Teimosos, simples e linha-dura. Quem são os irmãos que contrataram Bruno?

Gustavo Franceschini

Do UOL, em Varginha (MG)

  • Gustavo Franceschini/UOL

    Roberto e Roni Moraes, dois dos três irmãos que comandam o Boa Esporte

    Roberto e Roni Moraes, dois dos três irmãos que comandam o Boa Esporte

Se Bruno de fato voltar a jogar bola, Rone, Roberto e Rildo Moraes serão os principais responsáveis por isso. Os três irmãos são mais que donos do Boa Esporte. Decidem quem fica e quem sai, por onde passa o dinheiro e que brigas o modesto clube vai comprar. Há pouco mais de uma semana, decidiram contratar um goleiro condenado a mais de 22 anos de prisão por um crime que chocou o país. Simples, linha-dura e teimosos, os três não dão sinais de que ligam para o que se fala deles.

Embora não haja exatamente uma hierarquia, Rone é o presidente. Mais articulado dos três, apesar de uma leve gagueira, ele fala baixo e demora a dar confiança. Foi ele que encarou a imprensa que despencou até Varginha ávida por saber sobre Bruno. Calmamente, explicou a dezenas de repórteres, câmeras e fotógrafos que não se importava com o passado do goleiro, condenado em um júri popular por homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e cárcere privado e Eliza Samudio, sua ex-amante e mãe de Bruninho, seu filho.

"Estamos contratando um jogador de futebol. É só a parte técnica. O Boa não está fazendo nada de errado. Sabia das polêmicas que a gente teria de enfrentar, mas sou uma pessoa que gosta de desafios", disse ele.

Foi um desafio deixar Ituiutaba há sete anos. Mais que a sede inicial do clube, a cidade vizinha de Goiás é a casa dos Moraes. Rone, Roberto e Rildo são de uma família de classe média que sempre esteve envolvida com futebol. Os três tentaram a vida como jogador, com maior ou menor sucesso, e são primos de Sidney Moraes, volante revelado pelo São Paulo no fim dos anos 1990. Hoje treinador, foi no Boa que ele começou sua carreira com a prancheta.

Ele estava no clube como auxiliar quando o então Ituiutaba subiu à Série B do Campeonato Brasileiro na condição de vice-campeão da Terceirona. Era a realização de um sonho antigo. Ao contrário da maioria dos cartolas de times pequenos do interior, Rone, Roberto e Rildo sempre sonharam com a ascensão nacional. Ambiciosos, entendiam que era assim que o clube saltaria do semiamadorismo para um negócio rentável.

Quando a hora chegou, o estádio da cidade não comportava as exigências do regulamento da Série B. Em atrito com a Prefeitura local, que não queria bancar a reforma, o trio começou a se mexer. A 700 km de distância da cidade original, Varginha estava disposta a investir para, quem sabe, ser uma sub-sede da Copa do Mundo. Do dia para a noite, os Moraes desembarcaram na terra do ET deixando para trás uma sociedade inteira, com torcida fiel e ligações familiares que não voltariam a ser as mesmas, ainda que a ãe Áurea, aos 79 anos, faça questão de assistir a quase todos os jogos.

Contratação do goleiro Bruno divide moradores de Varginha

Teimosia para aguentar críticas e tino para o futebol

A troca mostra duas coisas sobre os três. A primeira é a resiliência. Em um contexto de muitas críticas aos times "itinerantes", Rone, Roberto e Rildo ignoraram todas as pressões e se mantiveram firmes em sua decisão, algo que hoje se repete no caso Bruno. Além disso, usaram o trato político e a diplomacia para saírem de uma enrascada.

Quem lida com os Moraes repete que eles são simples. Anualmente, organizam junto com o cantor Marrone um amistoso beneficente em Ituiutaba. Quando certa vez o estádio precisou de uma pequena reforma, foi o caçula Roberto quem pegou a lata de tinta e o pincel para dar um trato na pintura. Preferiu ir para o jogo festivo queimado de sol por causa do trabalho extra a sentar-se no status de organizador que lhe cabia.

Mais novo, Roberto é tido como o maior entendedor de futebol dos três. É ele quem toca a maior parte das contratações e quem faz o meio-campo com os treinadores, que em geral são alijados de todo o processo. Não há espaço para "managers" no Boa.

É claro que eles também se permitem pequenas vaidades. Rone conta orgulhoso que não se imaginava um dia sentado em uma mesa com Viviane Araújo, atriz da Globo e mulher do meia Radamés, há anos um dos destaques do Boa. É ela que, anualmente, desfila os novos uniformes da equipe. O contato com famosos é um pequeno prêmio de quem age como uma versão cartola do selfmadesman, a figura norte-americana histórica que constrói patrimônio por conta própria e se orgulha do trabalho duro.

