Blogueira fitness, mulher trocou cardápio e fez corintiano Pablo decolar

Dassler Marques

Do UOL, em São Paulo

Pablo, destaque do Corinthians em 2017, se vê como um jogador em construção. Ele tem 25 anos e motivos para crer que os tijolos mais importantes foram colocados desde 2014, com o auxílio da esposa Suianne. Novos hábitos, um novo cardápio e um grande conhecimento sobre o próprio corpo, somados a um amadurecimento pessoal mais amplo, tornaram ele um zagueiro de primeira linha. Um dos reforços mais certeiros do futebol brasileiro no ano.

Antes, não era bem assim, por mais que Pablo já tivesse status de grande promessa do Nordeste lá pelos idos de 2010. Descoberto por olheiros do Ferroviário na escolinha Novos Talentos, em São Luís, quando tinha 10 anos, ele se mudou aos 13 para o Ceará. A infância no bairro Liberdade foi em meio a muita gente pobre, ainda que a condição da família fosse boa. "Em São Luís, tem muita gente pobre e algumas pessoas ricas, muita desigualdade", compara. 

Na rua onde o futuro zagueiro vivia, o futebol era a principal modalidade e fez com que ele tomasse até uma das poucas surras do pai. Mas se praticava muita coisa, como vôlei e basquete. O esporte estava presente na família, que tinha na ala Iziane, prima de Pablo, uma celebridade no Maranhão e destaque nos Estados Unidos e na Europa. Nessa época, Pablo só queria ser grande: "eu só queria alcançar a rede do vôlei, olha só (risos)", recorda o garoto que chegou à França e sofreu com o desdém de alguns nativos aos estrangeiros.  

Reprodução/Instagram
Suianne Castro, blogueira fitness, é esposa de Pablo, zagueiro do Corinthians

Hoje com 1,88 m, Pablo virou não só um 'gigante' da posição como um jogador de alta resistência e capacidade física. O terceiro com mais minutos em campo pelo Corinthians em 2017, só atrás do goleiro Cássio e do volante Gabriel. Uma condição privilegiada que ele não tem dúvida: depois de ir ao fundo do poço no Avaí, brigar com Ricardinho, ficar cinco meses sem salários, tem tudo a ver com Suianne. 

"Minha esposa me ajudou, ela que começou com tudo isso em casa. (...) Posso dizer que todo conhecimento de parte nutricional começou com ela. Depois eu fui buscar isso, de me alimentar, do que comer antes do treino, comer de três em três horas. E eu não queria. Hoje eu como sem estar com fome, para jogar. Os caras brincam comigo porque tem refeição antes do jogo, precisa comer carboidrato e proteína, mas não tenho fome porque já comi a concentração toda (risos)", disse Pablo, que credita a evolução na carreira à nova forma de alimentação. 

Confira a entrevista exclusiva de Pablo na íntegra:

QUANDO VIU QUE IA VIRAR JOGADOR

Foi em 2010, quando estreei contra o PSV (amistoso) da Holanda. Foi ali que falei 'acho que vai dar certo, acho que vou pelo caminho correto'. Foi ali que comecei a pensar grande. Convicção eu não tinha, eu almejava as coisas, mas nesse jogo que eu vi que poderia ir mais longe. Tudo que passei aquela época foi muito bom para o que conheço hoje de futebol, sobre saber se comportar em campo. Foi muito bom.

PS.: Pablo foi escalado em amistoso contra os holandeses e estreou profissionalmente com gol. Do outro lado estava o goleiro Cássio. 

O MENOR TIME DA CARREIRA

Eu era da base do Ceará e fui emprestado ao Quixadá em 2010. Antes do gol no PSV. Eu fui emprestado, fiquei um mês ou um mês e meio sem jogar e resolvi largar tudo. 'Não vou ficar aqui não'. Olha só como são as coisas, porque eu voltei e o profissional precisava de um zagueiro da base para treinar. Fui muito bem com o PC Gusmão (treinador), que me efetivou e duas semanas depois me relacionou. Eu nem sabia que iam precisar de zagueiro no Ceará, eu apenas queria sair de lá (Quixadá).

CONDIÇÕES ERAM RUINS E ELE SAIU

No Quixadá eu não estava jogando. Era primeira divisão, mas eu não jogava. Foi por isso mesmo que eu saí. 'Se não estou jogando, vamos voltar'. Decidi largar tudo e voltar para a base do Ceará. Quixadá é muito humilde. Fui eu e mais dois atletas, como éramos do Ceará eles deram condição melhor, ficamos hospedados em hotel. Mas um time bem humilde, sem condição para dar suporte, mas saí só porque não estava jogando.

