Petros, maior ladrão de bolas da Espanha: "É diferente marcar europeu"

Gustavo Franceschini

Do UOL, em São Paulo

  • AFP / CRISTINA QUICLER

    Petros em ação pelo Betis; ex-corintiano lidera Espanhol em desarmes na temporada

    Petros em ação pelo Betis; ex-corintiano lidera Espanhol em desarmes na temporada

Petros já era um destaque do futebol nacional em termos de roubadas de bola quando trocou o Corinthians pelo Betis, no meio de 2015. Quase dois anos depois, ele retomou o status no Espanhol, onde é o maior autor de desarmes na temporada. Com a experiência de quem entende do assunto, ele afirma: "É muito diferente marcar no Brasil ou na Europa".

"No Brasil, eu tinha uma estratégia e aqui não conseguia resultado. O que eu faço é muito diferente. A principal [mudança] é que o brasileiro sempre joga em mais de dois toques. Eu sabia que quando estava em função defensiva o cara do mano a mano ia tentar o drible. E aí é 50% a 50%. Aqui na Espanha nenhum ou poucos encaram no mano a mano. Comecei a me dar conta de que aqui é um ou dois toques sempre. Aí eu sempre analiso o jogador que vou jogar contra, tento ver onde ele vai dar o passe e com isso você induz o jogador a fazer o que você quer", diz Petros, revelando sua estratégia pessoal para ter 90 desarmes em 20 partidas, segundo o site especializado WhoScored

O "segredo" foi revelado em uma entrevista de 30 minutos em que o volante contou mais do seu lado "nerd" ao UOL Esporte. Ao contrário de muitos de seus colegas de profissão, Petros diz ver jogos de futebol em exaustão, fala abertamente sobre quem o inspira e dá detalhes de como técnicos como Tite e Mano ajudaram na sua formação.

Hoje, aos 27 anos, ele tem contrato até 2020 com o Betis, mas não descarta mudar-se em breve para um clube maior. De cabeça, educadamente, ele é capaz de lembrar à reportagem desde dados estatísticos a detalhes como a quantidade de jogadores acima dos 25 anos que foram negociados na última janela de transferências. Tudo com a mesma naturalidade de quem é capaz de dar um chapéu em Lionel Messi.

Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista com Petros:

Chapéu em Messi foi "lance mais falado da carreira"

São coisas que você imagina quando criança, poder jogar contra os melhores. Foi talvez o lance mais falado da minha carreira. Você não tem ideia do que dei de entrevista. Até brinquei: 'Se puder vou passar todo jogo tentando chapéu e caneta no Messi'. E ali era a única alternativa de passar por ele. O mais importante é trabalho. Você fazer isso em um jogador normal ninguém vai comentar, mas em um jogo transmitido para todo o planeta...

Quem foi o jogador mais impressionante que enfrentou?

Jogando contra eu sou muito fã do Iniesta. Ele é espetacular. Eu gosto muito do Neymar e do Messi. Neymar é mega participativo. Ele busca o gol e o drible o tempo inteiro. Messi não é tão participativo, mas pode desequilibrar. Em uma fração de segundo ele faz a jogada e decide.

Busquets é inspiração. Iniesta é "melhor do mundo"

Tem um jogador da minha função, que é o Busquets, que consegue fazer marcação e sair paro jogo com uma facilidade muito grande. Nessa função ele é um dos melhores. Tem o Casemiro que também está em um momento muito bom, hoje é uma das referências do time do Zidane. E como construção o Iniesta é o melhor do mundo.

Líder em desarmes do Espanhol

Estou vivendo um momento super-especial. É muito difícil de manter o bom desempenho. Desde que cheguei tenho jogado mais de 93% das partidas. Saí como máximo recuperador de bolas do Brasileiro e chegar num dos principais torneios do mundo e manter essa média é um dado muito importante. Jogo num clube muito respeitado, estou no melhor momento da minha carreira.

No Corinthians, brigava pela ponta. No Betis, fica no meio da tabela

Quando eu cheguei no Corinthians eu comecei a jogar desde o primeiro jogo. Joguei 32 jogos e o time passou quase todos sem perder. São dados muito consideráveis. Tomei a decisão de vir para Europa e não dei um salto para um Real ou Barcelona. Escolhi um clube com uma torcida tão apaixonada quanto a do Corinthians, mas tem um lado que não é tão bom. Talvez isso pese um pouco. É muito diferente quando a gente joga contra grandes clubes. O princípio é muito complicado. Mas eu falei que queria ser como uma esponja. O que eu pudesse ver e analisar aqui seria importante pra minha carreira. Eu analisei bastante.

Análise de desempenho do Betis é melhor que no Brasil

Costumo falar que minha profissão é minha vida. No Corinthians tinha um departamento de tecnologia muito importante. Com Mano e Tite isso sempre foi muito exigido. Aqui ainda é muito mais. O que eu vejo de vídeo dos jogadores adversários é muito maior do que eu via no Brasil. Do mesmo jeito que um goleiro estuda as cobranças de pênalti dos rivais a gente tem os vídeos das nossas posições.

Números, saúde e relacionamento podem levar a um time grande

Eu fugi um pouco à regra. Normalmente os jogadores chegam aqui com 19. Eu cheguei com 25, mas para mim foi muito bom. Cheguei sabendo o que eu queria. Isso tem me ajudado muito. Saí de casa para realizar meus sonhos e tenho quase todos eles realizados. Tem seleção brasileira, mudança para um time que possa brigar por coisas muito grandes... Eles contratam jogador por minutos em campo, poucas lesões, por ser bom de grupo, com caráter. E graças a Deus eu tenho me encaixado nesses quesitos. Estou muito feliz, estou em casa. As pessoas têm um carinho por mim e retribuo com vontade, mas a gente sempre trabalha para conseguir coisas melhores. As grandes contratações tanto do mercado de verão quanto de inverno foram de jogadores de mais de 25 anos. Eu me encaixo nessa zona. E por que não? Eu trabalho muito e tenho uma gana de crescimento absurda.

Mano ensinou a ler jogo. Tite trabalhou com psicológico

Tenho de agradecer muito ao Mano, que me deu chance de sair da Penapolense para ir ao Corinthians. Ele me deu apoio, oportunidade. Sou grato a ele para sempre. E depois teve a chegada do Tite, um dos melhores ou o melhor que temos. Um treinador que é um pai, de conhecimento. Lembro que ele sempre mostrava coisas do Mourinho, do Guardiola. Os resultados dele mostram isso. Sou muito grato aos dois. Com o Mano eu me lembro sobre função tática. Teve partidas que antes dele me dar a informação, por perceber o que ele gostava, eu pude fazer algum tipo de mudança tática e técnica. Ele me ensinou a fazer leitura de jogo mais rápido que o rival. O Tite trabalha muito com o psicológico do jogador. Você sempre vai ouvir o jogador do Tite falar em concentração, foco de jogo, estar ciente da sua função no time...

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