Exclusivo: Belletti abre o jogo sobre seus cargos e projetos no Coritiba

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL, em Curitiba

  • Divulgação/Twitter

    Belletti falou ao UOL Esporte sobre seus planos para a Comunicaçao do Coritiba

    Belletti falou ao UOL Esporte sobre seus planos para a Comunicaçao do Coritiba

Juliano Belletti assumiu na última semana a gerência de comunicação e marketing do Coritiba, função acumulada com a diretoria internacional que já ocupava. O pentacampeão mundial com a Seleção e herói do título do Barcelona na Champions League de 2006 contra o Arsenal nunca jogou pelo Coxa, mas já é o "grande nome" que ele mesmo buscou em Ronaldinho para uma campanha para novos sócios torcedores.

Ex-comentarista de TV e dono de revista, Belletti trafega pela comunicação há tempos, mas pela primeira vez tem o controle das ações. Enquanto tenta mostrar à comunidade coxa-branca que vale quanto pesa – "chego as 8h e saio as 18h, todos os dias", fez questão de ressaltar – comemora a vida em Curitiba com sua esposa e quatro filhos, incluindo um bebê de 5 meses e acredita que o melhor modelo para o Coxa não está no Barça, mas sim no Villarreal.

O UOL Esporte esteve por quase uma hora com Belletti em sua sala no Couto Pereira debatendo a comunicação do clube. Confira:

UOL - Afinal, o que o Belletti faz no Coritiba?

Belletti - Já com o cargo novo, eu faço praticamente o que eu fazia antes, sendo diretor internacional. Representar o clube em reuniões estratégicas de contrato de publicidade, propaganda, marketing em geral. Ao representar o clube, eu apresento o clube como ele é. Fiz uma análise de cenário, um diagnóstico de tudo praticamente durante os primeiros 40 dias aqui no clube. Cheguei dia 4 de janeiro, estudei todos os setores do clube, sem exceção, pra na hora de apresentar o clube, empresas, pessoas físicas, patrocinadores saberem do que eu estava falando. Partindo disso é abrir a porta para iniciar as conversas para um possível patrocínio ou parceria. Hoje já o presidente falou: 'você fica a frente e resolve junto com o pessoal do marketing'.

UOL - Fica mais confortável agora acumulando a função?

Belletti - Não me acho despreparado para ela não. Sendo embaixador do Barcelona durante três anos, eu estou diretamente ligado ao marketing do maior clube do Mundo. Representar a marca, falar dela e já conseguir negócios. Foi em cima desse know-how que o Coritiba me contratou. Tenho mais responsabilidades, agora eu precisa agilizar algumas coisas, buscar gerar receita também pro clube poder trabalhar.

UOL - Você citou o Barcelona. Você jogou na época do Barcelona com o Ferran Soriano, viu todo o case de marketing dele, as comparações com o Athletic Bilbao, o projeto "Més que un club". O que o Coritiba tem que possa ser usado nesse sentido?

Belletti – A localização, onde o time se encontra hoje, que é o melhor Estado do País. Ontem eu estive num encontro de 60 grandes empresários do País, com a presença do governador do Paraná, Beto Richa, que destacou muito isso. O Brasil passa por problemas, teve uma recessão problemas com seu PIB, recessão, e as atitudes que o Paraná teve nessa hora colocaram o Estado como centro de investimentos. Então esses números me favorecem a discutir alguma coisa com uma empresa fora do Brasil. E quando fala no nome Coritiba... eu estive em Nova Iorque como embaixador do Barcelona num evento. Numa roda de conversa, isso parece que não, mas é verdade: Alex Ferguson, Emílio Bultragueño, David Trezeguet, o chefe da MLS, todos falando sobre futebol. E o Ferguson me perguntou o que eu tava fazendo. "Tô na direção do Coritiba", disse. "Ah, o Coritiba? O Anderson está lá", ele respondeu. Chega ao conhecimento do Mundo inteiro o que a gente faz aqui. O que eu estou fazendo é dar uma apresentação melhor de como pode-se trabalhar junto com o Coritiba. Se o pessoal está de olho aqui e as coisas são bem-feitas, aí tem Villarreal, tem Barcelona, tem Manchester City, tem Chelsea, são os contatos que eu tenho e que sabem que o Coritiba existe, a localização do clube. É o caminho que eu procuro seguir. Teve 15 jogadores das categorias de base convocados em 2016. Esse é um marketing importantíssimo na hora de você conversar com outros clubes.

