Com juventude e raça, Corinthians repete estratégia de quase 30 anos atrás

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

  • Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

    Arana, Maycon e Jabá: sangue novo no time do Corinthians em 2017

    Arana, Maycon e Jabá: sangue novo no time do Corinthians em 2017

A discussão no Corinthians no começo de 1988 era similar à ocorrida nas primeiras semanas deste ano: dar ou não espaço na equipe profissional aos garotos da base? Há quase três dêcadas, um título paulista mostrou que o clube tomou a decisão certa. Na final contra o Guarani, quatro jovens promessas defenderam o time alvinegro como titulares em Campinas.

O clube, contudo, não colocou em campo somente o quarteto formado pelo goleiro Ronaldo, o zagueiro Marcelo Djian, o meia Márcio e o atacante Viola. Antes, durante a campanha, o técnico Jair Pereira ainda escalou o atacante Marcos Roberto, o zagueiro Pinella, o meia Edmundo e o lateral esquerdo Ailton.

Depois de 29 anos, o Corinthians, sob o comando de Fábio Carille, utiliza a mesma receita. No último jogo da equipe, por exemplo, sete jogadores da base entraram em campo contra a Ponte Preta: toda a linha defensiva (Léo Príncipe, Pedro Henrique, Léo Santos e Guilherme Arana), além de Maycon, Léo Jabá e Jô - o elenco ainda conta com Marciel, Pedrinho, Mantuan, Carlinhos, Rodrigo Figueiredo, Matheus Vidotto, Caique e Fagner.

"Isso faltava no Corinthians e, hoje, depois de muito tempo, o clube resgatou isso. Há muito tempo não vejo uma molecada tão bem preparada. A saída do Corinthians é essa. Molecada de personalidade", disse o ex-goleiro Ronaldo em entrevista ao UOL Esporte

Marcelo Djian também vê a opção com bons olhos. Segundo ele, o desafio agora é se manter no time titular. "Os meninos que estão tendo as oportunidades, na medida do possível, estão aproveitando bem. Agora é questão de se firmar", afirmou à reportagem.

Os dois campeões estaduais de 1988 tiveram uma trajetória parecida no começo da carreira. Amigos desde 1983, ambos tornaram-se titulares absolutos no ano do título estadual e tornaram-se ídolos do clube, com participação efetiva nas temporadas seguintes - Ronaldo jogou 601 partidas pelo clube, até 1998. Marcelo, 342, até 1993.

Reprodução
Marcos Roberto e Marcelo na capa da Placar

Dedo do técnico

O técnico Jair Pereira chegou ao Corinthians no começo de 1988, depois de o time sofrer na Copa União do ano anterior (o torneio era o Brasileirão da época). De imediato, o treinador, assim como Fábio Carille, decidiu escalar os meninos da base. Eles jogavam ao lado de atletas experientes, como Everton, Biro-Biro, Edmar e Edson.

"O Jair Pereira, quando chegou ao Corinthians, ele disse que eu era o zagueiro menos ruim do elenco. Eu fui jogando. Na metade do campeonato ele disse que eu deveria servir a seleção olímpica em Seul. Ele me deu a chance e eu aproveitei a chance. Dei o retorno no campo", relembrou Marcelo.

Ronaldo ainda vê um ponto importante que tornou possível o uso dos jovens. "Jair acompanhou a seleção brasileira de juniores. Ele sempre acompanhou a base. Quando há esse cara que acompanha a molecada, fica mais fácil", frisou.

Hoje, o ex-goleiro vê Osmar Loss na mesmo posição. Depois de levar o Corinthians ao título da Copa São Paulo, o treinador tornou-se auxiliar técnico de Fábio Carille. Loss, dessa forma, conhece, os jogadores da base corintiana.

Time de guerreiros

O Corinthians sagrou-se campeão em 1988 depois de vencer o Guarani por 1 a 0 em Campinas, gol de Viola - o atacante disputava apenas seu terceiro jogo pelo clube alvinegro. Apesar disso, o jogador de 18 anos, titular na decisão, entrou em campo com duas camisas (uma delas foi jogada à torcida na comemoração).

Vidal Cavalcante/Folhapress
Ronaldo em ação na final contra o Guarani na final do Paulistão 1988

"O Viola já treinava com a gente e o Jair já estava de olho nele. Ele falava que ele era forte e brigava com os zagueiros. Era isso que o Jair gostava. Tem de ter confiança. E o Carile está fazendo isso também", ressaltou Ronaldo.
 
Para chegar à final, o Corinthians eliminou os três rivais no quadrangular, vencendo o Santos duas vezes, empatando com o Palmeiras e derrotando o São Paulo em uma oportunidade. Nos jogos, a raça corintiana foi nítida.
 
Depois de um 3 a 2 sobre o Santos, por exemplo, muitos jogadores do Corinthians terminaram o jogo com diversas lesões. Marcelo e João Paulo tiveram cortes no corpo, enquanto Marcos Roberto fraturou o braço nos minutos finais. "O time de 1988 era bem unido, com a galera da base. Dentro de campo tem de ser assim, até o final", disse Ronaldo, que chegou a defender um pênalti de Dario Pereyra no começo do Paulistão.
 
"A confiança era grande. Quando o Carlos se machucou pela segunda vez , ele (Jair Pereira) perguntou se eu estava pronto para enfrentar o Santos (no último jogo do quadrangular). Quando ele falou, eu já estava em pé", contou o ex-goleiro.
 
Jorge Araújo/Folhapress
Jair Pereira deu chances aos novatos
 
Neste ano, contra os rivais, a mesma pegada foi vista. O Corinthians venceu o Palmeiras por 1 a 0 mesmo com um jogador a menos no segundo tempo. Diante do Santos, o time voltou a vencer pelo placar mínimo.
 
"Hoje o Corinthians não tem um grande craque, que desequilibra. É preciso saber as limitações do elenco. Eles jogam marcando bem, correndo o tempo todo. Isso hoje faz a diferença. Nos clássicos mostrou isso. O Corinthians é um time difícil de ser batido", afirmou Marcelo.


Título e confiança

O ex-zagueiro ainda disse que o título estadual ajudou a dar tranquilidade nos jogos seguintes. Dois anos depois, com Márcio, Ronaldo e o próprio Marcelo entre os titulares, o time alvinegro conquistou o Brasileirão de 1990. "Um título faz com que se tenha mais confiança e a torcida te aceita mais rápido. Principalmente no Corinthians", destacou.
 
Marcelo, porém, lamentou que as chances para os jogadores da base são dadas apenas quando os clubes enfrentam dificuldades financeiras - isso ocorreu em 1988 e também no começo da atual temporada.
 
"Tivemos as oportunidades. Os grandes clubes dão chance para a base, infelizmente, quando estão em dificuldade financeira. Isso é no mundo todo, não só aqui no Brasil", ponderou.

 

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