Campeão mundial pelo SP larga emprego de manobrista por recomeço no futebol

Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

Ex-lateral direito de São Paulo, Flamengo e Guarani nos anos 90, Jurandir Fatori, o Jura, campeão mundial pelo tricolor paulista em 1993, voltou ao futebol.

Em 2015, o UOL Esporte contou a história do ex-jogador, que havia perdido todo o dinheiro arrecadado na carreira e estava trabalhando como manobrista em Piracicaba, cidade interiorana de São Paulo. Jura agora é professor em escolinha de futebol - seus alunos, 160 garotos, têm entre 4 e 16 anos.

A escolinha na qual é funcionário é de Jonathan Cafu, atacante com passagens por Ponte Preta e São Paulo, que atualmente está no Ludogorets, da Bulgária. "Eu não reclamo, não [dos tempo de manobrista], mas, graças a Deus, hoje eu estou em uma área que eu gosto", festejou, em novo bate-papo com a reportagem. 

Na nova função, Jura promete passar conselhos técnicos e táticos sobre futebol, mas também sobre como jogar com fair play?. O ex-jogador citou o caso recente de Rodrigo Caio, zagueiro do São Paulo que corrigiu o árbitro e impediu cartão amarelo ao rival Jô, do Corinthians, durante um clássico pelo Paulistão. "Passo para os garotos. Sinceridade, respeito, fair play são muito importantes", avisa. Outro conselho do veterano aos meninos: evitar misturar gandaia com futebol. "Não dá mais para ser malandro, o futebol de hoje exige 100% do corpo", diz. 

Feliz com a nova vida, Jura ainda ainda contou que não desistiu do sonho de ser treinador profissional, falou sobre como chegou à escolinha de Jonathan Cafu e brincou com a "tietagem" dos pais e dos alunos em Piracicaba.

Divulgação

UOL Esporte: O que o Jura está fazendo hoje na área profissional?
Jura:
O Jura hoje trabalha numa escolinha de futebol. Comando uma escolinha de futebol com 160 garotos, chamada CT Jonathan Cafu, jogador que atuou Ponte Preta, teve passagem rápida pelo São Paulo e agora está na Bulgária, no Ludogorets. Então aqui temos 160 garotos, e eu trabalho com garotos de 4 a 16 anos. Estamos em várias competições e vou tocando aqui, está tranquilo graças a Deus. 

Como se deu esta transição de manobrista em restaurante para treinador em escolinha de futebol?
Eu não reclamo, não [dos tempos de manobrista], mas, graças a Deus, hoje estou em uma área que gosto. Foi por meio do empresário Luiz Augusto, do Jonathan Cafu e do irmão dele, o Paulo Sergio Barbosa, que cheguei aqui. Eles fizeram o convite para eu trabalhar na escolinha. Já tinha trabalhado com isso e já tinha trabalhado com o Luiz Augusto, que é o empresário do Jonathan Cafu, como treinador profissional no São José dos Campos e no Iguaçuano. Eles me deram essa oportunidade. Agora em junho fará um ano que eu estou na escolinha. 

Quando trabalhava como manobrista no restaurante e recebeu este convite, você ficou surpreso? Você acreditava que voltaria a trabalhar com futebol?
Acreditava. Eu acredito no meu trabalho, que sou um cara competente no que faço. Eu sei que o meu passado me marginaliza muito, mas as pessoas que me conhecem de verdade sabem sobre o meu caráter, sobre a minha pessoa e que isso aí faz parte do meu passado mesmo. Ainda não desisti de ser um treinador profissional. Fiz vários cursos e tenho a própria pratica da vida: trabalhei com os melhores treinadores e, claro que você tem que estar se aprimorando sempre, mas o futebol é simples. O mestre Telê Santana, o que ele fazia há vinte e poucos anos, é o que os treinadores fazem hoje com o campo reduzido, posse de bola. É bem simples mesmo. Tem o comprometimento, força física, e é logico que a gente tem que se aprimorando sempre mais.