UOL – E o que o Coritiba não tem?

Belletti – Um título importante. Chegou a duas finais de Copa do Brasil, há muito tempo não é campeão brasileiro. Em função disso eu busco outras estratégias de explorar a marca. As portas se abrem do mesmo jeito, tendo título ou não. As portas se abriram do mesmo jeito pra mim, fora do Brasil ou aqui. Ontem eu recebi o representante de uma empresa da Ucrânia, para eu apresentar o clube, o CT, a cidade. Claro, com título é mais fácil. Veja o Palmeiras, conseguiu ganhar títulos, tem retorno, casa sempre cheia, patrocinador querendo investir. Então eu procuro trabalhar bem aqui, para dar o máximo de condição do clube ter dinheiro para contratar.

Reprodução
Belletti em campanha de marketing do Coxa

UOL – Você citou o Palmeiras, eles tiveram um investimento grande e o novo estádio. E aqui na cidade há uma concorrência muito forte nesse sentido para o Coritiba. O quanto é necessário modernizar a casa, como está esse projeto?

Belletti – Existe a possibilidade disso acontecer, a gente já conseguiu todos os alvarás, as licenças possíveis, foi positivo para possíveis investidores começarem a pensar. E a localização favorece, para quem fora do Brasil queira investir. Dentro também, mas a gente acredita que esse investimento possa vir de fora. Já comecei uma conversa por exemplo com uma possível empresa que gostaria de participar da construção do novo estádio. Claro que é fundamental. Você ter novas ativações, poder planejar ela para não ganha dinheiro só com os 90 minutos de futebol. Um conceito de que até durante os dias que não tenham jogos você conseguir gerar receitas pro clube.

UOL – Você viveu a chegada do Abramovich no Chelsea, não?

Belletti -  Já estava. Ele foi audacioso, né? Quis contratar os melhores daquela geração, com o melhor treinador. Uma coisa muito diferente. Quando eu busco ter uma base parecida para se trabalhar aqui no Coritiba com tudo aquilo que eu vivi, tendo a experiência de um cara único que administra o Chelsea, do Barcelona que é gerenciado por sócios e sua diretoria, eu não esqueço do Villarreal, que está numa cidade de 50 mil habitantes, que revelou mais de 30 jogadores nos últimos 15 anos, tem estádio, centro de treinamento. Fui entender a gestão desse clube que em uma cidade pequena consegue botar o time para disputar Champions League, Liga Europa.  Tem suas dificuldades mas consegue. Baseado nessas três coisas é que eu tento achar o equilíbrio para trazer o máximo possível de know how pro clube.

UOL – Futebol espanhol viveu anos de desequilíbrio com as cotas de TV, agora estão revendo isso. No Brasil a gente tem mais ou menos a mesma coisa. O Coritiba hoje está fora da TV, vai ter só o Brasileirão. Você trabalhou no Grupo Globo, no SporTV. Existe como costurar isso, melhorar?

Belletti – É um assunto da diretoria. Não me envolvi, essa reunião ainda não aconteceu.

UOL – Mas é possível, você conhecendo lá dentro?

Belletti -  No meu caso eu tenho que trabalhar com o que eles decidirem. Se decidirem entrar em acordo com a emissora, vou trabalhar isso.

UOL – Por que é uma questão política também.

Belletti – Entre outras coisas.

UOL – Saiu desse núcleo aqui a ideia do Atletiba do YouTube, embora o Atlético tenha repercutido mais como criador da ideia. Como você viu o conceito?

