Como astro do Manchester United encara acidente de avião com o time em 1958

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

  • Junko Kimura/Getty Images

Bobby Charlton deu a volta por cima dentro de campo depois de ver a morte tão perto. Mas, embora tenha se tornado campeão europeu com o Manchester United e mundial com a seleção da Inglaterra nos anos seguintes, o astro ainda vive como se fosse 6 de fevereiro de 1958, dia marcado pelo acidente de avião que matou 23 pessoas em Munique - oito de seus companheiros de time.

"Eu penso nisso todos os dias da minha vida. Eu não acho que eu tive sorte ou algo assim. Nunca pensei desse jeito. Como pode eu estar bem e todos os outros terem ido embora? Você se sente um pouco culpado. Eu me sinto culpado, mesmo agora enquanto digo isso", disse Bobby Charlton em relato publicado no livro The Official Manchester United Opus, lançado há dez anos.

É dessa forma que o maior jogador da história do futebol inglês encara o desastre com a equipe do Manchester United. Na ocasião, Bobby Charlton, com 20 anos, testemunhou o horror. Do momento em que o avião saiu da pista à alta do hospital cerca de duas semanas após o acidente, o ex-atacante viveu situações que por pouco não colocaram fim à sua carreira. Foi necessário, ao longo dos anos, mesmo com tanto sucesso, saber lidar com a dor e a saudade.

O UOL Esporte mostrará agora detalhes posteriores à tragédia que mudou a história do Manchester United, sob a ótica de dois sobreviventes - quase 59 anos depois, apenas Bobby Charlton e Harry Gregg estão vivos (sete jogadores que passaram ilesos já morreram, todos nas décadas de 1990, 2000 e 2010).

"Todas as memórias voltaram quando eu vi o que tinha acontecido com o avião do Brasil na Colômbia", afirmou o ex-goleiro Harry Gregg em texto publicado dias após o acidente com a Chapecoense, que matou 19 jogadores do time catarinense - só três sobreviveram: o goleiro Jakson Follmann, o lateral esquerdo Alan Ruschel e o zagueiro Neto.

Metal batendo no metal. E vazio

AP Photo
Acidente na pista do aeroporto de Munique matou 23 pessoas em fevereiro de 1958

O Manchester United estava em festa quando desembarcou em Munique para o reabastecimento do avião. O time havia garantido a passagem rumo às semifinais da Copa dos Campeões ao empatar por 3 a 3 com o Estrela Vermelha, em Belgrado, na antiga Iugoslávia.

Mas Bobby, antes mesmo de chegar a Munique para o abastecimento da aeronave, já havia percebido que havia algo estranho em relação às decolagens. Segundo ele, o avião demorava demais para sair do solo. Na Alemanha, ele acelerava demais na pista lotada de gelo e lama.

"Foi por isso que eu estava preocupado com as decolagens que foram abortadas depois que paramos para abastecer", relembrou o craque.

O desastre ocorreu na terceira tentativa, pouco depois das 15h. De acordo com Bobby, a aeronave estava demorando para sair do chão. "De repente, todo mundo sentiu a mesma coisa. Tudo ficou completamente silencioso. Eu não me recordo de muita coisa, apenas o barulho da batida", contou.

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Bobby tinha 20 anos em 1958

"Houve um barulho horrível, o ruído de metal batendo no metal. Depois, havia o vazio", continuou o ex-jogador, dessa vez em texto incluído em sua biografia.

Goleiro-herói

De acordo com um texto com explicações sobre as causas do acidente, publicado na Flight Safety, o avião estava a cerca de 195 km/h quando saiu da pista. "Não havia comprimento de pista suficiente para (o avião) parar. Após atravessar uma pequena estrada, ele bateu em uma casa e em uma árvore, até se chocar contra uma garagem de madeira e um caminhão. A garagem explodiu em chamas."

Metade das 44 pessoas a bordo morreram na hora. Bobby sofreu uma concussão. E apesar do choque extremamente violento, o meia-atacante ainda estava sentado na poltrona, a cerca de 50 metros da parte principal do avião.

Já o atacante Dennis Violet, posicionado ao seu lado quando a aeronave tentou decolar, foi lançado à frente, desprendendo-se da cadeira. Booby, então, o viu deitado no chão, em meio à neve. Estava machucado, mas consciente.

