Tão perto, tão longe. As pessoas na Arena Corinthians que não veem os jogos

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

  • Diego Salgado/UOL Esporte

    Orientador observa um dos acessos à arquibancada: olhos atentos no torcedor

    Orientador observa um dos acessos à arquibancada: olhos atentos no torcedor

O homem de colete laranja andava em círculos no mesmo momento em que Léo Jabá abria o marcador para o Corinthians contra o Linense, em Itaquera, nessa quarta-feira, pelo Campeonato Paulista. Edson Lopes, orientador de torcedores, também estava no estádio, mas não viu o gol corintiano.

O funcionário da Arena Corinthians teve de ser informado sobre o lance poucos segundos depois. Depois de saber que Jabá balançou a rede após um cruzamento de Guilherme Arana, o trabalhador se rendeu e sorriu.

"Sentir o clima da torcida é uma forma de estar perto. Não precisa estar lá, estamos num ambiente gostoso, com a torcida perto. Quando eles falam 'uhhhh', sei que a bola passou perto, imagino isso. É gostoso também", disse Edson à reportagem do UOL Esporte.

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Orientadora fica inerte até durante o gol

Em todos os jogos disputados na Arena Corinthians, centenas de funcionários correm, organizam, indicam e servem a fim de fazer o estádio funcionar. Alguns, ao contrário de Edson, sofrem com a situação.

"É diferente. Eu brinco que estou tão perto, mas ao mesmo tempo estou tão longe", lamenta Ruth Miranda, 30 anos, que trabalha em uma das lanchonetes localizadas no setor leste do estádio.

Torcedor por um minuto

Alguns funcionários têm mais sorte e conseguem enxergar, mesmo que por segundos, o campo de jogo. É o caso de Juliana Ribeiro, responsável por uma loja que também está situada na parte oeste. Ela consegue ver alguns poucos lances no caminho de ida e volta para o setor leste da Arena Corinthians.

"Nunca deixei de trabalhar para ver o jogo. Às vezes quando eu passo para o outro lado do estádio, até canto um pouco e consigo ver o campo. Viro torcedora por 30 segundos. A torcida grita lá e a gente acompanha aqui", contou.

Perto do estabelecimento, um segurança celebrava o fato de estar no estádio, apesar de os detalhes da partida serem apenas imaginados. "Sinto emoção só pelos gritos da arquibancada", afirmou Joel Edson.

Como identificar um gol?

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Robson e Juliana com o gramado ao fundo: cena rara na Arena Corinthians

Robson Luchesi trabalha há dois meses na Arena Corinthians. Ele serve as pessoas que desejam comer durante as partidas. Segundo ele, o movimento é grande no intervalo e perto do horário de a bola rolar.

"A gente tem de se conter. Os jogos mais difíceis são os clássicos. O gol é um barulho único, a gente reconhece bem, o estádio treme e logo reconhece", explicou o trabalhador de 34 anos, que leva uma tatuagem do Corinthians na perna esquerda.

"Temos amor pelo clube, mas tem de trabalhar, tenho uma filha de dois anos. Penso nela para ficar aqui e ter força para não dar uma escapadinha, porque não pode. Estar na arquibancada é tudo o que o torcedor mais quer", completou.

Sem barulho, sem nada

A posição mais ingrata da noite atende pelo nome de ascensorista, pois dentro do elevador não é possível ouvir quase nada. De acordo com Daiane Porto, 28, existe brecha somente quando a porta se abre. É preciso descobrir, então, o placar da partida em alguns segundos.

Diego Salgado
No elevador, Daiane não escuta nada

"Só consigo escutar alguma coisa quando paro no andar. Precisa de uma televisão. Tenho que perguntar para os outros de quem foi o gol. Quando o outro time faz gol não dá para saber", frisou.

Seleção na Arena 


Na última terça-feira, a seleção brasileira também fez alguns funcionários sonharem com os lances. "Quase infartei. A gente ficou desesperado para ver, só ouvíamos os gritos', relembrou Bruna Estefani, de 22 anos, caixa de uma lanchonete, referindo-se à vitória sobre o Paraguai por 3 a 0, pelas eliminatórias da Copa do Mundo.

Cauã dos Santos, 18, celebrou o fato de estar na arquibancada no dia da partida. "Eu estava lá embaixo. Ali dá para ver um pouco. Mas não fico só em um setor, isso muda. Tem dia que não se vê nada", afirmou o jovem, que também veste o colete laranja de steward - nome que se dá às pessoas que trabalham na segurança interna.

No jogo entre Corinthians e Linense, Cauã ficou no décimo andar e não pôde ver nada. Ele, no entanto, não lamentou: "Tem de vir para trabalhar mesmo, é importante. O telão às vezes salva", disse.

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Essa era a visão de Cauã nesta quarta-feira durante o duelo entre Corinthians e Linense

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