Torcidas paranaenses se unem pela Chapecoense e lotam Couto Pereira

Guilherme Moreira e Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL, em Curitiba

Um dia histórico. O Couto Pereira ficou cheio, dentro da totalidade disponível, para um jogo que não teve 22 jogadores no gramado. Sem nenhum gol. Mas que ficará marcado na memória de cada um que veio. Seja pela união jamais vista entre os torcedores ou por torcer para um time que não viu de perto. A final da Sul-Americana entre Chapecoense e Atlético Nacional-COL não aconteceu pelo acidente aéreo que vitimou 71 pessoas, em Medellín, na Colômbia. E ficará eternizada da mesma forma, como um lindo capítulo que uniu dois países e sensibilizou o mundo. O futebol tem esse poder.

Sem contar com a capacidade máxima de 40 mil pessoas, aproximadamente 25 mil espectadores compareceram para homenagear a Chape - os setores Mauá e visitante estavam fechados devido a montagem de um palco para um show programado no domingo. Nas ruas, camisas dos mais variados clubes, confraternizando, num cenário que parecia inimaginável. Dez minutos antes de tudo começar, os portões foram fechados e muita gente ainda ficou de fora, nas ruas, sem desanimar e cantando mesmo assim.

Com caráter religioso, a cerimônia iniciou às 20h30 e contou com os discursos do padre João Maria, que é conselheiro do Coxa, e do pastor Antônio Jairo Porto Alegre. Os jornalistas Mauro Muller e Janaína Castilho comandaram o evento, que ainda teve a participação da banda da Polícia Militar (PM-PR).

Após as falas dos representantes, a diretoria alviverde divulgou uma placa com o nome das 71 pessoas que morreram no acidente, sendo fixada e eternizada em um setor do estádio ainda não definido. Apoiadores do movimento, o presidente do Atlético-PR, Luiz Sallim Emed, e o vice-presidente do Paraná, Christian Knaut, estiveram presentes nesse momento de união.

Nas arquibancadas, a emoção tomava conta de todos os presentes. Lágrimas, abraços, cantos para o time catarinense. "Vamos, vamos, Chape!", "Olê, Olê, olê, olê, Chape Chape". Atleticanos, coxas, paranistas e adeptos dos mais variados times juntos em uma só voz: "É campeão!". Em um só coração enorme e pulsante.

Gil, Sérgio Manoel e Dener, que atuaram pelo Coritiba, e Cleber Santana, pelo Atlético-PR, tiveram seus nomes evacionados. Caio Júnior, campeão como jogador e levando o Paraná para a Libertadores como técnico, foi lembrado com frases e camisas. Depois o estádio todo, que tinha bastante paranista, gritou só por ele. Já Pipe, analista de desempenho, teve uma bandeira com seu rosto.

Guilherme Moreira

Faixas fixadas ao redor do estádio não esqueceram um país que está marcado para os brasileiros. Que ganhou mais de 200 milhões de admiradores após uma comoção sincera com a tragédia, enchendo o estádio Atanásio Girardot e as ruas no entorno da praça esportiva há uma semana. Com o Atlético Nacional-COL não querendo o título da competição internacional e oferecendo à Chapecoense. "O povo colombiano tem nosso respeito", dizia uma dessas faixas. Camisas da seleção da Colômbia e alguns materiais do adversário da Chape na final eram vistos com frequência nesta noite.

"Os colombianos nos mostraram que é possível, de uma forma espontânea e lindíssima, essa fraternidade. Isso tem que continuar, não só nas palavras, mas também nas atitudes", afirmou o dirigente rubro-negro, Emed.

No fim do culto, uma homenagem com crianças, representando as próximas gerações, e mais discursos religiosos completaram o cerimonial. Na sequência, 71 tiros de morteiros foram disparados.

O apito inicial foi dado às 21h45 em ponto, como aconteceria nesta noite com os atletas em campo. Os atletas foram representados por crianças com camisa da Chape e Nacional. Logo depois, tudo se apagou e apenas sinalizadores e celulares ligados iluminavam o Couto Pereira.

Nunca escutaremos o apito final. Já na Arena Condá, as luzes do estádio foram acesas no mesmo horário sem os portões abertos para os torcedores. Uma homenagem silenciosa, iniciativa do Verdão do Oeste, para eternizar essa que seria a partida mais importante da história da Chape. E que, mesmo não acontecendo dentro das quatro linhas, encerrou uma história triste como uma das páginas mais bonitas da história do futebol mundial: o maior título em sua história de 43 anos, a taça da Sul-Americana.

Organizadas promovem um dia de paz

Divulgação

Apesar de estarem proibidas de entrar com seus respectivos materiais, as organizadas estiveram presentes, principalmente, nos arredores do estádio alviverde. As torcidas do Atlético-PR, Os Fanáticos e Ultras, além da Império Alviverde, do Coritiba, se reuniram antes do culto.

Elas se encontraram na estação de ônibus, Maria Clara, na Avenida João Gualberto, e subiram até a esquina da rua Mauá, em frente ao Couto. Lá, as torcidas cantaram músicas em prol da Chapecoense, embalando bandeiras de suas respectivas organizadas, misturadas umas às outras, ao som das baterias, em um ato inédito. Depois, como os integrantes estavam uniformizados, se despediram e foram embora - alguns trocaram de roupa e entraram.

Diferente das quatro grandes torcidas organizadas de São Paulo, que prometeram um "acordo de paz" pela volta das festas nas arquibancadas, as organizadas da capital paranaense promoveram o ato em respeito às 71 vítimas do acidente na Colômbia. Não há nenhuma conversa, no momento, para se evitar futuras brigas a partir do ano que vem. A Fúria Independente, do Paraná, preferiu não apoiar o movimento publicamente, mas integrantes foram vistos no local.

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