Goleiro do Corinthians lembra como foi fácil defender um pênalti de Pelé

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

Heitor Amorim Perroca não precisa vasculhar a memória para encontrar ali intactos aqueles segundos que marcaram sua vida. "Foi no dia 30 de setembro de 1964", diz ele pelo telefone como quem começa uma história que nunca cansa de recontar.

"A verdade é que o Pelé perdeu o pênalti", admite. Aos 76 anos, Heitor não esqueceu nada do dia em que parou o maior jogador de futebol de todos os tempos. Era o fim do primeiro turno do Campeonato Paulista no Pacaembu.

O jogo tinha começado em Santos, dez dias antes, 75 km dali, mas o alambrado da Vila Belmiro cedera diante da pressão de 32 mil pessoas que superlotaram o estádio. Mais de 180 pessoas ficaram feridas, e o clássico for remarcado para a capital.

"O jogo mais esperado deste campeonato", anunciava a "Folha de S.Paulo".

Aquela quarta-feira começou agitada. O presidente Castelo Branco tinha acabado de extinguir a União Nacional dos Estudantes. Em Brasília, o governo militar empossado pelo golpe meses antes ameaçava decretar estado de sítio caso "a desordem" tomasse conta do país. No mundo, temia-se que a China pudesse acionar uma bomba atômica a qualquer momento. No Rio, Garrincha se recuperava de uma cirurgia que retirara os meniscos machucados por suas pernas tortas.

Reprodução
Na legenda da foto de Pelé, o jornal avisava que o Pacaembu estaria cheio para vê-lo

Em São Paulo, Corinthians e Santos, os líderes do campeonato, se digladiavam em um gramado encharcado, as chuteiras criando cortinas d'água a cada pisada no chão, os calções e camisetas vergando sob o peso de lama, chuva e suor.  

O camisa 10, já bicampeão do mundo, aterrorizava a defesa corintiana. Ele já tinha feito um gol, aproveitando o rebote de uma falta. No segundo tempo, foi derrubado dentro da área. Pelé se preparou para chutar o pênalti e desempatar o jogo. O placar apontava 1 a 1.

"O Pelé tinha inventado esse negócio de paradinha", lembra Heitor.

"Olhava pro goleiro, o goleiro caía para um lado e ele chutava no outro. Quando houve o pênalti, pensei que eu ia cair, mas fiquei parado, balançando as asas igual um gavião. Dei aquela rolada no chão e espalmei. "

A bola rolou na grama molhada alguns metros à frente e foi abraçada por Heitor que pulou como um tigre sobre ela. Naquela época, não se usavam luvas. Um locutor se empolgou na tribuna anunciando a defesa. Pelé se aproximou e deu um tapinha nos ombros do goleiro. "Desgraçado", disse o rei, conforme a memória de Heitor.

Acervo pessoal

Pelé continuaria tentando marcar. O primeiro já tinha sido dele. Emplacou uma caneta em um corintiano, cavou faltas, rolou no chão, foi advertido pelo árbitro, mas não conseguiu fazer o segundo.

O Corinthians comemorou muito o empate, e Heitor seria tratado como herói nas entrevistas pós-jogo. Mas no segundo turno daquele campeonato, quando Santos e Corinthians se enfrentaram novamente, os santistas venceram por 7 a 4 no mesmo Pacaembu. Pelé sagrou-se campeão estadual, fazendo quatro gols. Dois de pênalti.

Heitor chegou à seleção e se tornou testemunha de Jeová

Batizado testemunha de Jeová, Heitor passou a ser uma daquelas pessoas que batem na sua casa sem convite para pregar a Palavra de Deus. Nessas ocasiões, o acompanhava sua esposa Dilma.

"Como éramos missionários, a gente tirava uns quatro dias por semana para visitar as pessoas, um pouco de manhã, quando o sol está mais manso, ou no fim da tarde. Tudo gratuito. Frequentava uma congregação perto do Corinthians, no Tatuapé. Quando eu comecei a sair, acompanhava missionários mais experientes porque eu não sabia transmitir a mensagem direito. Eu batia na casa das pessoas, aí às vezes eu tinha tomado o maior frango na véspera. A pessoa me reconhecia, lembrava, então eu tinha que botar culpa no montinho artilheiro."

Acervo pessoal

Heitor diz que continua visitando desconhecidos até hoje para pregar. Ele vive no interior do Rio de Janeiro, perto de Teresópolis, com sua esposa. Tem três filhos e três netos. Com passagem pela seleção brasileira que disputou o Panamericano em casa, Heitor mentem vívida a memórias dos tempos e goleiro.

Naquela época, Pelé era conhecido, além de tudo, também por ser um ótimo batedor de pênaltis. Chegou-se a difundir uma lenda segunda a qual o rei jamais havia errado uma cobrança. Mas registros estatísticos dão conta de que ele perdeu pelo menos 24 pênaltis. Um deles parou nas mãos sem luvas de Heitor.

Apesar ser até hoje lembrado por aquela defesa no Pacaembu, ele responde humildemente a quem elogia seu feito. "O Pelé bateu mal. E se bater mal a gente pega."

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