Quando você iniciou na escolinha, em junho do ano passado, os pais dos alunos te conheciam?
Eles perguntam muito sobre a minha carreira, perguntam de tudo, e eu uso isso para o lado positivo. Tento levar para o lado positivo e passar para as crianças o que é certo e o que é errado. Lógico que cada um escolhe o seu caminho. A minha vida é um livro aberto e eu converso sempre com eles, sendo sobre as coisas positivas ou negativas.

O futebol mudou muito. O que você não fazia no esporte e hoje é fundamental? Você passa isso aos seus alunos?
Comprometimento. Você tem que estar focado no que faz, tem que querer e gostar, principalmente. Ter respeito ao próximo é importantíssimo. Esse negócio de flair play é fundamental: a história do Rodrigo Caio, ele está de parabéns. É um exemplo fantástico o que ele fez. Passo isso para os garotos: sinceridade, respeito e flair play são muito importantes, como também é se cuidar. Hoje não dá mais para misturar as coisas, querer ir para a gandaia e jogar futebol. Não dá mais porque você precisa muito do seu corpo, não dá para ser malandro. No passado nós nos enganávamos a nós mesmos. Hoje, mesmo que você queira jogar, não consegue, porque a carga de trabalho é muito forte, precisa do corpo 100%. 

Como é a sua rotina de trabalho, Jura?
É de segunda à sexta-feira. Final de semana a gente tem campeonato, estamos disputando a Liga Piracicabana e também outros torneios entre escolas. Valorizo muito o grupo: tem jogador de mais qualidade e de menos qualidade, mas a gente fala para eles que o importante é fazer parte do grupo. Que, às vezes, não se participa do jogo, mas o importante é você estar junto. Então eu me ocupo todos os dias com isso.

O Jonathan Cafu conversa direto com você? Como funciona a administração da escolinha?
Não, o Jonathan Cafu fica mais na Bulgária. Quem comanda mesmo e toca a escolinha é o irmão dele, Paulo Sergio Barbosa. Cafu, quando vem, passa na escola. Já conversou com os alunos, bate uma bolinha lá... Então o irmão dele administra e a gente faz a nossa parte de campo.

Como se dá a divulgação da escolinha? Tem olheiros, os alunos pagam para treinar?
O CT chama Centro de Treinamento Jonathan Cafu. A gente divulga no Facebook, temos secretária, temos contato boca a boca, conhecimento, relacionamento. É assim que a gente divulga. Em quase um ano, estamos com 160 alunos. Quem gosta, continua, porque o trabalho é bom, tanto técnico, tático e educacional. Isso é um fator importantíssimo para trabalhar com criança. Aqui é pago, a gente matrícula o garoto, que ganha o kit com o uniforme [calção, meião, a camisa e uma bolsinha]. A inscrição é no valor de R$ 100 e a mensalidade é de R$ 60.

Jorge Araújo/Folhapress
Jura (cabelo loiro ao lado de Cafu) foi campeão com o São Paulo no Mundial de 1993

Tem olheiros?
A gente já vê jogadores com qualidade para indicar para os clubes, mas deixo bem claro não prometemos nada aqui. É uma escolinha de futebol onde ensinamos os fundamentos. Nada de promessa, porque muitos professores de escolinhas falam que vão levar para o Palmeiras, para o Guarani, e não é nada disso. Você vai trabalhar como os outros e, se a gente ver que está se despontando, que tem uma qualidade legal, indicamos. Esse é o trabalho. 

Manobrista nunca mais, Jura?
Eu só agradeço. O emprego de manobrista me ajudou muito, mas me tomava muito tempo. Era de madrugada, não conseguia curtir o filho e a família. Hoje estamos no caminho que a gente gosta. 

Na escolinha tem filhos de pais que frequentavam o restaurante onde você foi manobrista?
Tem, sim. Elogiam. Poxa, eu fazia bem feito lá no restaurante e aqui faço melhor ainda. Agora é a minha praia. Estamos no caminho certo. Almejo um clube maior, uma coisa profissional. Quero chegar em um clube com uma estrutura de trabalho, uma condição de trabalho, o mínimo possível. A maioria dos clubes que eu trabalhei, eu tinha que levar dinheiro para o clube. Tinha pouca estrutura... Então, eu só saio da escolinha se eu tiver uma condição boa, um convite legal mesmo, profissional, porque não dá pra ficar se aventurando não.

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