MOLEQUE ARTEIRO

Eu era um cara muito brincalhão, que brincava com todo mundo e fazia coisas erradas, como todas as crianças. Lá em casa uma vez quebrei um vidro da janela e 'papai, ó (faz sinal de palmada, com muitos risos)'. Lembro até hoje apanhando na mão. Foi uma das únicas vezes que eu apanhei. Tomei umas palmadinhas com um negócio de engraxar sapatos. Ele pegou aquilo e deu cinco na minha mão. Nunca mais quebrei uma vidraça (risos).

PRIMO DE IZIANE, DO BASQUETE

Shannon Stapleton/Reuters
Iziane: prima ficou famosa antes de Pablo no basquete

Nós crescemos juntos. Acompanhei toda a carreira dela, mas eu já mais novo. Ela jogou a vida toda na Europa. Toda vez que ela vinha de férias, fazíamos alguma coisa juntos. Ela pegava a família toda, uma vez fomos em Barreirinhas (cidade turística do litoral do Maranhão). Ela enchia os tanques da família toda e a gente partia. Ela encerrou a carreira ano passado, mas a gente se falava mesmo era quando ela vinha de férias, e no basquete as férias eram mais longas que eu no futebol. Ela vinha, ficava um pouco, depois brincava e saía de novo. 

NO GRÊMIO NÃO ESTAVA PRONTO

Sou cara um muito consciente, velho. Eu não estava preparado para jogar no Grêmio. Tinha 21, 22 anos. Hoje eu conheço meu corpo, sei que tenho que comer, que descansar, sei o que posso e o que não posso fazer. Aquela época eu não sabia, por exemplo, se tinha que comer carboidrato ou proteína, que você tem que ter um trabalho de academia, ter suplementos, ter coisas específicas. Isso eu comecei a conhecer mais em 2014. Não que com isso vai ter 100% de certeza (que as coisas darão certo), mas diminui a chance de dar errado. 

Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

ESPOSA É BLOGUEIRA E MUDOU CARREIRA

Ela é blogueira, é muito legal isso, ela começou ano passado e vai muito bem. Faz trabalhos legais e eu a apoio 100%, como ela me apoia também, nada mais justo. É bem divertido porque às vezes a acompanho em eventos. Ela trabalha com moda, parte fitness, coisas de mãe também. 

CRESCEU COM DIETA E NOVOS HÁBITOS

Em 2013 eu ainda não tinha esse conhecimento, foi um ano muito ruim. Em 2014 já tinha, porque minha esposa me ajudou, ela que começou com tudo isso em casa. (...) Posso dizer que todo conhecimento de parte nutricional começou com ela. Depois eu fui buscar isso, de me alimentar, do que comer antes do treino, comer de três em três horas. E eu não queria. Hoje eu como sem estar com fome, para jogar. Os caras brincam comigo porque tem refeição antes do jogo, precisa comer carboidrato e proteína, mas não tenho fome porque já comi a concentração toda (risos).

CONSCIENTIZAÇÃO: SEIS ANOS SEM REFRIGERANTE 

Tenho que comer porque o desgaste no jogo será altíssimo. Você até pode manter a regularidade no primeiro tempo, mas depois sente que pode cair (o rendimento). Eu me alimentava muito mal, era muito refrigerante, agora já tem seis anos que não tomo. Nada contra quem tome, mas prefiro não arriscar (risos).

 

E ontem foi o aniversário dele, Kaíque nosso tesouro né amor @suianne.castro, nos te amamos filho ??????

Uma publicação compartilhada por Pablo Castro (@pablocastro91)

 

 

 

 

 

em

 

BRIGOU COM RICARDINHO E FOI AFASTADO

Ah, cara. A gente teve um desentendimento. (...) Fui questionar a ele porque saí da equipe. Foi muito bom para o meu crescimento pessoal, para saber analisar algumas coisas. Aprendi muito com esse tempo afastado. Muito mesmo. Óbvio que você não quer passar de novo por isso, mas eu passaria pelo que eu cresci. Falei com ele duas vezes: liguei explicando algumas coisas que aconteceram, logo um mês que passou o afastamento eu liguei, com ele no clube e eu treinando separado.  Aí, quando fui jogar novamente contra ele em 2014, ele no Paraná Clube, fui lá e cumprimentei, mas tudo resolvido. No começo afastado você se acha o fortão, mas depois entra na rotina de treinar em horários diferentes, às vezes pega os caras chegando depois de você. Ver os colegas treinando é chato. 

