Ele fez um gol contra, salvou o Corinthians e virou andarilho do futebol

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

A bola que insistentemente rondava a área do Remo na noite de 9 de abril de 1996 já não parecia mais levar perigo ao time paraense nos minutos finais da partida contra o Corinthians. Parecia. Numa fração de segundo, um chute atabalhoado do atacante Castor culminou em um gol contra antológico.

Os 32 mil torcedores presentes ao Estádio Mangueirão, em Belém, assistiram à eliminação da equipe da casa. O Corinthians, salvo pelo improvável lance, conseguiu a vaga nas quartas de final da Copa do Brasil. Depois de quase 21 anos, os times podem se reencontrar na competição nacional - basta o Remo empatar com o Brusque na próxima quinta-feira, em Santa Catarina (o time paulista venceu a Caldense na estreia e aguarda o adversário da segunda fase).

A reportagem do UOL Esporte foi atrás do principal personagem daquela partida. E constatou que o ex-jogador Castor teve uma mudança de trajetória no futebol por causa do gol contra marcado a favor do Corinthians.

Em negociação com o Grêmio de Luiz Felipe Scolari, segundo suas palavras, Castor viu a iminente transferência ser descartada. Depois, rodou pelo mundo jogando futebol, aventurou-se na Coreia do Sul e defendeu mais de 15 clubes no Brasil até encerrar a carreira aos 35 anos.

"Tinha 23 anos, era um dos mais jovens do elenco. Sofri muita pressão por ter feito aquele gol contra. Eu estava com tudo certo para ir para o Grêmio. Falaram com o Felipão e o Fábio Koff (ex-presidente do clube gaúcho). Ganharia R$ 9 mil. Tinha acertado tudo, mas infelizmente, com o gol contra, acabei não indo. Entendi a situação e fiquei no Remo", disse Castor, conformado.

O ex-jogador, hoje com 44 anos, ainda mora em Belém e trabalha na área administrativa da Polícia Civil do Pará. Antes, nos primeiros anos após abandonar os gramados, Castor trabalhou no comércio de rações para cachorro e gás de cozinha.

Ari Souza/O Liberal
Castor em treino do Remo em 1996

O erro fatal

Passadas duas décadas, Castor ainda tem os detalhes do gol contra vivos na memória. Na ocasião, o Corinthians precisava de um gol para se classificar depois de o Remo abrir o placar no primeiro tempo - no jogo de ida, em Sorocaba, os times empataram sem gol, com direito a pênalti perdido por Edmundo.

O lance era provavelmente o último da partida. Depois de um chute fraco e torto fora da área, a bola sobrou limpa para o volante Bernardo, que bateu mascado para o gol. No rebote, Castor entrou em ação. 

"A bola quicou no gramado e saiu de mim. Nessa hora eu chutei com o efeito ao contrário da bola. Era 47 minutos já. Tanto que os diretores invadiram o campo depois porque não precisava de acréscimo", relembrou o camisa 16 do Remo no duelo.


No vestiário, as lágrimas

Castor admite que foi às lágrimas no vestiário do Mangueirão. Houve um pedido de desculpas coletivo. Embora tenha tirado o Remo das quartas da Copa do Brasil, o grupo de jogadores não o culpou, tampouco o treinador Waldemar Carabina.
 
"Acabou o jogo e entrei no vestiário chorando. Pedi desculpas para o grupo, mas o Carabina não botou a culpa em mim. Ele botou a culpa em outro jogador, o Zedivan, que perdeu um gol sozinho no jogo em São Paulo", ressaltou Castor, que recebeu o apoio de Edmundo e Marcelinho ainda no gramado.
 
Acervo pessoal
Castor, aos 44 anos, ao lado do filho
 
"Eles falaram comigo, me deram uma força. Disseram que isso acontecia, que fazia parte do futebol e que era normal. Pediram para eu levantar a cabeça e que poderia acontecer com qualquer um. Recebi apoio deles", disse.
 
Castor foi novamente escalado dois dias depois em um jogo do Campeonato Paraense. E marcou um dos gols da vitória do Remo por 6 a 0. "Ele (Carabina) gostava muito mim. Todo mundo gostava de mim, eu trabalhava bastante e não era mala, todo mundo era unido", continuou o ex-atacante, que não escapou das brincadeiras nas semanas seguintes: "No treino de chute a gol falavam que eu tinha de chutar para frente."


Andarilho

Castor precisou lidar com a pressão da imprensa local e dos torcedores do Remo para continuar atuando no clube. "No dia seguinte passei a manhã atendendo telefone, eram jornalistas de todo o Brasil. Expliquei que queria ajudar, queria chutar a bola para escanteio e peguei errado nela. À tarde foi a reapresentação e tinha muita gente da imprensa atrás de mim", disse.
 
O ex-jogador fez parte da campanha do tetracampeonato estadual da equipe e do sétimo lugar na Série B do Brasileiro. No fim de 1996, achou melhor respirar outros ares, a fim de escapar da perseguição.
 
"Surgiu no fim do ano uma oportunidade de ir para a Coreia. Fui para lá porque queria ir embora e sair da pressão da torcida. Jogava uma partida mal e lembravam do gol contra. Quis sair", contou.
 
Depois que voltou ao Brasil, Castor acertou com o Iraty, do Paraná. Em seguida, começou a jogar em diversas partes do Brasil. "Joguei na Bahia, Amapá, Roraima, Amazonas. Depois rodei aqui em Belém. Joguei em 16 clubes, mas nunca mais joguei no Remo. Encerrei a carreira aos 35 anos", destacou Castor.
 
Com a possibilidade de um novo confronto entre Corinthians e Remo na Copa do Brasil, Castor diz que não sabe como vai reagir - a partida seria novamente disputada no Mangueirão. "Estou esperando o momento, ainda não pensei muito nisso. Vamos ver o que vou sentir na hora. Talvez eu vá lá", ressaltou.

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