Fabiano nem imaginava ser herói do Palmeiras. Agora, quer honrar a Chape

Danilo Lavieri e José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo (SP)

Os dias 27 e 28 de novembro definitivamente mudaram a vida de Fabiano Leismann. Em um espaço efêmero de pouco mais de 24h, o lateral direito conviveu dois ápices nos 25 anos de vida. A glória profissional e a tragédia pessoal, assuntos abordados em entrevista exclusiva concedida à reportagem do UOL Esporte.

No domingo, o gol que garantiu o título do Campeonato Brasileiro para o Palmeiras depois de 22 anos. Segunda-feira, já na madrugada para terça no Brasil, amigos dos tempos de Chapecoense, clube pelo qual foi revelado, faleceram em uma tragédia de comoção mundial.

Dois meses depois da glória e da dor, Fabiano falou; e logo depois de retornar a Chapecó e reviver todas as lembranças da tragédia ocorrida após a consagração pessoal. Em 2017, ele quer honrar os amigos que se foram e a nova fama de talismã na Academia de Futebol.

"Muitos deles tinham sonhos que muitos aqui carregam, mas agora não podem realizar mais por conta da tragédia. A nossa responsabilidade é continuar fazendo o melhor dentro de campo. Todos eles vão continuar nos abençoando", discursa, de maneira calma, o lateral palmeirense.

Confira a entrevista exclusiva com Fabiano:

UOL Esporte: Como foi para você retornar à Arena Condá depois de tudo o que aconteceu e da sua origem na Chape?
Fabiano: Foram emoções diferentes. Sabemos que não ia ser fácil jogar aquele jogo por ter jogado muito naquele clube, e também por ter perdido vários amigos. Vai ficar a saudade, era o recomeço de um clube. A gente fez a nossa obrigação de ir lá, ajudar aquelas famílias, que tanto precisam e passam por dificuldades. A gente também fica feliz pelo recomeço do clube e tomara que possam superar as adversidades.

Cesar Greco/Ag. Palmeiras

UOL Esporte: Imagino o quanto deve ter sido difícil se concentrar neste jogo em especial, até depois da paralisação para o tributo às vítimas. Dentro de campo você confirma essa sensação?
Fabiano: Toda partida que se entra em campo, você é avaliado e cobrado por vestir uma camisa de peso e tradição. Aquele amistoso foi diferente, a carga emocional foi muito grande. Por ter jogado tanto tempo no clube, senti e senti bastante, porque a gente se coloca no lugar daquelas pessoas. A gente sabe que não é fácil passar por aquele momento. Sentimos bastante sim; mas agora é um recomeço. Temos que nos concentrar bastante, porque teremos uma temporada difícil pela frente. Agora é o momento de se focar, trabalhar bastante e tentar melhorar.

UOL Esporte: A preleção do Eduardo Baptista foi diferente naquele dia então?
Fabiano: A preleção dele foi um pedido para nós sobre aqueles atletas que partiram naquela tragédia; a responsabilidade de honrar aquelas pessoas era fazer o melhor naquele momento, porque aquelas pessoas dariam o melhor dentro de campo. Mas, ao entrar na Arena, passaram muitas coisas pela cabeça, passou um filme pela cabeça. Não foi fácil se concentrar. Agora é se concentrar, porque nossa responsabilidade aumentou após o título e temos grandes competições.

UOL Esporte: Esta temporada do Fabiano será então dedicada aos amigos falecidos?
Fabiano: Acho que todo atleta vai lembrar deles sim, porque foram colegas de profissão. Muitos deles tinham sonhos que muitos aqui carregam, mas agora não podem realizar mais por conta da tragédia. A nossa responsabilidade é continuar fazendo o melhor dentro de campo. Todos eles estarão lá em cima abençoando a carreira de cada um aqui. Nossa carreira é feita de viagens para lá e para cá, sempre estamos dentro de aviões. Eles continuarão nos abençoando, porque sabem como é difícil a nossa profissão e ficar longe da família. É honrar cada um daqueles que partiram.

UOL Esporte: Você iniciou a temporada pelo Cruzeiro, sendo que o Palmeiras queria o seu retorno. Você pediu particularmente lá em Minas Gerais para voltar?
Fabiano: A situação era para ter sido resolvida antes da reapresentação. Havia o interesse por parte do Palmeiras na minha permanência; também queria ficar aqui por tudo o que aconteceu: começo difícil, fazendo a volta por cima e o gol no final. Foi um esforço do Palmeiras pela minha permanência, a minha responsabilidade é grande.

