Como Varginha recebeu o goleiro Bruno? O UOL Esporte conta

Gustavo Franceschini

Do UOL, em São Paulo

Em um intervalo de horas, a cidade do famoso ET virou manchete nacional: Bruno, condenado pelo assassinato cruel da ex-amante, estava chegando ao time da cidade. Varginha e seus 130 mil habitantes se dividiram, polemizaram e receberam o goleiro e a imprensa de forma heterogênea. Após dois dias na cidade, é isso que o UOL Esporte tenta mostrar a seguir:

Ressocialização x Impunidade

O debate na vida real de Varginha é o mesmo que se trava nas redes sociais. Pode Bruno, condenado a mais de 22 anos de prisão pelo assassinato de Eliza Samudio, voltar a jogar em um time de Série B? Com visibilidade e impacto social sem nem ter cumprido um terço da pena que lhe foi importa?

"Ele tinha de estar cumprindo a pena dele. Não vai ser um bom exemplo para a cidade também. Varginha tinha de procurar coisa melhor. Ele não se demonstra nem arrependido. Para a pessoa estar ressocializando tem de demonstrar pelo menos arrependimento", disse Rosemeire de Fátima, funcionária pública. Embora tenha sido condenado por um júri popular, o goleiro recorreu da decisão e o STF entendeu que ele deve aguardar a apreciação da apelação em liberdade.

Quem diz que sim argumenta que se a Justiça liberou Bruno, por que ele não poderia exercer sua profissão? "Todo mundo merece uma segunda chance" parece ser o grito uníssono dos que não veem em Bruno uma ameaça ou problema. "A gente não tem condição de julgar. O juiz liberou ele. Se ele ficar à toa talvez até volte a cometer outros crimes. Ele tem de trabalhar, ganhar dinheiro. Os torcedores do Boa são todos a favor", disse Itamar Estevão, aposentado.

Quero minha selfie com um famoso

Bruno, seu estafe e os dirigentes do Boa tentaram, desde o começo da semana, ignorar o caso de Eliza Samudio. Fugiram de perguntas sobre o processo e se esforçaram em apresentar o goleiro como um jogador qualquer que volta aos gramados após um período de inatividade – quase sete anos de prisão, no caso.

Quem se aproximou do Boa na condição de fã ajudou a corroborar a visão. Em todos os treinos de Bruno no estádio Rubro-Negro, CT do clube, cerca de 15 fãs compareceram para tietar. Os grupos variavam entre aqueles que de fato defendiam o goleiro e quem só queria um registro com um famoso.

"Tira um selfie comigo, Bruno?", era a frase repetida por famílias completas, com mulheres e crianças. Adolescentes tentavam espiar os treinos físicos de Bruno, senhoras de idade davam abraços como se confraternizassem com um netinho e homens adultos, não raro flamenguistas que já idolatraram o goleiro, falavam de como ele voltaria a se destacar no futebol.

Maioria contra? Pode ser, mas silenciosa

Fora da área de influência direta do Boa, era mais fácil encontrar quem visse na contratação de Bruno uma novidade absurda. No centro da cidade, as opiniões de indignação eram até mais comuns que as de apoio.

"Toda pessoa que você fala acha um absurdo. Onde está a coitada da Elisa? O Boa é sem vergonha", disse Ivone Borges, do lar. "Com certeza [a cidade] está contra. Está contra porque o crime que ele fez não foi matar um pernilongo. Ele matou a menina, não falou nada, não pagou pelo que ele fez", disse o vigilante Alex Dias.

O problema é que quem torceu o nariz, não raro o fez em silêncio. A suposta minoria que apoiou Bruno se aproximou do goleiro, encontrou a imprensa que foi até Varginha especialmente por conta do caso e ganhou mais espaço. "Ninguém aguenta ver mais a minha cara na TV', disse Elizabete Batista, aposentada que fez questão de aparecer em seguidas entrevistas defendendo, sorridente, a chegada de Bruno ao Boa.

Crime contra Eliza é relativizado

"Acredito, pela índole dele, que ele não vai voltar para a cadeia. Infelizmente, [o que aconteceu com o Bruno] pode acontecer com qualquer um. Comigo ou com você, por exemplo", disse Lupércio, um aposentado que não quis dar o sobrenome. "Isso é um grupo feminista. Se você for olhar o histórico dessas pessoas, elas reclamam de tudo. Pergunta se elas traíram o namorado. Um marido que trai a esposa não merece a segunda chance?", disse André Luiz, eletricista que disse também ter recebido uma "segunda" e uma "terceira" chances na vida.

Esse tratamento não se restringe à dupla citada acima. Eliza cobrava pensão de Bruno pela paternidade do filho Bruninho e foi morta por asfixia. Seu corpo nunca foi encontrado e a suspeita é que os restos mortais tenham sido dados para os cachorros do goleiro, que nunca colaborou para a localização do cadáver.

O próprio Bruno ajuda a relativizar o crime que cometeu, considerado triplamente qualificado pela Justiça (motivo torpe, meio cruel e uso de recurso que impossibilitou a defesa). Em sua entrevista coletiva, ele comparou sua situação à de Edmundo, que matou três pessoas em um acidente de trânsito; e Belo, cantor que chegou a ser preso por envolvimento com tráfico de drogas.

No estádio, Bruno é quase unanimidade

Sem poder jogar ainda, Bruno foi ao estádio Melão ver o Boa jogar contra o Araxá pela segunda divisão do Mineiro. Na chegada, foi assediado pelos torcedores e não enfrentou nenhuma resistência dos cerca de cem torcedores que compareceram.

"Acredito que Boa foi muito inteligente. Se eles conseguirem recuperar o Bruno, vão ter talvez um dos melhores goleiros do Brasil no elenco", disse Eric do Carmo, técnico em segurança eletrônica. "Nós precisamos de goleiro. Tem umas pessoas fazendo manifesto, umas mulheres, principalmente. Eu gostaria de perguntar se o Bruno fosse filho de alguma delas, se elas pensariam o que elas tão pensando", disse Itamar Estevão, aposentado.

Embora se trate de um universo restrito, já que o clube nunca conseguiu levar multidões ao estádio, o ambiente do Boa mostrou que se Bruno vai sofrer algum protesto em campo, deve ser dos rivais. Como havia sido na porta do CT, o goleiro transitou tranquilamente entre os torcedores, distribuiu selfies e sorrisos e até se sentiu à vontade para brincar com a camiseta de um jovem que o abordou antes de ir assistir à partida em uma área reservada.

Bruno gera indignação, mas não mobiliza

A debandada de patrocinadores que se seguiu ao anúncio do Boa parecia indicar resistência real à contratação. Em Varginha, porém, a repercussão foi diferente. O único protesto concreto foi organizado por mulheres de diferentes coletivos que se reuniram em uma praça central na noite de segunda-feira. O grupo apareceu diante das câmeras mascarado e em silêncio, entre outros motivos porque quem havia se manifestado dias antes sofreu ameaças online.

Foram 26 meninas, que ainda tiveram de lidar com comentários machistas de quem passava pela Concha Acústica no momento do ato. "Ninguém do nosso grupo nega a reinserção do Bruno na sociedade ou nega que ele possa ter um trabalho digno. Somos contra é que ocorra da forma como vem ocorrendo. Como se a imagem dele não estivesse ligada a um crime bárbaro, hediondo", disseram as manifestantes em uma nota oficial.
 

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