"Ameaçadas", mulheres de Varginha convocam ato contra contratação de Bruno

Gustavo Franceschini

Do UOL, em Varginha (MG)

  • Reprodução

Um grupo de mulheres de Varginha tem manifestado, desde a última sexta, sua indignação com a contratação de Bruno pelo Boa Esporte que disputa a Série B nacional. Só que elas não querem dar entrevistas ou mostrarem seus rostos à imprensa. Desde que começaram a falar sobre o assunto, elas sofreram seguidas ameaças em redes sociais. Em anonimato, elas organizam para esta terça, às 18h30, um protesto contra o negócio que fez o goleiro voltar ao futebol.

Bruno foi condenado em primeira instância a mais de 22 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e cárcere privado no caso de Eliza Samudio, ex-amante e mãe de seu filho Bruninho. O ex-goleiro do Flamengo aguarda em liberdade porque entrou com recurso após a decisão do júri popular, em 2014, e o STF entendeu que não havia "justa causa" para que ele permanecesse em prisão preventiva.

O ex-jogador do Flamengo se apresentou ao Boa nesta terça, mesmo dia em que as mulheres de Varginha decidiram realizar o ato. No começo da tarde, o grupo emitiu uma nota oficial à imprensa.

"Hoje, dia 14 de março, às 18h30, acontecerá, em frente a Concha Acústica em Varginha, ato de repúdio a contratação do goleiro Bruno pelo time do BOA esporte clube. Estarão presentes representantes de vários coletivos de frente feminista, integrantes de movimentos sociais e a população em geral", disse o comunicado.

O evento foi divulgado no Facebook e uma das organizadoras convocou as mulheres para irem de preto e ficarem em silêncio em forma de protesto. O UOL Esporte conversou com umas das organizadoras que explicou que vários coletivos populares estão participando do ato.

A ideia, segundo elas, não é se posicionar contra Bruno ou seu direito de ressocialização. O questionamento é contra o Boa Esporte, que estaria, na visão do grupo, se aproveitando da situação para ganhar espaço na mídia.

A reação violenta às manifestações assustou as envolvidas. Várias teriam procurado a Polícia para prestar queixas de agressores, especialmente em ambientes virtuais. As vítimas preferiram não se pronunciar oficialmente sobre o assunto.

Confira o texto de convocação para o protesto:

O goleiro Bruno de Souza foi contratado pelo time de Varginha, o BOA Esporte Clube. O goleiro foi responsável pela morte e desaparecimento do corpo da mãe de seu filho, Eliza Samúdio. O assassinato foi motivado pela recusa de Bruno em pagar a pensão.

Criticamos a contratação que tem em vista obter uma maior visibilidade ao Clube, por causa de sua vida e carreira no Flamengo. Nós recusamos a ideia da vida de mulheres serem banalizadas novamente em nome do dinheiro. A vida de Eliza foi tirada por causa da recusa à pensão e agora é usada e diminuída novamente em torno dessa questão.

Todos os ex-presos deveriam ser ressocializados e ter direito a um trabalho. Isso não acontece na realidade, nós sabemos a estigmatização que os presos sofrem. A questão aqui não é ressocialização, é de como a vida de uma mulher sempre é deixado de lado em comparação com outras questões. De como a vida de uma mulher pode ser ridicularizada e menosprezada quando um homem tem alcance midiático, quando é famoso.

Convocamos o ato contra a contratação, contra a facilidade que é para um time e seus patrocinadores terem suas imagens ligadas ao feminicídio. Um feminicida não pode continuar tendo uma vida aclamada pela mídia. Bruno deixou de ser apenas um goleiro, sua imagem e sua fama carregam a prontidão de se aliviar violência de gênero, a facilidade de esquecer a vida de uma mulher em detrimento do trabalho em um esporte reconhecido. A carreira de um jogador de futebol não pode ser mais importante que a vida de uma mulher!

Nós, da Frente Feminista Popular de Varginha, convidamos todas mulheres, varginhenses ou não, para participar do ato em frente ao treino do Clube.
Divulgaremos o horário.

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