Torcedor que morreu no Morumbi nunca tinha ido ao estádio e realizava sonho

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo*

  • Acervo Pessoal

    Bruno, sem camisa (à direita), ao lado dos amigos na arquibancada central do Morumbi

    Bruno, sem camisa (à direita), ao lado dos amigos na arquibancada central do Morumbi

Um dia especial tornou-se um pesadelo em segundos. A inédita ida do torcedor são-paulino Bruno Pereira ao Morumbi terminou numa queda de 25 metros e a morte quase instantânea. O trágico final contrasta com o sentimento das primeiras horas do domingo: o jovem de 23 anos realizava um sonho ao conhecer o estádio do seu time do coração. 

Natural de Pindamonhangaba, interior de São Paulo, o torcedor nunca teve a chance de assistir a uma partida no Morumbi. Embora não fosse fanático pelo São Paulo, ir ao estádio o deixou eufórico desde as primeiras horas da manhã. Bruno viajou à capital paulista em um ônibus, ao lado de dezenas de torcedores da cidade.

"Todos os lugares estavam lotados. A gente veio se divertindo e ele só falava que o São Paulo ia ganhar. Ele estava feliz", contou Amanda Rangel, 20 anos, amiga do jovem morto, em voz baixa à reportagem do UOL Esporte. 

Segundo a torcedora, que faz parte da organizada Dragões da Real de Taubaté, Bruno, que não era integrante da torcida, chegou em sua casa às 9h acompanhado de outros três amigos: Pierre, Pedro e Jhony. O grupo se juntaria em seguida à caravana.

"Eles chegaram em casa buzinando. Todos felizes. Diziam para eu correr senão ia perder o ônibus", disse Amanda, que foi quem deu o ingresso a Bruno e Jhony dentro do ônibus. "Entreguei para eles e falei para eles não perderem, porque senão eles não iam conseguir entrar."
 
Acervo
Bruno e o amigo Jhony durante a viagem

Sonho realizado
 

De acordo com Jhony Alan Moraes, amigo de infância de Bruno, o jovem estava realizado ao ver o São Paulo de perto pela primeira vez. "Ele só falava que queria conhecer o Morumbi. Só falava isso, que era o sonho dele", disse o torcedor de 24 anos, cabisbaixo.

Jhony acompanhava Bruno em uma das arquibancadas centrais do Morumbi, assim como Pierre e Pedro. Segundo ele, a queda aconteceu de forma repentina, pois o amigo não contou a intenção de mudar de setor antes mesmo de o jogo entre São Paulo e Corinthians começar.
 
"Em nenhum momento ele falou que ia pular para o outro lado, ele estava todo tranquilo. Do nada escutei as pessoas falando que alguém tinha caído. Era ele", disse Jhony, inconformado.
 
Amanda, por sua vez, estava sentada no setor onde Bruno tentava chegar. Ela conta que estava junto aos quatro amigos até o lugar onde estão localizadas as catracas do estádio."Ficamos juntos até a entrada. Depois cada um foi para um lado da arquibancada", disse.
 
De acordo com Pierre, o outro amigo do rapaz, o acidente aconteceu após ele escorregar na parte mais alta da divisão, perder o equilíbrio e despencar lá de cima. Com a queda, o torcedor teve fratura exposta em uma das pernas e um grave ferimento na cabeça.
 
Ele chegou ao Hospital Municipal do Campo Limpo morto após uma fracassada tentativa de reanimação na ambulância. Perto do portão 17 no Morumbi ficaram apenas as marcas do acidente: um tênis largado, uma barra de ferro amassada e uma grande poça de sangue.
 

Pai de dois filhos e xodó da avó
 

Segundo os amigos, Bruno tinha dois filhos, era separado e morava com os avós na área rural de Pindamonhangaba. Ele serviu ao exército e foi dispensado em janeiro deste ano. Com isso, passou a ajudar o avô em bicos de pedreiro na cidade.
 
Bruno, de acordo com relatos, era um jovem extremamente sossegado, avesso às baladas e muito apegado à avó Ana, que o criou desde pequeno. "Ele era um filho para ela", frisou Carlos Bezerra, 35 anos, amigo da família.
 
Dona Ana, conta ele, vive a terceira tragédia familiar em pouco tempo. Anos atrás, seu filho, tio de Bruno, morreu assassinado. Tempos depois, em 2010, outro filho faleceu em um acidente de moto. "Ela é muito forte e terá de ser de novo", afirmou.
 
O enterro de Bruno acontecerá em Pindamonhangaba nesta terça-feira. O corpo foi liberado pelo Instituto Médico Legal (IML) nesta segunda-feira à tarde após a mãe do jovem, Joelma da Silva,  que também mora em na cidade do interior, reconhecê-lo. 
 
* Texto atualizado às 14h55

 

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