CINCO MESES SEM RECEBER

O Fernando César (empresário) está comigo desde 2010. Desde a época em que joguei com o PSV. Ele e a Ana (sócia) são como um pai para mim. Foi uma das únicas pessoas que realmente acreditaram, quando eu ia para um lado e todo mundo ia para o outro. No Avaí em 2013 foi horrível, tudo que aconteceu foi para um atleta profissional resolver parar, foi para 'vou desistir'. Foram os únicos que falaram 'estou contigo'. Essa época o Avaí atrasava muito salário, ficamos cinco meses sem receber um salário e ele me ajudava, dizia 'vamos que vamos, estou contigo'. Em 2014 melhorou muito. 

O PIOR DE TUDO NA FRANÇA

Foi um pouco complicado (de se adaptar).  O mais complicado foi a comunicação, porque gosto de falar com todo mundo, dar um bom dia, um boa tarde, vou na padaria, e por lá não conseguia, ficava travado. Falava um pouquinho, mas não conseguia lidar com isso. No futebol você precisa se adaptar ao estilo, mas não complicou (a comunicação). O começo na França (em si) complicou isso da língua, de falar com as pessoas, de bater papo, fazer amizades, isso não consegui.

KAZIM E A DIFERENÇA DE BRASIL E FRANÇA COM OS GRINGOS

O diferencial do brasileiro é que somos muito acolhedores. O povo francês retrai os estrangeiros um pouco. Você fica com medo de falar e errar, eles ficam assim de falar com você se veem que é estrangeiro e vai falar com eles. A gente não. Aqui o Kazim fala errado, fala do jeito que fala, e vamos com ele. A gente não fica falando 'Kazim, pô, tá falando errado'. Se fizermos isso, ele vai se retrair para falar. É isso que acontecia comigo lá. Às vezes eu me comunicava, conseguia, mas falava muito errado, errava uma conjugação. O pessoal lá o tempo inteiro era me corrigindo. Aqui ele fala do jeito dele e vamos indo, falamos 'Kazim, é assim', às vezes. Por isso aqui o estrangeiro se adapta mais rápido.

PROVOCADO POR IBRAHIMOVIC

O cara é forte, hein (risos)? Joguei um jogo contra ele, exatamente em 2016, no fim do Francês. Nós empatamos em 1 a 1 e ele fez um gol de cabeça. O jogo foi muito bom. Ele tentou me intimidar, mas não me intimidei. Teve uma jogada que o lateral direito deles foi cruzar, ele tentou tomar minha frente, mas percebi e joguei o corpo forte nele para me antecipar. Ele gritou assim para mim (grita e abre os braços). Falei 'o que foi?' É coisa da personalidade dele, todo mundo sabe, mas foi bem tranquilo.

Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians

A MAIOR ALEGRIA E A MAIOR TRISTEZA

Vou ter que falar desse jogo. A maior tristeza foi um jogo Avaí x América-MG pela Copa do Brasil de 2013, para se classificar para a terceira fase, onde fui horrível. Nunca vou me esquecer. Tem coisas que acontecem que ou você fala 'tem que melhorar' ou você se afunda. Tem que tirar lição de algumas coisas da vida. O time jogou muito mal, mas fui o pior em campo, perdemos de 3 a 1 e a classificação em casa. É meu pior jogo e a maior tristeza no futebol. A alegria acho que o gol contra o Novorizontino. Foi uma emoção muito grande (foto acima), se perceber pela comemoração foi tudo verdadeiro, foi marcante, vai ficar marcado na minha carreira (primeiro gol no Corinthians). 

FICA NO CORINTHIANS?

Só depende do Corinthians, porque o meu passe está estipulado e o Corinthians precisa tomar a decisão. Se algum time fizer proposta no meio tempo, ou o Corinthians compra ou tem que me liberar, então vai depender do Corinthians. Só posso falar que estou feliz em um grande clube do Brasil e do mundo. Vamos ver o que vai acontecer, que as coisas caminhem do jeito que têm caminhar.


NR.: Pablo está emprestado pelo Bordeaux até dezembro. Seu preço é estipulado em R$ 10 milhões. 

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