No caso dos Moraes, o trabalho é a capacidade de organizar um time de futebol e a detecção de talentos escondidos. Como Petros, que estava no interior da Bahia, antes de passar pelo Boa e migrar para Penapolense, Corinthians e Betis. Como Petros, outros tantos foram pinçados em times ainda menores para serem revendidos. Como Petros, se favoreceram da rede de contatos que a diplomacia Moraes criou com grandes empresários como Fernando Garcia, um dos mais influentes no Corinthians.

O resultado disso para o Boa quase veio em 2014, quando uma derrota inesperada para o terceiro time do Icasa, na última rodada, acabou com o sonho da Série A. Os Moraes davam o acesso como certo. Esperavam a entrada de um contrato de 20 milhões da TV, cinco vezes a mais do que eles conseguem hoje na Segundona. A frustração virou drama com a queda para a Série C em 2015. No último ano, porém, o Boa bateu o Guarani na final da Terceirona, conquistou o maior título de sua breve história e agora volta a sonhar com a elite.

Linha-dura, tiram celulares e notebooks da concentração

As conquistas, mesmo aquelas que não vieram, são creditadas à linha-dura do trio. Rildo, que faz as vezes de diretor de futebol, é especialmente ríspido no trato. Fala alto, pode ser grosseiro com desconhecidos e não raro perde a cabeça. Quem trabalha em volta do Boa relata, por exemplo, que mais de uma vez o clube fez jogo duro com a imprensa depois de críticas mal recebidas - e não necessariamente injustas.

Trabalhar no clube também pode ser sofrido. Nos bastidores do futebol de Minas, os Moraes têm fama de não aceitarem prejuízo. Por isso, amarram contratos favoráveis com ampla margem de lucro e pouco risco. Eles não concordam com a visão e se gabam das chances que dão a quem estava sem nada. Comemoram, por exemplo, o fato de Romário, ex-Ceará, ter chegado ao Boa com 110 kg e hoje ser um atacante útil ao elenco.

A veia "humanitária" que enverniza a contratação de Bruno, passa por aí. Roberto conta sorridente a história de quando passou um ano visitando a prisão ajudando a cuidar do curativo de um adolescente que havia levado um tiro calibre .12 da polícia. Era, segundo ele, gratidão ao garoto, apelidade de "Homem-Aranha", que lhe havia salvado de um furto de carro em Ituiutaba certa vez

A bondade se esvai quando a porta da concentração fecha. Em pleno 2017, os Moraes recolhem celulares e notebooks antes dos jogos. Entendem que as distrações atrapalham o desempenho do time e pregam linha-dura na preparação.

Por que trazer Bruno? Impossível saber com certeza

Na última sexta, essa história de simplicidade, teimosia e rigidez foi sacudida. A contratação de Bruno tirou cinco patrocínios e colocou o Boa sob dura análise nacional. Mesmo entre aqueles que conhecem melhor os Moraes, é difícil saber o que motivou a decisão. Foi uma real vontade de ajudar o goleiro? Uma iniciativa equivocada de marketing? Uma aposta genuína no retorno futebolístico que ele pode dar?

Rone, Roberto e Rildo defendem a primeira tese, mas dão indícios da segunda. O caráter centralizador do trio não ajuda quem quer decifrá-los. Os Moraes têm poucos funcionários, não delegam decisões e tocam o Boa a mão-de-ferro. No começo da semana, Rone chegou a confirmar, timidamente, que nem sua família apoiou totalmente a contratação, o que não diminuiu sua intenção de fechá-la.

Nos dias em que esteve em Varginha, o UOL Esporte encontrou uma cidade dividida, mas uma torcida do Boa quase unânime. Não se confunda, são coisas bem diferentes. Com média de público baixa desde que se mudou para o Sul de Minas, o clube nunca foi um sucesso nas arquibancadas do bonito estádio Melão, que fica confortavelmente vazio quando o Boa é mandante. Quem vai ao estádio não necessariamente representa a cidade, embora seja fiel aos donos.

Para faze vingar a aposta, Rone, Roberto e Rildo compraram a lógica de Bruno. Pedem para que o assunto Eliza Samudio seja evitado e se esforçam em criar uma atmosfera de idolatria para o goleiro, incentivando o contato dele com fãs. Nos bastidores, mostram alguma preocupação.

Bruno pode voltar à cadeia a qualquer momento caso seu recurso seja julgado pelo TJ-MG seja apreciado. Condenado em júri popular em 2013, ele só está solto porque o STF entendeu que ele estava em prisão preventiva sem "justa causa". Se ele for preso novamente, o Boa rescinde automaticamente o contrato, sem multa.

A ideia de quem o levou a Varginha, no entanto, é mandá-lo embora com superávit. Caso Bruno volte a campo e se destaque, o clube entende que pode vende-lo e lucrar em cima de uma jogada temerária. É a maior aposta dos irmãos que vivem de risco há 20 anos.
 

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