Craque de 6 anos dribla meninos, inspira meninas e vira alvo de machismo

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

Ariana dos Santos, uma brasileira de seis anos que vive nos EUA, está sendo chamada de "Neymarzinha" e "Martinha" por causa dos vídeos que seus pais publicam na internet. Nos vídeos, Ariana aparece driblando meninas maiores e outros meninos, fazendo embaixadinhas e gols bonitos, treinando como se fosse uma profissional da bola.

"É meio difícil falar da própria filha", admite David Santos, pai da garota, um brasileiro que é professor de futebol em Kansas City. "Mas a Ariana é diferenciada mesmo". Ela acompanha o pai em todos os treinos que ele dá em um clube de futebol da cidade e é a aluna mais assídua. São duas horas de treino diárias depois dos dois turnos que passa na escola.

Acervo pessoal

David costuma dizer a amigos que Ariana aprendeu a gostar de futebol ainda na barriga da mãe, a americana Hollie, que também jogou futebol na escola. Quando Ariana estava lá, o casal costumava aumentar o volume da televisão quando estava passando futebol e narrar gols para a menina não nascida.
 
"Eu vivo futebol 24 horas por dia", diz David. "Quando ela era pequenina, ficava o dia inteiro comigo. Enquanto o pessoal passava pros filhos a Galinha Pintadinha, eu colocava lances de futebol pra ela".
 
Ariana se diz fã de Neymar e Marta e gosta de jogar com a camisa 10. Os vídeos com seus lances já atraíram a atenção de jogadoras da seleção brasileira, como a meia-atacante Andressa Alves, que a convidou a ver um jogo do Barcelona, time que ela defende, na Espanha. Os pais começaram uma campanha online para angariar doações.

Inspiração a outras meninas boleiras e reação machista

David e Hollie dizem que seu objetivo ao divulgar os treinos da filha é inspirar outras meninas ao redor do mundo a também lutarem contra o machismo dos que afirmam que o futebol não foi feito para elas. "A Ariana é muito pequena e não entende isso, ela só quer brincar e se divertir.  Mas nossa intenção não era mostrar que ela era habilidosa e sim quebrar essa barreira machista, principalmente no Brasil, onde o futebol feminino ainda enfrenta muitos obstáculos", diz David.

Acervo pessoal

Mas mesmo em um país mais acostumado com o futebol praticado por mulheres, Ariana é alvo de alguns comentários depreciativos, ciumentos e mesmo mensagens de ódio.

David diz que outros pais ficam chateados quando Ariana dribla e faz gols em seus filhos homens. Ser driblado por uma menina costuma ser interpretado como uma grande vergonha pelos meninos. Alguns pais reagem incentivando-os a entrar "mais duro" em Ariana, talvez numa tentativa de intimidá-la.

Reprodução
"Como ninguém entrou com os dois pés nela?" "Ela é merda. Eu entraria com os dois pés na vadia" "Mas ela consegue fazer isso numa quarta-feira chuvosa em Stoke?" "Só porque a garota consegue chutar uma bola vocês ficam OH MEU DEUS"

Mas na semana passada, em um vídeo que mostrava a garota de seis anos treinando dribles, um homem adulto foi aos comentários xingá-la e ameaça-la: "Eu entraria com os dois pés na vadia", escreveu ele.

"Ela é habilidosa e dribladora e as pessoas que jogam numa posição mais defensiva costumam não gostar desse tipo de jogo", diz o pai, que ficou muito irritado depois de ler esse comentário, principalmente vindo de um adulto. O homem apagou sua mensagem dias depois.

Apesar disso, a maioria dos comentários que Ariana recebe são elogios e palavras de incentivo. Muitas pessoas dizem que gostariam de ter uma filha como ela e muitas outras já cravam que ela estará na seleção brasileira (apesar de ter dupla nacionalidade e ter o inglês como primeira língua, ela diz preferir ver jogar o Brasil).

"Não vamos forçar nada. Queremos que ela faça uma faculdade e se continuar gostando de jogar futebol, que siga esse caminho ou qualquer outro", diz David.

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