, mas tinha um agravante: seu irmão estava entre as vítimas fatais. Fernando Doesse era um dos principais narradores da cidade e viajou no voo com destino à Colômbia para narrar o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional.

A morte do próprio irmão foram as últimas palavras de Fábio na rádio. O momento foi por volta de 7h45 quando o general da Polícia Nacional Colombiana em Medellín, José Acevedo Ossa, informou na rádio Caracol que só haviam seis sobreviventes e os outros estavam mortos. Fábio respirou fundo, empostou a voz e anunciou aquela que seria a pior notícia da sua vida. 

"O general entrou falando e aí eu disse: 'Seis se salvaram e outros 76 (número naquele momento) estão mortos. Entre eles estão os nossos colegas Fernando Schardong e Douglas Dorneles'. Só que aí, né? Travei! Falei isso e chamei alguém. Não sei nem quem assumiu depois, não lembro", disse ele ao UOL Esporte.

Só depois de sair do estúdio ele permitiu que a ficha caísse. E o mundo também. A noite havia sido longa desde as primeiras horas da manhã quando saiu de casa de debaixo de um temporal.

Mas até ali Fábio não tinha noção da gravidade do acidente. As primeiras notícias davam conta de que o avião havia feito um pouso forçado e que tinha muitos sobreviventes. Isso foi dando forças a ele para seguir em frente enquanto recebia uma enxurrada de mensagens de apoio de ouvintes e familiares. Mas o tempo foi passando e as informações desencontradas que traziam esperança se transformaram em tristeza.

O jornalista segurou a onda não só por obrigação do ofício. O trabalho virou quase uma questão de sobrevivência. Era uma forma de distrair a cabeça com a missão de informar os ouvintes e ainda buscar informações pelo irmão.

"Talvez até eu tenha ido para a rádio de madrugada até na ânsia de buscar informações. Eu normalmente faço o jornal de 6h30 às 9 h, eu tenho que informar as pessoas, ainda mais em um negócio desses. Eu fui pensando assim, pelo menos. E vai tão no piloto automático, você está ali. É uma coisa que você não pensa. Tu sabes que é um acidente, que tem as pessoas, que mais de 90% do avião a gente conhecia. Mas tu não para, liga um, liga outro, é parente no Whatsaap dizendo 'estamos juntos'".

Mas não há piloto automático para lidar com a dor. Além de serem irmãos, os dois trabalharam juntos por 23 anos. Nunca faltaram a uma transmissão sequer. Era a dobradinha perfeita da rádio Chapecó. Fábio apresentava a jornada esportiva e entregava para o irmão narrar o jogo. Durante o intervalo e no fim da partida, recebia de volta para fazer o plantão.

"Não sei como vai ser, vai ficar muita saudade. Vou ter que passar a bola para outro. Quando tu trabalha muito tempo junto com alguém, até na pausa ele já sabe que você vai parar de falar. O comentarista pega a manha, repórter, narrador", conta.

Fernando pegou a manha do irmão há muito tempo desde que os dois eram pequenos no interior do Rio Grande do Sul. Fábio era quatro anos mais novo e aprendeu muito com o mais velho. Prova disso é que dois se mudaram juntos para Chapecó e se identificaram tanto com a cidade que Fernando gostava de dizer que ele não havia escolhido a cidade, mas que sim a cidade que o teria elegido.

Agora, Fábio ainda não sabe como será o futuro. Antecipou as férias e vai curtir um pouco os pais. Só volta ano que vem com a esperança de dar notícias melhores.

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