Pedido de Lula e compromissos ignorados: a delação sobre Arena Corinthians

Do UOL, em São Paulo

  • Alexandre Schneider/Getty Images

    Ex-presidente da Odebrecht disse que acordo de estádio corintiano foi fechado 'de boca' em um jantar com autoridades e Ronaldo

    Ex-presidente da Odebrecht disse que acordo de estádio corintiano foi fechado 'de boca' em um jantar com autoridades e Ronaldo

Ex-presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht disse em delação premiada que os governos municipal, estadual e federal não honraram compromissos na construção do estádio do Corinthians. O estádio estava orçado inicialmente em R$ 420 milhões, mas custou cerca de R$ 1,1 bilhão.

O plano de negócio da arena alvinegra, segundo Marcelo, foi definido "de boca", informalmente, em um jantar na casa de Marcelo.

Marcelo conta que participaram do jantar que definiu a engenharia financeira do estádio o então presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, o diretor de marketing do clube na época, Luis Paulo Rosenberg, o então presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e o então jogador Ronaldo. A reunião ocorreu no início de 2011.

O ex-representante da Odebrecht informa que o governo municipal, então comandado por Gilberto Kassab, havia se comprometido a contribuir com R$ 420 milhões, além do custo com estrutura provisória para receber o jogo inaugural da Copa do Mundo (que poderia a chegar a R$ 100 milhões). Mas essa verba municipal não foi disponibilizada, destaca Marcelo.

Por conta do desfalque que a prefeitura não teria honrado, Marcelo Odebrecht disse em delação que a empreiteira foi obrigada a colocar dinheiro no projeto, além de outros valores não previstos.

Pedido de Lula

Já quanto ao governo federal, Marcelo disse que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava à frente do projeto de construção do estádio. Lula, segundo Marcelo, teria feito o pedido diretamente ao pai de Marcelo, Emílio.

"Teve o pedido do Lula para o meu pai: 'Ajuda o Corinthians a construir estádio privado'. Só isso. Aí nessa época, eu nesse assunto ainda não tinha me envolvido'", disse Marcelo.

O apoio federal viria através de liberação de empréstimo do BNDES (R$ 400 milhões). Para atestar que o BNDES estava alinhado, Marcelo conta que Luciano Coutinho também esteve no jantar que sacramentou o plano.

Na delação, Marcelo declarou que houve uma manobra para assegurar o empréstimo do BNDES. Ele disse que um empréstimo vultoso a um clube causaria reação negativa aos bancos, em virtude de dívidas do clube. Para facilitar a obtenção de empréstimos bancários, foi aberta uma conta desvinculada ao Corinthians para onde iria o empréstimo.

Além das promessas "de boca" que tinha recebido, Marcelo Odebrecht relata que a construção da Arena esbarrava em um enorme problema: o alto custo para se adequar às exigências da Fifa. O estádio havia sido escolhido para abrigar a estreia da Copa do Mundo.

A Fifa exigiu uma arquibancada móvel, além de detalhes estruturais que elevaram o custo. O valor a mais colocado no estádio por conta do Mundial era "absurdo", disse Marcelo.

"O Corinthians disse que toparia fazer o estádio que pudesse fazer a abertura da Copa do Mundo. O que era um absurdo [investir mais em um estádio por exigência da Copa], porque você faz um estádio para um dia, o evento da Copa do Mundo, com 70 chefes de estado, e depois tem que desmontar um bocado de coisa. Nenhum outro evento vai precisar justificar aquele estádio, o estádio de abertura da copa do mundo era R$ 800, 900 milhões. Você sair de um de R$ 300 milhões, ou R$ 400 milhões, que era o que o Corinthians queria, para um de R$ 800, 900 milhões por causa das exigências da abertura".

Promessas não cumpridas

Marcelo conta que o governo estadual teria se comprometido a bancar as reformas no entorno do estádio, além da construção da arquibancada temporária, exigência da FIfa. O custo dos assentos temporários seria de R$ 38 milhões.

Marcelo disse que o valor não foi pago pelo governo de Geraldo Alckmin e que a empreiteira teve de assumir a maior parte do valor.

Marcelo disse que os envolvidos consideraram temerária a maneira como a prefeitura de São Paulo contribuiria financeiramente. O modelo de emissão de CIDs não era confiável, declarou Marcelo. Mas Kassab teria dito no jantar que assumiria o compromisso de honrar o pagamento mesmo que não houvesse êxito com o dinheiro via emissão de certificados de títulos públicos.

"Da prefeitura, Kassab tirou da cartola [a questão] dos CIDs [venda de títulos públicos pela prefeitura]. O Kassab prometeu R$ 420 milhões de CIDs. Então seria R$ 820 milhões. O Corinthians assumiria R$ 400 e ele [Kassab] assumiu a diferença de R$ 420 milhões"

"Mas a gente estava preocupado na época [com a forma como sairia a contribuição financeira da prefeitura]. Tanto que nessa reunião, a gente disse: 'Pera aí'".

"Aí ele [Kassab] assumiu e disse: 'Eu vou apoiar na monetização. Ele disse que estava acertando com Ministério da Fazenda. Como o Ministério da Fazenda não poderia mandar dinheiro para CID, mandaria para outro lugar. E ele [Kassab] reservaria esse dinheiro".

"É aquela história: o cara promete e depois ele vai ver a responsabilidade fiscal, mas prometeu de boca R$ 420 milhões".

A emissão de CIDs para a Arena Corinthians chegou a ser barrada judicialmente. O prefeito que sucedeu Kassab, Fernando Haddad, se mostrou contrário à emissão de títulos públicos em benefício do estádio do Corinthians. 

Outro lado

Sobre o conteúdo da delação, o advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins criticou a divulgação do conteúdo pela imprensa. "O vazamento ilegal e sensacionalista das delações" reforça o "objetivo espúrio pretendido pelos agentes envolvidos: manchar a imagem de Lula e comprometer sua reputação

A nota também volta a afirmar que o ex-presidente é "vítima" de "arbitrariedades" praticadas pela operação Lava Jato, com o objetivo de "destruir sua trajetória". "Lula já foi submetido à privação da liberdade sem previsão legal; buscas e apreensões; interceptações telefônicas de suas conversas privadas e divulgação do material obtido; e levantamento dos sigilos bancário e fiscal, dentre outras medidas invasivas."

Kassab, atual Ministro da Ciência e Tecnologia, diz não ter tido acesso oficial às informações e pede ainda "cautela com depoimentos de colaboradores, que não são provas". Ele também destaca que os atos praticados em sua campanha seguiram a legislação vigente.

O Corinthians se pronunciou nesta quinta-feira sobre as delações feitas por Marcelo Odebrecht, ex-presidente da Odebrecht. Em nota oficial, o clube paulista afirma que apurará as informações apresentadas na delação e que punirá responsáveis por eventuais irregularidades cometidas na construção da arena em Itaquera.
 
"O Sport Club Corinthians Paulista, tendo tomado conhecimento de trechos da delação do Sr. Marcelo Odebrecht que envolvem a Arena Corinthians, vem a público reforçar que quaisquer irregularidades ou desvios de conduta, constatados por autoridades ou não, serão devidamente apurados pelo Clube, que tomará todas as providências para resguardar seus direitos e buscar a punição dos responsáveis, bem como diligenciará para garantir que todos os prejuízos causados ao Clube e à Arena Corinthians sejam devidamente ressarcidos", comunicou o Corinthians.

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