Manchester United teve ajuda de clubes e usou a base após acidente aéreo

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

  • Christopher Furlong/Getty Images

A Chapecoense entrará em campo no próximo dia 25, no primeiro jogo depois do acidente aéreo responsável pela morte de 19 jogadores do elenco catarinense. O time terá, assim, menos de dois meses para colocar a reconstrução do clube em prática.

Há quase 59 anos, o Manchester United viu-se em situação similar. Oito atletas da equipe inglesa morreram após o avião da equipe sair da pista no momento da decolagem em Munique depois de uma partida na Iugoslávia. Apenas nove sobreviveram - dois deles nunca mais puderam jogar futebol.

Embora tivesse mais jogadores à disposição, o time inglês precisou disputar uma partida apenas 13 dias após a tragédia (veja como foram os dias seguintes ao desastre). O fato deu-se em 19 de fevereiro de 1958, em jogo das oitavas de final da Copa da Inglaterra, diante do Sheffield Wednesday.

Para entrar no gramado do Old Trafford com 11 jogadores, foi preciso contar com a ajuda de outros clubes. Dois jogadores foram emprestados ao Manchester: o atacante Ernie Taylor, do Blackpool, e o ponta Stan Crowther, do Aston Villa.

AP Photo
Foulkes jogou 13 dias depois do acidente

O Manchester United colocou em campo três jogadores da base do clube. O atacante Alex Dawson, por exemplo, tinha apenas 17 anos. Outros quatro jogadores do elenco, que não viajaram a Belgrado, na antiga Iugoslávia, também atuaram.

A equipe do United ficou completa com a participação, acredite, de dois sobreviventes da tragédia: o goleiro Harry Gregg e o zagueiro Bill Foulkes.

"Se eu tivesse ficado na minha casa, eu teria ficado louco pensando em tudo o que tinha acontecido, em todas aquelas coisas horríveis que eu já tinha visto", disse o ex-arqueiro em relato publicado no Facebook dias depois do acidente com a Chapecoense.

No banco de reservas, Jimmy Murphy, assistente de Matt Busby, que demorou meses para se recuperar, comandou o time. Com Bobby Charlton nas cadeiras do Old Trafford e mais 60 mil pessoas no estádio, o Manchester United venceu por 3 a 0 e garantiu vaga nas quartas de final. 

Renascido

O Manchester United conseguiu bons resultados imediatamente, sobretudo na Copa da Inglaterra. Empurrado pela torcida e com o reforço de Bobby Charlton, que voltou a jogar no dia 1º de março, a equipe foi à semifinal ao eliminar o West Bromwich depois de um empate e um triunfo.

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Bobby Charlton: sobrevivente e campeão europeu

A vaga na decisão foi garantida diante do Fulham, mais uma vez após duas partidas: um 2 a 2, com gols de Bobby Charlton, e um 5 a 3, com três do jovem Alex Dawson.

"Era uma pressão aos adversários. Eles sentiam como se estivessem jogando contra a nação. E estavam certos", constatou Bobby Charlton em relato publicado no livro The Official Manchester United Opus, lançado há dez anos.

A diretoria do clube, por sua vez, decidiu mudar o local de treinamento, a fim de evitar contato com jornalistas. Segundo Harry Gregg, isso ajudou a equipe no momento difícil.

"Eu só sabia que eu tinha de sair, porque a imprensa estava à nossa volta, com a mídia mundial acampada no Old Trafford. Treinamos em Manchester onde ninguém foi autorizado a entrar. Essa foi a melhor coisa que me aconteceu, me salvou. Discutir, brigar, treinar no campo e se envolver mais uma vez. Isso me impediu de ficar louco sobre o que tinha acontecido para todos nós na pista de Munique", contou o ex-goleiro.

O retorno de Matt Busby

O treinador sobreviveu depois de ser desenganado pelos médicos em um hospital de Munique. Quando voltou a Manchester, deu um prazo de cinco anos para o Manchester United voltar ao protagonismo no futebol inglês. Nem precisou de tanto tempo. Os Busby Babes, apelido dados aos jogadores, quase foram campeões.

Na final da Copa da Inglaterra, disputada dia 3 de maio, Busby estava em Wembley. E viu o Manchester United ser superado pelo Bolton, que venceu por 2 a 0.

Alex Livesey/Getty Images
Busby Babes são homenageados pela torcida do Manchester United

Àquela altura, cinco jogadores já estavam recuperados do acidente. Dois deles, o atacante Albert Scanlon e o goleiro Ray Wood, voltaram aos gramados no segundo semetre de 1958. Outros dois, o meia Jackie Blanchflower e o atacante Johnny Berry, nunca mais jogaram futebol por causa dos ferimentos.

Mais uma chance 

Um dia antes da tragédia, o Manchester United havia empatado por 3 a 3 com o Estrela Vermelha em Belgrado. O resultado levou o time à semifinal da Copa dos Campeões.

A disputa por uma vaga na grande decisão começou no dia 8 de maio. No Old Trafford, empurrado pela torcida, os ingleses fizeram 2 a 1, com gols do emprestado Ernie Taylor e do atacante Dennis Violet, um dos sobreviventes. Em Milão, no entanto, o time acabou derrotado por 4 a 0. Chegava ao fim, dessa forma, a temporada 1957/58.

Um passo de cada vez

A equipe teve pouco mais de três meses para se preparar para o Campeonato Inglês. Na estreia, empate por 1 a 1 com o Nottingham Forest. O Manchester entrou em campo com cinco sobreviventes do desastre, além de quatro jogadores que não viajaram. Completaram o time Alex Dawson, da base, e Ernie Taylor, que voltaria ao Blackpool nos meses seguintes.

Paul Ellis/AFP Photo
Em 2008, torcedores lembraram dos 50 anos do acidente aéreo com o Manchester United

O clube, então, contratou Albert Quixall, que defendia o Sheffield Wednesday. Com o reforço, o Manchester United garantiu o vice-campeonato inglês.

O primeiro título pós-acidente veio em 1962/63, com a conquista da Copa da Inglaterra. Na decisão, 3 a 1 sobre o Leicester. No gramado, os sobreviventes Bill Foulkes e Bobby Charlton - a equipe já contava com o escocês Denis Law, contratado no começo daquela temporada.

Com o craque George Best, o Manchester, enfim, voltou a vencer o Campeonato Inglês. O fato deu-se em 1964/65 e 1966/67. Dez anos depois do desastre, em 1968, veio a maior glória da história do clube: a Copa dos Campeões da Europa, com Foulkes e Charlton no gramado de Wembley no triunfo por 4 a 1 sobre o Benfica.

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