Mulheres de atletas da Chape reclamam de abandono e cobram apoio financeiro

Luiza Oliveira

Do UOL, em São Paulo

  • Luiza Oliveira/UOL

    Famílias das vítimas ainda buscam informações sobre ajuda financeira

    Famílias das vítimas ainda buscam informações sobre ajuda financeira

As mulheres dos jogadores da Chapecoense vivem o luto de perderem seus maridos no trágico acidente aéreo e ainda estão preocupadas em garantir um futuro tranquilo para seus filhos. Apesar de já terem recebido o seguro garantido pelo clube e pela CBF, algumas delas dizem que se sentem abandonadas e esperam um apoio financeiro. Elas cobram a premiação do título da Sul-Americana e o dinheiro vindo de doações e de jogos beneficentes realizados após o acidente.

A Chapecoense diz que tem se dedicado ao máximo para atender todas as solicitações. A diretoria afirma que as doações só não foram repassadas ainda porque a maior parte do dinheiro ainda não foi depositada em sua conta. Além disso, o clube se apressou para pagar as indenizações, já quitadas pelo seguro. Uma reunião com todas as esposas foi agendada para o próximo dia 20 para esclarecer cada pendência.

Viúva do meia Cleber Santana, Rosangela Loureiro não esconde sua insatisfação. "A gente está se sentindo abandonada em relação às respostas. A gente fez um grupo das esposas com a Chapecoense, faz perguntas e nunca tem respostas. Eles pagaram as coisas que eram para pagar, as indenizações. Porém, estamos nos sentindo abandonadas. Algumas esposas estão ficando com medo. Teve gente que ganhou R$ 40 mil, qual futuro que vai garantir com esse dinheiro? Parece que o foco é montar o time, a prioridade", diz.  

Algumas das principais fontes de arrecadação das famílias agora virão dos jogos beneficentes realizados no fim do ano passado em que a renda arrecadada foi prometida às famílias das vítimas. No Jogo das Estrelas, por exemplo, Zico prometeu não só a bilheteria, mas também o leilão de uma camisa. O meia argentino D'Alessandro fez o mesmo no evento Lance de Craque. O Sport também anunciou que o dinheiro arrecadado com o público na última rodada do Campeonato Brasileiro contra o Figueirense ficaria com a Chapecoense.

As famílias reclamam que ainda não receberam os valores e que faltam informações. "Vou esperar a reunião do dia 20. Eles têm que fazer nota e apresentar. Temos que saber se o clube tal pagou, qual foi o preço do ingresso, se tem clube se aproveitando da nossa situação para lotar estádio, usando dor da gente. Tem time que jogou com a camisa do marido da gente, não sei quantos times, esses times que falaram na TV. Não vão fazer a gente de burra", desabafa Rosangela.

A mulher do goleiro Danilo, Letícia, esperava receber mais atenção da Chapecoense. "Eu pensei que iam me tratar... não melhor, porque lá também deve estar uma loucura, mas deveriam pensar mais em nós, nossos esposos estavam trabalhando para eles. Às vezes têm várias perguntas e não têm respostas. Eu sei que está difícil para eles, a vida deles vai continuar, vão montar outro time. Mas acho que deveriam acolher a gente mais, esclarecer, tirar todas as dúvidas", disse. "Está tudo meio pendente, eu não tenho noção, não sabe se foi pago ou não. A premiação, por exemplo, isso está faltando, estou totalmente perdida. Eu tenho uma pessoa me auxiliando, o empresário do Danilo está me ajudando, mas eu não entendo nada disso, estou totalmente perdida".

Blog do Julio Gomes: Chapecoense não é só vítima. Olho aberto para o futuro das famílias

Outro ponto de insatisfação é a respeito do pagamento da premiação da Copa Sul-Americana. Rosangela Loureiro afirma que o clube se comprometeu a pagar R$ 70 mil a cada família, mas que o valor combinado com os jogadores no ano passado havia sido superior a esse. Ela diz ter provas com anotações do marido. Outro ponto de divergência é que o clube sugeriu fazer o pagamento de forma parcelada em três vezes. Mas elas querem receber o valor à vista.

"Se nossos maridos estivessem aqui, eles já teriam recebido. Mas eu entendo, mudou tudo lá, todo mundo. Quem estava na diretoria, também faleceu. Não acho que eles estejam esquecendo. A diretoria agora que vai começar a alinhar as coisas. Até entendo, mas às vezes eles demoram muito para responder. Até o final de janeiro espero resolver essa pendência que falta. Claro que queria mais atenção, vou esperar essa reunião para ter todas as soluções", afirmou Susi, mulher de William Thiego.

Chape diz que faz de tudo pelas famílias

O vice-presidente do Chape, Ivan Tozzo, afirma que não vem medindo esforços para ajudar as famílias. Ele diz que todas as indenizações foram quitadas e que as famílias das vítimas receberam o equivalente a 40 meses de salários de cada atleta de acordo com o valor que estava registrados em carteira no regime CLT. Desse total, 12 meses foram cobertos pelo seguro da CBF e 28 meses pela seguradora do clube. As famílias dos funcionários e da comissão técnica receberam um valor que variava entre R$40 mil e R$ 54 mil.

O clube também criou uma conta específica para as doações que já tem em caixa pouco um mais de R$ 200 mil. Assim que o dinheiro total estiver disponível, será dividido entre todas as famílias das vítimas. Ele próprio conversou com Zico que se comprometeu a depositar o dinheiro do Jogo das Estrelas em fevereiro, com valor que deve girar em torno de R$ 200 mil. No mesmo mês, deve cair a renda do jogo de D'Alessandro.

Em contato com o UOL Esporte, Zico e o estafe de D'Alessandro confirmaram que o valor deve ser depositado nos próximos dias porque questões burocráticas ainda estão sendo resolvidas como os processos de auditoria e prestação de contas das partidas. No caso do argentino, a renda destinada ao clube será de R$ 41.724,03, o que representa ¼ da renda do amistoso que também teve instituições filantrópicas como beneficiárias.

Já a diretoria do Sport confirmou que fez o depósito poucos dias após a partida contra o Figueirense. O clube fez questão de doar o valor da renda bruta e se responsabilizou pelos custos operacionais do jogo. A Chapecoense confirmou o recebimento do valor de R$ 86 mil, que já está na conta das doações.

As famílias ainda terão mais a receber. O clube prometeu repassar às famílias 100% da renda do amistoso entre Brasil e Colômbia, no Engenhão, e 50% da renda do amistoso entre Chapecoense e Palmeiras, no próximo dia 21. Só não será repassado o valor total do jogo contra o time paulista porque o clube terá custos operacionais para a realização da partida como iluminação e arbitragem.

"Estamos fazendo tudo o que é possível para as famílias. Centavo por centavo que recebermos vamos repassar para todas as famílias, está tudo certo. No jogo contra o Palmeiras vou até cobrar metade do ingresso do sócio para ter uma renda maior para as famílias, normalmente eles não pagariam nada", afirmou Tozzo.

"Fiquei muito chateado de ver gente falando besteira, pelo amor de Deus. Vejo algumas mulheres agitando as outras do grupo. Como não estamos dando atenção? Tudo o que fizemos, onde a Chapecoense errou? Me apontem uma falha da Chapecoense. Beira a perfeição tudo o que fizemos, até psicólogos oferecemos", disse.

Tozzo disse ainda que o clube não vai parcelar a premiação da Sul-Americana e que o valor será quitado à vista ainda nos próximos dias.

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