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Atleta que derrubou o juiz quer volta por cima: "coisas boas virão"

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

28/02/2017 04h00

A culpa e o arrependimento são sentimentos difíceis de lidar, mas foi com eles que o zagueiro Ferreira, 32 anos, precisou conviver no final de ano. “Eu não tinha cabeça para nada. Natal, eu acho que só não foi pior que o primeiro Natal que passei sem minha mãe”.

O atleta estava com a cabeça fervendo pelo que aconteceu após ser expulso da final da Série C. Ele jogou o juiz no chão com um empurrão depois de ver o cartão vermelho. Cercado por companheiros, continuou indo na direção do árbitro e chegou a derrubar um colega de time.

Ferreira foi condenado a 180 dias de suspensão. Na ocasião, ele defendia o Guarani, equipe derrotada na decisão pelo Boa Esporte, clube de Varginha (MG). O jogador disse que se apegou a fé e precisou muito da família e amigos para enfrentar os primeiros dias. O apoio começou ainda no vestiário.

“Logo após a partida no vestiário, recebi apoio de todos, comissão, atletas e diretoria. Me falaram para ter calma, confiar em Deus que tudo seria resolvido da maneira certa. Estavam preocupados com o que podia acontece comigo, com minha carreira.”

Ferreira conta que não tinha medo de ficar marcado, o que de fato não aconteceu. Desemprego também não era um medo porque o contrato acabava em dois dias. Mas houve prejuízos. Além do gancho longo, a atitude afastou interessados em sua contratação. Havia sondagens de times da Macedônia, Cazaquistão e Rússia.

“O medo era grande de um ano todo ser jogado fora por questão de segundos.”

Realmente os times estrangeiros se afastaram. O zagueiro achou refúgio no Mirassol e, mesmo sem poder atuar, está contratado e treinando com o elenco principal. Ferreira acredita que o pior ficou para trás.

"Certeza que coisas boas estão reservadas para o restante do ano."

“A responsabilidade é toda minha”

Nos dias seguintes ao episódio, o zagueiro afirmou o juiz tinha errado na expulsão. Ele ainda pensa assim, mas não enxerga neste fato um motivo para aliviar a sua parcela de responsabilidade pelo que aconteceu.

“O juiz errou, como o Rodolfo (jogador do Boa Esporte) também errou simulando daquela forma, mas nada justifica o que eu fiz. Eu perdi a razão no momento em que empurrei o árbitro, sendo assim a responsabilidade é toda minha, não tenho que achar outro culpando!”

Ferreira conta que sempre foi focado, se entregava totalmente pelo time e não admitia perder. O atleta acredita que este espírito acabou atrapalhando. Mas o jogador garante que é um episódio isolado e em 14 anos de carreira foi a primeira vez que aconteceu. Ele se apoia em sua história de vida para superar este momento complicado. Ferreira teve uma infância difícil depois que a mãe se separou.

Criado em Cabo frio, disputou a Copinha pelo Barreira (RJ) e foi bem. Acabou contratado por um time da Letônia. Não sabia nada sobre o país, nem a língua, os costumes e o nome das cidades. Mas falhar não era uma opção e Ferreira foi bem. Jogou também na Rússia e Cazaquistão e chegou a disputar a Liga Europa.

“Me virei porque eu tinha que vencer, eu fui para vencer! Eu não ganhava bem, mas era minha oportunidade de realizar meu sonho que era ser jogador de futebol. E consegui isso com muita luta e força de vontade.”

Ferreira tem certeza que agora a história não será diferente. E acredita que tudo que passou ajudou a crescer e se tornar uma pessoa melhor e mais forte. Ele está na metade do tempo de suspensão e daqui três meses espera conseguir provar em campo que sua previsão de dias melhores está certa.