Reserva na Europa, goleiro da seleção revive dilema de Taffarel pré-1994

Bruno Freitas*

Do UOL, em São Paulo

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    Taffarel e Alisson: dilema da falta de jogos no ano que antecede uma Copa do Mundo

    Taffarel e Alisson: dilema da falta de jogos no ano que antecede uma Copa do Mundo

Mais do que qualquer outra posição no futebol, o goleiro precisa jogar com frequência para desfrutar do melhor de seu nível. Por isso, Alisson começa 2017 desafiado por sua condição momentânea de reserva na Roma. Titular absoluto da seleção brasileira, o preferido de Tite na caminhada para a Copa da Rússia pode reviver o dilema que afetou Taffarel no período que antecedeu o Mundial de 1994. Antes de virar um dos heróis do tetra, o célebre pegador de pênaltis teve que procurar um time pequeno na Europa para enfim conseguir atuar.

Desde que trocou o Internacional pela Roma, na metade de 2016, Alisson atuou em apenas seis partidas oficiais pelo time, todas elas pela Liga Europa, nenhuma no Campeonato Italiano. Foram 540 minutos em campo – mesma marca que acumula pela seleção brasileira no mesmo período, nas eliminatórias.

Atualmente o brasileiro é reserva de Wojciech Sczesny. Em ótima fase, o goleiro polonês está no clube cedido por empréstimo pelo Arsenal, mas deve ser comprado de forma definitiva pela Roma ainda na janela de transferências de janeiro, em um negócio que gira na casa de R$ 55 milhões. O jogador de 26 anos é neste momento o preferido do técnico Luciano Spalletti e, de quebra, conta com o respeito de Alisson.

Reprodução/Instagram
Alisson com o polonês Wojciech Sczesny

"Treino de hoje debaixo de chuva com o @wojciechszczesny1. Monstro debaixo das traves e, acima disso, um baita cara!!!!", comentou Alisson sobre o companheiro, em uma publicação recente em sua conta no Instagram.  

Nos últimos dias, a imprensa italiana noticiou o interesse do Genoa em Alisson. A equipe perdeu seu titular, Mattia Perin, em razão de uma grave lesão de joelho e agora estudaria a aquisição por empréstimo do reserva da Roma.

A reportagem do UOL Esporte procurou José Maria Neis, empresário do brasileiro, para ouvir sobre a questão, mas não obteve resposta.

Comissão de Parreira pressionou Taffarel em 1993

Na metade de 1993, com a Copa dos Estados Unidos se aproximando, Taffarel precisou tomar uma atitude drástica para poder jogar na Itália. Sem espaço no Parma, time que crescia no futebol italiano, o brasileiro forçou transferência para uma equipe menor, a Reggiana. Na época, o clube de Reggio Emilia havia chegado à primeira divisão, fato que não acontecia desde a década de 20. A meta era proporcional às tradições de sua camisa: não cair para a "segundona".

Naquele ano, Taffarel não vinha sendo aproveitado no Parma em razão do limite de estrangeiros em campo por partida, restrição que vigorava na época. Apesar de contar com o goleiro titular da seleção brasileira, o time italiano preferiu prestigiar jogadores de linha.

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Taffarel no modesto Reggiana

"No meu caso, jogar como titular [antes da Copa dos EUA] foi muito importante", disse Taffarel em entrevista para a Folha de S. Paulo, em agosto de 2013. "Além de jogar sempre, eu estava em uma equipe pequena que lutava todo domingo para permanecer na Série A. Tinha que dar sempre o meu máximo. Fiz um baita de um ano", acrescentou.

Reserva em seu time na Itália, assim como a condição atual de Alisson, Taffarel acabou sendo pressionado pela comissão técnica da seleção em 1993. O jogador perdeu a posição para Zetti na Copa América daquele ano. "Eu não estava bem preparado. Eles [comissão técnica] me falaram isso, e eu concordei", afirmou o atual preparador de goleiros da seleção, na mesma entrevista à Folha de S. Paulo.

Depois disso, o jogador passou a defender a Reggiana e foi bancado por Parreira no time nacional, mesmo com a falha grotesca na derrota para a Bolívia nas eliminatórias, a primeira do Brasil na história do torneio qualificatório. A aposta do treinador acabou recompensada meses depois nos Estados Unidos.  

Taffarel mantém confiança absoluta em Alisson para 2018
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Taffarel com Alisson adolescente, na base do Inter, e depois juntos na seleção brasileira

A situação de Alisson em seu clube leva uma pequena preocupação à comissão técnica da seleção, mas existe entre os homens de Tite a confiança de que o atleta supere o período de adaptação. Preparador de goleiros da seleção, Taffarel afirmou no último compromisso do Brasil em 2016 que estava satisfeito com o nível de treinamento do titular. O herói do tetra, que não esconde ser fã da ex-revelação do Inter, ainda manifestou que "o início na Europa era mesmo difícil".

Taffarel, aliás, foi um dos responsáveis pela escolha de Alisson na equipe titular nacional. Quando decidiu barrar Jefferson, o então treinador, Dunga, tinha dúvidas sobre o substituto. Foi aí que o jogador da Roma ganhou um voto de confiança do preparador e não perdeu mais a posição – mesmo após a transição para o comando de Tite.

Os números de Alisson na seleção mostram ainda uma realidade diferente daquela vivida na Itália. Com 15 partidas seguidas como titular, o jogador igualou nomes que defenderam o gol do Brasil nas últimas Copas – Júlio César, Dida e Marcos também conseguiram essa sequência antes de atuarem em Mundiais.

* Com Pedro Ivo Almeida, no Rio de Janeiro

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