Ex-gremista cresceu na Arena Condá e promete nunca abandonar a Chapecoense

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • Diego Carvalho/Aguante Comunicação

O atacante Rodrigo Gral talvez seja o maior jogador de futebol da história de Chapecó. Ainda menino, ajudava o pai a vender cerveja na Arena Condá e cresceu correndo pelas ruas em volta do estádio. Saiu da cidade pré-adolescente porque na época, início dos anos 90, a Chapecoense ainda não era tudo isso, e ele precisou ser revelado em Porto Alegre, pelo Grêmio.

Foi campeão da Libertadores, rodou o mundo, mas nunca deixou de torcer pela Chape. Aos 36 anos realizou o sonho de vestir a camisa do time do coração. Rodrigo Gral estava no elenco que começou a arrancada rumo à elite do futebol brasileiro. Com a Chape, o atacante conseguiu em 2012 o acesso à Série B e marcou seu 500º gol na carreira.

No fim de novembro, ele viveu um dos momentos mais difíceis da vida, quando precisou entrar novamente na Arena Condá para velar os amigos mortos no acidente em Medellín.

"No dia em que eu cheguei a Chapecó para o velório nem fui direto ao estádio", disse ele em Porto Alegre após um treino. "Fiquei no estacionamento, não tive coragem de entrar. E acabei passando mal quando entrei. Eu sou e sempre vou ser Chapecoense. Tenho vínculo, família, tios, primos, amigos de infância em Chapecó, e a Chape vai estar sempre ligada a mim. Sempre serei um torcedor."

Divulgação

Nos anos 90, a Chape costumava pagar para grandes times fazerem amistosos na cidade e assim Rodrigo Gral via jogos contra Grêmio e Internacional. "Era a nossa diversão. A gente chegava quatro horas antes do jogo para gelar a cerveja e o refrigerante, levava as bergamotas que era tradição ali na frente do estádio e a comunidade inteira se unia."

Ele lembra da rivalidade com os outros times de Santa Catarina, a Chapecoense levantando com orgulho a identidade "colona" em oposição aos "manezinhos" do litoral – Figueirense e Avaí.

"As condições que hoje a Chape dá as crianças eu não tive. Era um sonho que eu tinha jogar pelo meu time do coração. Jogar com os caras para quem eu torcia, o Ferrão, o Lúcio, os caras que fizeram história no clube. Eu me imaginava ali, mas não tive oportunidade de jogar."

Divulgação

Gral precisou deixar a cidade para ganhar a vida, mas em 2012 recebeu o convite para o retorno. Em suas primeiras partidas, o público médio era de umas 500 pessoas. Até que a equipe comandada pelo técnico Gilmar Dal Pozzo começou a engrenar a partir do mata-mata da Série C.

Foi uma ascensão meteórica. Da C para B e da B para A em apenas dois anos. Gral, já um veterano, saiu da equipe do meio do caminho e chorou bastante em sua despedida. Foi jogar nos Estados Unidos, na Dinamarca e hoje defende o Operário do Mato Grosso do Sul, onde pretende fazer sua última temporada como profissional.

"Você para e pensa em todos os amigos que morreram. O Bruno Rangel era um cara fenomenal, uma pessoa merecedora de tudo. O que ele fez pela Chape... deixou um legado", disse Gral, sofrendo muito ao lembrar do amigo, o maior artilheiro da história do clube.  "A gente tinha uma relação muito boa, era um grande amigo. O Danilo era meu parceiro de futevôlei, sempre jogávamos nas férias. O Cléber Santana eu vi menino, joguei com ele, íamos sempre pra churrascaria..."

AP Photo/Eduardo Di Baia

Ele lembra dos momentos de dureza, dos treinos em gramados horríveis e improvisados, de ter que bancar a própria alimentação porque o clube não tinha condição, de viagens longuíssimas pelo país na terceira divisão, de ser o time com menos recursos do campeonato. "Torcer para time grande, com título, torcida, recurso é fácil. Mas fazer futebol com todas essas dificuldades é outra coisa e eu me sinto muito orgulhoso pelo que a Chapecoense fez e faz. Sempre foi um clube muito profissional, onde todos recebiam em dia e que tentava superar as dificuldades da falta de estrutura."

Gral não descarta um dia oferecer seus serviços para ajudar seu time do coração a se reerguer, mas diz que hoje não se sente emocionalmente preparado para voltar a trabalhar na cidade

"A gente sai de casa pra ir trabalhar e acontece isso", disse ele, sobre o acidente que matou 71 pessoas na Colômbia, há um mês. "No melhor momento da história do clube, com tantos sonhos... A gente chegar no estádio e ver a família do jeito que estava, ver a emoção de uma criança, como o Indiozinho, o orgulho que ele sente vestindo o Índio... O que você vai falar pra ela?"

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