Deyverson superou pobreza e foi ajudado por Kardec. Hoje, brilha na Espanha

João Henrique Marques

Do UOL Esporte, em Barcelona

  • LLUIS GENE/AFP

O roteiro é comum. Menino pobre, talentoso, escondido, mas desafiador. O atacante Deyverson enfrentou pesadas barreiras do futebol e hoje é exemplo raro. A história passa pela fome, viagem à Europa sem dinheiro e faz o sucesso na Espanha, com direito a gol e vitória por 2 a 1 sobre o Barcelona em pleno Camp Nou, virarem mero detalhe. Nesta quarta-feira, defende o Alavés em busca de feito histórico, a primeira classificação para a final da Copa do Rei da Espanha - time encara o Celta de Vigo em casa na semifinal após empate sem gols no jogo da ida. 

"No meu bairro (Santa Margarida, zona oeste do Rio de Janeiro) tem muita gente boa de bola, mas frustrada com o futebol. As mensagens que me passavam eram de pessimismo, de que era mais um a viver uma ilusão. Só que eu arrisquei. O caminho de uma criança pobre dificilmente é o mesmo, realmente. Mas nunca devemos desistir", disse Deyverson, em entrevista ao UOL Esporte na véspera do confronto decisivo.

Em 2012, aos 19 anos, Deyverson defendia o Mangaratibense na terceira divisão do futebol carioca. O salário era de R$ 500. "Quando recebia", ressalva. A persistência veio com o apoio do pai, Carlos Roberto Silva, e da mãe, Cristiane Quintiliano. "Passei por dificuldades no Mangaratibense. Ficávamos sem café da manhã, almoço. Era pipoca ou pão sem manteiga para nos alimentarmos. É um clube de gente de bom coração, mas sem condição", lembrou.

O rumo da carreira quando um empresário português viu suas boas performances com a camisa do time de Mangaratiba. Foi quando aceitou o convite para testes no Benfica B e encarou o desafio europeu mesmo sem dinheiro no bolso.

Vincent West/Reuters
"O Benfica me abrigou no alojamento do clube em período de testes. 15 dias depois fui chamado para assinar contrato. Foi tudo tão rápido que era difícil das pessoas acreditarem", comentou.

O plano do Benfica era de que o atacante fizesse parte do elenco do time B e o salário oferecido em Portugal foi de 1.200 euros em um contrato de cinco anos. A primeira iniciativa foi a de trazer a namorada Jessica Layne e alugar uma casa. Em pouco tempo, o dinheiro ficou curto.

Reprodução / Facebook
Deyverson tirou foto com Neymar após ser o herói da vitória do Alavés contra o Barcelona no Camp Nou
Com dificuldades para sobreviver em Portugal, o "maior auxílio da carreira", como define, apareceu. O então atacante brasileiro do Benfica, Alan Kardec, convidou o casal para morar em sua casa até conseguir juntar dinheiro.

"Como vascaíno de coração, já tinha o (Alan) Kardec como ídolo. E depois ainda cheguei aqui e dividi quarto no alojamento com ele. É o cara que mais me ajudou em Lisboa", definiu Deyverson.

O atacante brasileiro já atuava emprestado ao Belenenses, da primeira divisão de Portugal. No Benfica, o máximo atingido foram treinos com profissionais - jamais realizou uma partida oficial pelo clube -. E a escolha da agremiação portuguesa foi a de emprestá-lo ao Colônia, em 2015.

"Tinha que seguir arriscando. Joguei pouco na Alemanha, pois tive lesão na coxa, mas tudo é aprendizado. Foi a única vez que joguei pelos lados do campo, não sendo uma referência no ataque. O estilo de jogo por lá é bem diferente", comentou.

Ao retornar para o Belenenses, em 2015, Deyverson teve temporada de sucesso, sendo posteriormente vendido ao Levante da Espanha por 2 milhões de euros. Na temporada de estreia no Campeonato Espanhol, a de 2015/2016, fez 9 gols, em 33 partidas, e chegou a marcar na derrota em casa, por 3 a 1, contra o Real Madrid. Com o rebaixamento do time, a transferência ao Deportivo Alavés foi o caminho.

"Aqui estou no auge da carreira. Ando na cidade (Vitória, região do País Basco) e sou reconhecido, as pessoas falam comigo, me pedem foto e autógrafo. O clube é humilde, joga no 4-5-1 e fico me matando lá na frente", analisou.

Com o esquema defensivo, o Alavés desafia grandes na Espanha. Foi capaz de vencer o Barcelona no Camp Nou e na atual edição da Copa do Rei sofreu apenas três gols, em sete partidas.

"Vamos entrar para ganhar o jogo (contra o Celta). Mas não fugiremos de nossas características. E isso quer dizer que vou lá ajudar na marcação e jogar do meu jeito, por uma bola", frisou Deyverson, já acostumado a agarrar qualquer oportunidade.  

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