O depoimento do atacante que salvou vida do goleiro rival: "não sou herói"

Fábio Aleixo

Do UOL, em São Paulo

Francis Koné, atacante togolês de 26 anos, ganhou destaque em todo o mundo por um gesto que valeu uma vida. Em jogo do Campeonato Tcheco entre sua equipe, o Slovacko, e o Bohemians 1950 ele impediu o goleiro adversário Martin Berkovec de se sufocar com a sua própria língua durante uma convulsão e colocá-lo de lado.

O momento dramático, que deixou desesperado atletas e torcedores foi encarado com naturalidade por Koné. Em depoimento exclusivo ao UOL Esporte por telefone, o atleta detalhou o resgate e contou outras experiências idênticas que teve em sua carreira.

"Esta foi a quarta vez que aconteceu comigo. Foram duas na África e uma na Tailândia. Para falar a verdade, esta foi uma das fáceis, apesar de todo mundo ter ficado muito assustado.

Eu estava na jogada e quando teve o choque entre o goleiro e o zagueiro foi realmente muito forte. O barulho foi assustador. Todo mundo saiu correndo para ver se o goleiro estava bem. Eu já vi que ele estava inconsciente, sem nenhuma reação, com os olhos virando e a boca ficando dura. Também tinha sangue no rosto. Eu fui imediatamente abrir a boca dele para ver como estava a língua.

Nestes momentos de convulsão, a pessoa fica muito forte. Então coloquei as mãos dele sobre o peito e sentei em cima para ele não me atingir. Coloquei ele de lado e comecei a puxar a língua. A boca lá estava com muita saliva e foi um pouco complicado. Os médicos chegaram e deram sequência ao tratamento.

Não tenho nenhum tipo de curso médico, nem nunca li muito sobre o tema. A minha reação foi em decorrência das minhas experiências mesmo. Na primeira vez que aconteceu, lá na Costa do Marfim, eu fiquei assustado, pois nunca tinha acontecido algo do tipo comigo. Mas fui e consegui ajudar.

Agora, a segunda experiência, também na Costa do Marfim foi a mais perigosa de todas. Estava na capital Abidjan em uma partida amistosa entre jogadores marfinenses e de outras partes do mundo. Em um lance isolado, o atacante do outro time caiu no gramado e bateu a cabeça com violência. Ele apagou na hora e todos acharam que ele estava morto, começaram a chorar e ficar desesperados. Eu saí correndo com tudo e fiz o mesmo procedimento, pois a língua estava bem enrolada. Acho que fiquei uns três, cinco minutos com ele e tudo deu certo, graças a Deus! Por isso eu digo que desta vez foi fácil.

Depois do jogo, eu falei com a minha mãe e ela me disse que talvez Deus tenha reservado isso para mim e que não foi a primeira, nem a última vez que acontecerá algo parecido.

O goleiro escreveu uma mensagem para me agradecer, o pai dele veio falar comigo ainda nos vestiários e muitas pessoas do Bohemians também disseram obrigado.

Mas eu não penso que eu sou um herói. Faz parte do meu trabalho isso. Para mim, como um ser humano é normal ajudar ao outro. 
 
Sempre que eu entro em campo, a primeira coisa que penso é no respeito ao próximo, à camisa que você veste, ao seu oponente e ao fair play. Os três pontos, a bola são apenas coisas materiais. A vida é muito mais importante.
 
Sei que minha imagem está correndo o mundo, muitos jornalistas estão querendo falar comigo. Mas eu digo: é algo normal. Agradeço a Deus e a Jesus."

z.bas@seznam.cz

 

Jogador diz que é fã de Ronaldo e já sofreu com racismo

Reproduç]ão/Facebook

Koné ficou feliz ao saber que estava falando com um jornalista brasileiro e até soltou um "obrigado" quando atendeu à ligação. O atleta contou que apesar de nunca ter visitado o Brasil tem uma relação especial com o país por causa de sua idolatria por Ronaldo.

"Meu ídolo e herói é o Ronaldo. Mas Ronaldo Nazário, hein? Não Cristiano Ronaldo", advertiu em tom de brincadeira.

Ele contou que na Copa de 2002 até cortou o cabelo no estilo Cascão para homenagear o ídolo e todos os amigos o passaram a chamar de Ronaldo.

"Tinha muitos fotos dele, meus amigos na África só me chamavam assim. Meu sonho é conhecer ele um dia", disse o atacante que já disputou duas partidas pela seleção de Togo e defende o Slovacko desde a última temporada.

O jogador que passou por clubes da Costa do Marfim, Libéria, Tailândia, Argélia, Omã e Hungria afirmou que um dia gostaria de atuar no Brasil, mas sabe que é difícil.

Ele contou também que assim como muitos outros negros, já teve de lidar com o racismo no futebol.

"Não é fácil para jogadores negros do Brasil, da África. Estas coisas acontecem mesmo. Gritam macaco, xingam e fazem de tudo para te desestabilizar. Ouvia cada coisa em Portugal. Mas para mim racismo não existe. Isso é uma coisa de pessoas ignorantes", completou.

De acordo com especialistas, em casos de convulsão não é indicado esse tipo de procedimento, como o de colocar objetos ou até mesmo o dedo na boca da pessoa. Um indivíduo com crise convulsiva pode, inclusive, morder involuntariamente o dedo do ajudante e machucá-lo.

 

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