Do outro lado, Harry Gregg se transformava em herói. O goleiro titular do Manchester United começou a salvar vidas depois de chutar a fuselagem do avião. Ao sair, viu cinco sobreviventes se afastando do local com receio de uma explosão. Gregg, porém, voltou e salvou três pessoas - incluindo o bebê de Vera Lukic, mulher de um diplomata iugoslavo (todos eles estavam no voo e sobreviveram).

"Ainda posso ver o Matt Busby (treinador do time) deitado fora da aeronave, com um pequeno corte atrás da orelha, reclamando que não podia sentir as pernas. Lembro de tentar encontrar o meu amigo de escola, Jackie Blanchflower, da Irlanda do norte, no avião e ouvi-lo chorar", contou o ex-atleta - o meia Blanchflower, assim como o atacante Johnny Berry tiveram lesões sérias e nunca mais voltaram a jogar futebol.

Do hospital ao Old Trafford

Um dos automóveis usados no resgate levou Bobby ao hospital ao lado do meia Bill Foulkes e de Harry Gregg. O astro inglês foi sedado pelos médicos e só teve noção da gravidade do acidente ao acordar. Um jovem alemão, presente ao quarto com um jornal às mãos, traduziu um texto publicado no dia seguinte.

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O astro ficou quase duas semanas internado

"Eu, primeiro, perguntei sobre as pessoas que tinham relação próxima a mim, como Tommy Taylor, David Pegg e Eddie Colman", contou.

Os três estavam mortos. Bobby, mesmo assim, quis saber o destino de todos os companheiros. "O rapaz lia os nomes e depois de uma rápida pausa dizia 'morto'", disse.

Antes de deixar o hospital, quase duas semanas após o acidente, o ex-meia-atacante despediu-se de mais um companheiro: Duncan Edwards, que chegou a trocar algumas palavras com ele. A morte deu-se 15 dias após a tragédia - em contrapartida, o técnico Matt Busby, também em estado crítico, sobreviveu.

Bobby voltou a Manchester de trem, ao lado da mãe, Cissie, e o irmão (o ex-zagueiro Jack Charlton). O craque estava decidido a parar de jogar futebol por um tempo, pois, segundo ele, não seria fácil seguir em frente depois de testemunhar os fatos.

O Manchester United, por sua vez, voltou a jogar após 13 dias, em 19 de fevereiro. Dois sobreviventes estavam em campo: Harry Gregg e o zagueiro Bill Foulkes. A força dos companheiros serviu como exemplo.

"Eu pensei: 'Se Harry Gregg e Bill Foulkes estão voltando, eu estou bem para jogar. Esse sentimento se intensificou quando eu soube que Duncan tinha morrido. Eu disse para mim mesmo: 'Agora eu tenho de jogar'."

Bobby chegou ao Old Trafford com o tio para assistir à partida válida pelas oitavas de final da Copa da Inglaterra. Com 60 mil pessoas no estádio, a atmosfera, segundo ele, era extraordinária. Nesse cenário, o Manchester venceu por 3 a 0. "Eu desci para o vestiário e senti uma emoção muito forte. Sinto isso até hoje", disse.

O assistente técnico Jimmy Murphy, de acordo com Bobby, conseguiu um milagre aquele dia. "Ele contou aos garotos que eles tinham de lutar pela vida do clube."

Retorno às glórias

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O ex-meia-atacante levou o Manchester United ao título da Copa dos Campeões, em 1968

Ter visto as cenas após a vitória foi fundamental para o meia-atacante voltar aos gramados. "Quando eu vi Jimmy no vestiário, eu falei 'voltarei na segunda-feira'. De repente era a coisa que eu mais queria fazer. Apesar de tudo, eu queria jogar outra vez. A melhor terapia era se envolver e se esforçar para vencer", contou o craque, que voltou a atuar no dia 1º de março, menos de um mês depois da tragédia, e ainda integrou o elenco da seleção nacional na Copa da Suécia, em junho.

O maior jogador inglês de todos os tempos, dali a oito anos, tornou-se um dos pilares da seleção da Inglaterra campeã da Copa do Mundo de 1966, em casa. Bobby Charlton ergueu a taça em Wembley.

Dois anos depois, ele levou o Manchester United à sua primeira conquista da Copa dos Campeões, também no mítico estádio inglês, sob o comando de Matt Busby. Na final contra o Benfica, o herói marcou dois gols e honrou ainda mais os companheiros mortos em Munique exatos dez anos antes. 

O UOL Esporte publicará nesta terça-feira a segunda parte da reportagem que conta detalhes do acidente aéreo com o time do Manchester United, em 1958.

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