Boliviana sobre voo da Chape: "Fui ameaçada de morte como se fosse culpada"

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/SporTV

    Célia Castedo mostra documento que seria plano de voo da Chape

    Célia Castedo mostra documento que seria plano de voo da Chape

A funcionária da AASANA (Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares à Navegação Aérea) que revisou o plano de voo da Chapecoense em Santa Cruz de La Sierra (Bolívia) e que está refugiada no Brasil, Celia Castedo, deu sua primeira entrevista após pedir refúgio no país e contou sobre o dia em que recebeu o plano da Lamia para o voo com o elenco da Chapecoense e jornalistas que seguiam para Medellín (Colômbia). A boliviana ainda contou o motivo de ter pedido refúgio no Brasil.

Em entrevista ao SporTV, Celia apareceu com um papel que seria uma cópia do plano de voo da Chapecoense, na qual mostra os cinco pontos considerados equivocados no plano de voo da Lamia, mas ressalta que sua função não era de impedir que a aeronave decolasse, que o procedimento feito pela "AASANA não passa de formalidade".

"A minha função é revisar minuciosamente o plano de voo para dar ao piloto ou ao despachador da linha aérea. Minhas observações foram feitas em cinco lugares. Em rota, alternativa, em autonomia, em terminar de preencher sobre a cor da aeronave e a parte onde deveria estar o nome do despachante. O combustível era exatamente o tempo da rota. Mas isso é claro que a parte de informação suplementar é de conhecimento somente da empresa aérea. A parte operacional, só a linha aérea pode mudar. Não podemos pedir uma mudança para que mudem diretamente. Somente eles é que sabem os pesos da aeronave, etc. não tinha como impedir o voo. Recebemos o plano de voo como uma formalidade do documento de voo", disse Celia Castedo.

Celia ainda explicou o motivo de ter pedido refúgio no Brasil: sentiu-se ameaçada na Bolívia. "Porque na Bolívia me subtraíram todos os direitos, não me deram tempo para me defender. Fui acusada duas vezes na mesma tarde. Na Bolívia não me deram oportunidade de me defender, me sentia ameaçada", comentou.

"No dia depois do acidente eu recebi ameaças escritas, de morte, como se eu fosse a culpada do acidente. Me assustei muito quando recebi essas ameaças. Estão me acusando diretamente de algo que sou inocente e estão me ameaçando sem saber a minha verdade e esclarecer para as pessoas que sou inocente. Sei que as pessoas reagem de forma emocional, mas aos poucos se deram conta que eu não sou culpada", relembrou a boliviana. 

O advogado que defende Celia, Guido Colque, contou como estava a situação de sua cliente na Bolívia. "Na Bolívia não há segurança jurídica, o direito à defesa da senhora Célia foi negado. Por isso foi feito processo administrativo, e horas mais tarde se apresenta uma queixa crime no Ministério Público para metê-la presa. Na Bolívia há duas instituições: uma é a DGAC (Direção Geral de Aviação Civil da Bolívia) e a outra é a AASANA. A AASANA só opera serviços de aeroporto. Quem dá permissão para voo é a DGAC. As autoridades e o governo boliviano deviam investigar a DGAC".

"Superiores pediram que modificasse o documento"

Na entrevista, Celia ainda relembra que no dia seguinte, quando o voo da Lamia havia caído e matado 71 pessoas, seus superiores pediram para que alterasse o documento feito anteriormente com os cinco tópicos equivocados. "O despachante da Lamia depois das primeiras observações me disse que ia consultar o piloto para ver se mudaria algo. Depois de 30 minutos voltei a perguntar se haveria alguma alteração na parte da autonomia e ele e disse que o capitão não mudaria nada e seguiria como estava o plano de voo. Meia hora antes da saída do voo, ele se aproximou do escritório para pegar os documentos voltei a insistir sobre as observações e ele me disse novamente que o capitão não iria mudar as informações do plano de voo e que tudo estava autorizado e nos conformes".

"No dia seguinte, me pediram por telefone que mandasse por uma rede interna um informe rápido do que aconteceu na recepção do plano de voo e explicasse tudo. Ao receberem meu informe, imediatamente me ligaram e me mandaram que modificasse. No momento, disse que não iria mudar meu informe. Estas eram minhas observações e esta é minha função", conta a boliviana.

A notícia da queda e as investigações na Bolívia

"Recebi com espanto (notícia sobre a queda do avião), me assustei bastante, foi um golpe muito forte, porque no mesmo dia, na mesma atarde a AASANA me fez perguntas investigativas por uma advogada para fazer um questionário e sem que eu tivesse um advogado de suporte. Meia hora depois me entregaram o processo interno que a AASANA fez sobre mim na qual indica que eu teria 10 dias para defender e demonstrar minha inocência com documentação. Terminei de receber o processo administrativo e uma hora depois me informaram que o diretor regional estava apresentando uma queixa diretamente me acusando. Não me deram nem um dia e na mesma tarde abriram dois processos contra mim".

Os dias no Brasil como refugiada

O jornal boliviano El Deber esteve junto com a equipe do SporTV na entrevista e publicou trecho da entrevista na qual Célia conta como estão seus dias no Brasil. "Meu dia a dia é estar sozinha, com muita tristeza, saudade da minha gente, dos meus filhos. É muito triste estar sozinha sem minha família, sem um trabalho, mas graças a Deus tenho o apoio da minha família e dos meus colegas. A cada momento me mandam mensagens de apoio, ainda que de longe. A decisão de sair do país eu tomei em minutos. Recebi informações de que havia ordens de me prenderem, porque havia acusação direta contra mim, sem escutar nem sequer uma palavra de minha boca".

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