Belletti – Foi novidade até para mim. Em 15 anos de carreira, encarar como novidade, chamou a atenção no Mundo, no Brasil principalmente. Foi positivo. Nesse assunto que eu estou, me coloca na posição de explorar aqueles 90 minutos. Todas as empresas que eu vou negociar a divulgação da marca me perguntam de que maneira elas serão divulgadas. Então é um componente a mais, de uma inovação feita por clubes de Curitiba para a transmissão de um jogo. Quanto mais o jogo estiver exposto, mas eu exploro isso. Para um próximo, fica a expectativa.

UOL – Vivendo Chelsea TV, Barça TV... são produtos que...

Belletti – (Interrompendo) Estavam começando na época.

UOL – Está nos seus planos?

Belletti – Se você tem isso aliado a uma liberdade maior de divulgação da marca, é válido. Quando o Barça começou e até hoje mesmo ele não impede ninguém de ter acesso a tudo. Já o Chelsea tem restrições com relação a cobrir os treinamentos no CT. Os ingleses fazem isso. Não. Não pensei em algo parecido para o Coritiba. Minha visão é a de que quanto mais puder divulgar a marca do patrocinador, para ele sentir divulgada, melhor.

UOL – Você pensou numa mudança na camisa do Coritiba, mudando o patrocinador de baixo para cima das listras horizontais?

Belletti – (Rindo) Cara, eu tenho insônia, e nessas noites eu costumo criar. O Coritiba tem um estatuto, uma história, isso aí é difícil mexer. Foi só uma ideia, acho que não vou nem levar adiante. Mas para o Campeonato Brasileiro nós vamos ter uma novidade em divulgação para o clube. Mas não vai ser na camisa.

UOL – E qual será?

Belletti – Não, essa eu não quero por que senão alguém vai copiar.

UOL – Ronaldinho. É teu amigo, o que aconteceu?

Belletti – Não, o Ronaldo... naquilo de que quando eu cheguei no clube, essa carência de títulos e de ídolos, a torcida querendo algo diferente, buscando alegria, e a título de divulgar ainda mais a marca para trazer grandes parceiros, eu pensei numa estratégia de trazer um grande jogador que fosse conhecido a nível internacional. Dei alguns nomes. Devido a posição carente no elenco, ele foi o primeiro nome. E logo foi aceito pela diretoria que conversasse com ele. Conversei com Assis, traçamos uma estratégia de contratação e entregamos a proposta. Fui na casa do Ronaldo entregar uma proposta, tudo estava encaminhando muito bem. Estava mais para fechar que pra não fechar. Só que o Barcelona teve a ideia de contratar o Ronaldo como embaixador. Eu sou embaixador do clube. Até então não existia um contrato de "legends" o de embaixador. Eles começaram a fazer isso depois da primeira conversa minha com Assis e Ronaldinho. E assim que foi anunciado que o Ronaldinho podia ser embaixador do Barcelona, começou a chover convite para o Barça pedindo a presença do Ronaldo nos eventos. E contratar o Ronaldo, sendo que a prioridade dele teria que ser o Barcelona, sairia um pouco de questão. Em função disso, veio a desistência do negócio. Por exemplo, dia 29 tem o jogo no Líbano, do Barça Legends. Tô convocado também. E se o Coxa passa é a semifinal do Paranaense. Nesse caso, a preferência seria para o Barça. Por isso que não levamos adiante.

UOL – E no seu caso, para conciliar?

Belletti – Desde que eu cheguei no clube, até por que aproveito fazer contatos, vou para Barcelona, vou para o Líbano jogar. Todas as viagens que eu faço pelo Barcelona eu tiro proveito. Quando eu conversei nessa roda com essas lendas do futebol, eu estava pelo Barcelona. Só que o cartão que o Ferguson, que o Bultragueño receberam, era o do Coritiba. Deixei o media-kit para o pessoal do City Group, que é o grupo que controla o Manchester City, o NY City, o Melbourne City e agora compraram um clube do Uruguai. Foi o cartão do Coxa, a camisa do Coxa que eles receberam. Em cima disso o clube também concordou me contratar. Nesse jogo eu não devo ir, por que está muito puxado aqui. Ainda não confirmei. Mas o clube prevê essa liberdade. E o Barcelona me autoriza a trabalhar no Coritiba, para que utilize a minha imagem, como aconteceu no caso da campanha do sócio-torcedor.

