Zenga vê Gabigol como futuro da Inter de Milão e aponta desafios de Ceni

Andrea Chiavacci

Colaboração para o UOL

  • Nathan Stirk/Getty Images

Walter Zenga, 56 anos, foi sem dúvida um dos goleiros mais carismáticos que a Itália teve. Sempre sorridente, e com cabelo comprido, tinha em suas saídas e defesas um estilo próprio que o marcou inclusive com o apelido de Homem Aranha. Seu nome é ligado a um ciclo vitorioso da Inter de Milão com um campeonato ganho, em 1989, e uma Copa UEFA, em 1991. Com a seleção italiana conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo de 1990, jogando como titular.

Como treinador já atuou na própria serie A com Catania, Palermo e Sampdoria, além de uma longa experiência no exterior, principalmente em times do Oriente Médio. Por ter a experiência de ser um goleiro que decidiu seguir a carreira de técnico, Zenga fala com respaldo sobre o desafio que Rogério Ceni tem pela frente como treinador do São Paulo. Na entrevista concedida ao UOL Esporte, o ex-arqueiro comentou ainda sobre Gabigol, a quem considera ser um dos nomes do futuro da Inter de Milão.

Confira a entrevista completa com Walter Zenga:

UOL Esporte - Rogerio Ceni está para o São Paulo como Totti para a Roma: 25 anos vestindo uma única camisa, dos quais 19 como titular indiscutível. Se conversasse com Ceni, você o teria desaconselhado de passar de imediato do papel de jogador para o de treinador?
Walter Zenga - Não acho nada demais passar de imediato do papel de líder em campo ao de treinador que é o líder no vestiário. Para ele, inclusive, se trata de uma transição natural em um clube onde ele conhece tudo, todos, inclusive o clima dos torcedores e cada pessoa da diretoria.

Mas quais as vantagem e as desvantagens que um ex-goleiro como o Rogério tem na hora de ser treinador se comparado a um jogador de linha?
Acredito que tenha a mesma experiência no campo dos demais jogadores, e portanto nem desvantagens nem vantagens. Porém, queria destacar que em determinadas dinâmicas defensivas pode passar sua experiência, pois do gol as ações se veem de forma diferente. Em relação ao ataque também, pois o goleiro acaba tendo que defender muitos chutes em sua carreira e isso também ajuda em preparar algumas dinâmicas nos treinos. Resumindo: esses são somente detalhes. Acredito que, no final das contas, o que mais determina o sucesso de um treinador é seu caráter e sua liderança.

Rogerio é um goleiro que detém um recorde de 132 gols na carreira. Além da habilidade, é necessário ter muita liderança para se impôr em cima de um atacante na hora de decidir quem bate as faltas? Nunca vimos você bater sequer um pênalti. Você teria gostado de fazê-lo?
Sempre eu faço o melhor bater os pênaltis e as faltas, e se o melhor fosse o goleiro, por que não? Eu podia desejar muito tudo o que quisesse nesse quesito, mas quando eu jogava naquela Inter que ganhou o campeonato dos recordes, jamais teria como ser melhor do que um certo Lothar Matthaus.

Tom Hauck /Allsport/Getty Images

Por qual motivo poucos ex-goleiros atuam depois como treinadores?
São poucos que realmente seguem essa carreira, além de mim, na Serie A italiana somente o Dino Zoff. Na Espanha temos o Lopetegui e na Bélgica o treinador do Bruges. O próprio Zoff disse em uma entrevista que estatisticamente é natural que sejam poucos treinadores ex-goleiros, pois existem 10 jogadores na linha e somente 1 no gol.

No Brasil os treinadores perdem emprego com frequência altíssima. Em 2016 foram 29 demissões. Qual sua opinião sobre isso?
Acho que quando os treinadores são demitidos com grande frequência significa que temos um problema de cultura futebolística deficiente e, dessa forma, o sistema apresenta seus limites. Veja que o campeonato onde temos menor rotatividade de treinadores é a Premier League, que inclusive é o mais seguido pelo público, e que registra o maior número de espectadores, etc...Wenger treina o Arsenal há mais de 20 anos. Na Itália, atualmente, o treinador com mais tempo de casa é Di Francesco que está à frente do Sassuolo há 5 temporadas o que é considerado uma raridade.

Afirmo que o sistema do futebol no Brasil, como na Itália, não funciona corretamente pois o treinador é um manager e, em qualquer empresa, ao manager é dado o tempo de alcançar os resultados. Não somente algumas semanas, mas pelo menos um ano.

Nos últimos 10 anos no Brasil, o treinador estrangeiro que mais durou na condução de um time é o Diego Aguirre com um "recorde" de 8 meses à frente do Internacional. Vamos considerar que amanhã um presidente de clube te chame para ser o primeiro italiano a conduzir uma equipe no Brasil, o que você responderia? Que tipo de exigências você colocaria em seu contrato? Você já considerou a possibilidade de treinar no Brasil?
Sim, eu  viria com prazer a treinar no Brasil, e a este presidente de clube gostaria de fazer um discurso claro de projetos e objetivos, e lhe diria: "Eu chego, vamos ver juntos o grupo de atletas que tenho e terei à disposição, depois eu treino o time e a gente se encontra 3 vezes durante o campeonato todo para falar de como segue o projeto". Ou seja, não é possível colocar em discussão um treinador após cada rodada. Se existe um projeto e um objetivo, vamos avaliar se o percurso está indo nessa direção. Se não tiver paciência de deixar trabalhar um treinador e fazer crescer o grupo, então a esse presidente diria: "não, obrigado".

AFP / GIUSEPPE CACACE
Agora, um desafio: você é agora o treinador da Inter de Milão, e tem a disposição uma última substituição para tentar reverter um resultado desfavorável. No banco, você tem Gabigol e Palacio: quem você coloca em campo?
Infelizmente não sou treinador da Inter....Então não é um problema meu! Mas, deixando as piadas do lado, Gabigol é o futuro, Palacio o passado, e o que nos espera na frente é o futuro...não o passado.

Quem são os jogadores brasileiros que você treinou e que mais te marcaram?
Eu não tive à disposição muitos brasileiros nos times onde atuei, mas sem dúvida desses todos quem destaco são Ricardo Oliveira (Al Jazira) pelo grande profissionalismo, Leo Lima (Al Nasr) por ser um dos mais fortes que já treinei e Zé Love (Al shaba) pelo seu grande talento.

 

 

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