UOL Esporte: Mano Menezes pediu o seu retorno?
Fabiano: A gente teve uma conversa sim. É um profissional que respeito muito; aprendi bastante com ele. Tivemos uma conversa na qual ele disse que contava com a minha permanência, mas sabia da proposta do Palmeiras. Então ele falou que me apoiaria no que fosse o melhor para mim. Fico grato por ele ter entendido a minha situação, e feliz por voltar ao Palmeiras.

UOL Esporte: Você fez o gol do título brasileiro. Depois de garantido o retorno para cá, já se imaginou marcando o gol do título da Libertadores?
Fabiano: [risos] Verdade! Nunca imaginei fazer o gol do título, em uma competição que a torcida esperava um título há 22 anos. Nem esperava jogar aquela partida, na verdade; no meio da semana, o Cuca veio falar comigo sobre jogar. Sabemos que a oportunidade não avisa. Vou continuar trabalhando no dia a dia e, quem não sabe, fazer o gol da Libertadores. Seria uma alegria imensa para mim e para a torcida, sem dúvidas.

Cesar Greco/Ag. Palmeiras

UOL Esporte: Não imaginava que jogaria? Mesmo?
Fabiano: Antes da semana do jogo não, nem fazia ideia. O Jean tinha jogado as duas partidas anteriores, então nem fazia ideia. Na terça-feira à tarde, o Cuca veio conversar comigo e disse que eu jogaria. Sabia que o trabalho antes feito me abençoou para fazer o gol. Mérito de todos no título, agora vamos continuar dando muitas alegrias.

UOL Esporte: Você iniciou a temporada criticado e terminou como 'talismã' ao anotar o gol do título. O quanto teve de participação do Cuca na sua evolução?
Fabiano: Teve uma participação muito grande, como todo o elenco e o nosso trabalho do dia a dia. Em nenhum momento abaixei a cabeça, sei que fazia parte do futebol ser cobrado. Você veste a camisa do Palmeiras e será cobrado para fazer um bom trabalho. O apoio do Cuca e dos companheiros foi fundamental. A oportunidade apareceria de novo, ela não avisa; quando aparecesse, queria aproveitar da melhor maneira possível. Fui feliz de fazer o gol do título.

UOL Esporte: O Palmeiras já queria te manter antes do histórico gol contra a Chapecoense? O interesse foi manifestado para você antes ou depois daquele 27 de novembro?
Fabiano: Já tinha iniciado as conversas antes de acabar a competição; sabia que o Palmeiras queria ficar comigo. Queria apenas focar no trabalho; estava focado na conquista do Brasileiro, que a torcida esperava tanto pelo fim dos 22 anos de jejum. Fiquei concentrado em fazer grandes jogos e foi isso o que aconteceu com o grupo. Agora é novo ano, nova etapa, temos grandes competições e vamos trabalhar para estar bem preparado. Sabemos que iremos contar com adversidades, mas temos elenco forte para entrar para brigar pelos títulos.

UOL Esporte: Definitivamente, a briga pela posição neste ano se limitará a você e o Jean. Como é a relação de vocês?
Fabiano: Relação muito boa. Companheirismo e respeito. Por tudo que ele fez no futebol e tudo o que fez no Palmeiras, sendo eleito o melhor lateral do Brasileiro, sempre tive um respeito grande. Ele também me respeita bastante. Ele é um atleta que não vinha jogando naquela posição, como eu também não jogava na lateral no início da minha carreira. Sempre temos a aprender com o companheiro de lado. A gente tem uma convivência muito boa; esse profissionalismo faz com quem esteja fora torça para quem esteja lá dentro. Quem ganha é o grupo.

UOL Esporte: Deu para perceber alguma diferença entre os trabalhos do Eduardo e do Cuca?
Fabiano: Cada treinador tem a sua filosofia de trabalho, os seus conceitos. A nossa responsabilidade é se encaixar nesta filosofia e aprender estes conceitos o mais rápido possível, porque só assim teremos sucesso dentro de campo. Então é saber a forma que ele trabalha; vamos, com certeza, entender isso o mais rápido possível para continuar dando alegria à torcida do Palmeiras.

UOL Esporte: Eduardo Baptista cobra funções diferentes de você?
Fabiano: Algumas coisas diferentes, algumas que continuam da mesma forma, como marcar firme e forte. Por eu ter sido zagueiro, ele pede bastante este lado da marcação para explorar os meus pontos fortes. Temos que ter um equilíbrio dentro de campo ao saber a hora de atacar, o momento de se posicionar. São particularidades dele, mas vamos pegando o mais rápido possível para colocar em prática no jogo treino contra o Atibaia [quinta-feira] e no amistoso contra a Ponte [domingo]. Assim, estaremos preparados para a estreia no Paulista.

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