UOL – E o Barça custeia a sua viagem?

Belletti – Quase todas que eu fiz o Coritiba não teve gasto nenhum. A do Villarreal só que o Coritiba custeou. Eu tento fazer com que o Coritiba gaste o menos possível, lógico, para que o sucesso faça mais barulho.

UOL – O Coritiba têm algumas revelações nos últimos anos, o Raphael Veiga por exemplo. Muitas vezes o mercado internacional se interessa, mas não pega por uma questão de marca. Há um conceito que se passe por Rio ou São Paulo. Dá para encurtar esse atalho?

Belletti – Não é fácil. Por que um dos caras mais valorizados do futebol é o tal do Scout, é muito requisitado, acionado por times europeus. E na minha opinião, mas interessante do que fazer uma venda como essa é criar um vínculo com o clube, que é aonde eu procuro trabalhar. Eu aprendi a trabalhar nos grandes clubes do Mundo. Antes da venda, cria o vínculo. Uma visita, um amistoso com o clube. Algo que faça eles saberem o que está acontecendo aqui dentro do Coritiba. É fato que quanto melhor o rendimento de um time, vai chamar a atenção de quem quer comprar um jogador. Essa ausência de títulos, os últimos dois anos ficou ali na parte de baixo da tabela. Atrapalha. Então não chama tanto a atenção de times de fora. "Ah, vamos observar esse time que o rendimento está muito bom". Por isso que os times brasileiros prestam mais atenção a nível individual. Mas o que eu quero direcionar é para esse caminho. Vamos fazer uma venda importante? Vamos. Mas não dá para fazer a curto prazo.

UOL -  Você chegou a trazer o pessoal da base do Barcelona aqui, não?

Belletti – Para uma visita, uma palestra, sim. São amigos pessoais. Toda hora estou trocando e-mails com os caras da base do Villarreal, do Barcelona, pra justamente criar um vínculo. Possíveis amistosos com a base, um primeiro passo.

UOL – E o Paranaense? Você jogou Liga dos Campeões, Inglês, Espanhol. Você tinha um clube aqui, o Cascavel. Qual a tua avaliação sobre o Paranaense?

Belletti – Se não tem outra competição, está bom. O Coritiba infelizmente foi eliminado no Copa do Brasil, acaba que o Paranaense é um treino de luxo pro Brasileirão. A não-conquista provoca pressão, mostra que tem algo errado, entre aspas. Porém a conquista mostra que não fez mais que a obrigação, mas também não mostra que está tudo certo para o Brasileirão. Se disputa uma competição nacional ou internacional no mesmo período, aí não. Paranaense, esquece. Tem que ser usado um Sub-23, atletas que não são usados.

UOL – O Barcelona joga um estadual. É um cenário que o Brasil podia copiar?

Belletti – Não. A Copa Catalunya é bem pequena, curta. É bem difícil. O Barça, como ele defende a independência da Catalunha ele participa por uma questão de história, de marca.

UOL – E permanece a ideia de trazer um grande nome? O Kaká, por exemplo?

Belletti – Não, o Kaká não quer sair de lá, converso com ele com frequência. Quem não quer um bom nome? Para disputar o campeonato nacional? Eu continuo com os contatos, continuo buscando, mas fácil não é. Seria melhor um brasileiro, morando aqui, estando ou não em atividade regular para gente explorar.

UOL – Esse é um ano político para o Coritiba. Como você prevê o seu trabalho nesse período?

Belletti – O que eu aprendi é que mais importante é isso aqui, é o Coritiba Foot Ball Club, é para esse que eu trabalho. Se eu não sei o amanhã, eu sei o que estou fazendo agora, que é trabalhando em prol de divulgar a marca do clube, provocar mais receitas, mais condições, ter uma equipe melhor, para vir mais gente ao estádio. É para isso que eu estou aqui. Quem vai ganhar, se eu vou ficar ou não... depois eu vejo isso.

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