Pai fez escolinha pro filho virar jogador. Hoje ele é esperança do Botafogo

Bernardo Gentile

Do UOL, no Rio de Janeiro

  • Vitor Silva/SSPress/Botafogo

    Matheus iniciou na escolinha do pai e só depois de 3 anos foi ao Botafogo

    Matheus iniciou na escolinha do pai e só depois de 3 anos foi ao Botafogo

Matheus Fernandes é um dos jogadores revelados no Botafogo que mais chama atenção dos torcedores. Dentre tantos, é o único que foi convocado para as categorias de base da seleção brasileira. Você acreditaria se escutasse que ele virou jogador porque o pai criou uma escolinha de futebol exclusiva para ele? Pois foi exatamente o que aconteceu.

Nascido e criado em Itaboraí, município da Grande Niterói, Matheus disse para o pai, Reinaldo, que gostaria de ser jogador de futebol. Desempregado naquele momento, ele não pensou duas vezes. Pegou alguns tijolos, uma bola velha e foi para o campinho do bairro onde moravam.

"Meu pai criou a escolinha para me treinar. Meu pai não entende muito da parte física, mas sabe de tática. Então ele treinava meu posicionamento. Além disso tinha também exercícios de fundamento. Tinha de conduzir a bola e passar pelos cones, que na verdade eram tijolos porque não tinha dinheiro para investir", disse Matheus Fernandes ao UOL Esporte.

"A escolinha foi criada exclusivamente para ele. Quando ele começou a jogar bola, eu estava desempregado e levei para o campo. Quis ensinar os caminhos do futebol. Fomos para lá e as crianças começaram a aparecer. E foi levando para os outros, quando vi já estava envolvido e abracei a ideia. Joguei na base do América e entendi na prática os melhores caminhos. Eu não venci no futebol e ensinei o que ele deveria fazer. Como se comportar no clube, com o treinador. Acredito que conseguiu pelo talento e trabalho dele, mas também por isso", completou Reinaldo.

O projeto inicialmente exclusivo virou o lazer de mais de 200 crianças. Até futebol feminino tinha vez. Matheus passou por dois clubes (Profute, de Itaboraí, e Bangu) antes de chegar ao Botafogo, com 13 anos.

"Fiquei na escolinha por três anos. Todo dia de tarde a gente treinava. Até mesmo depois de eu começar no Profute e no Bangu eu seguia treinando com meu pai. A escolinha cresceu bastante, muita criança", lembra Matheus.

O lado triste da história ocorreu após o fim da escolinha. Reinaldo conseguiu um emprego e ainda se dividia para acompanhar o filho no Botafogo. Matheus Fernandes lamentou ter perdido amigos que jogavam bola ao seu lado para o tráfico de drogas.

"O projeto parou porque meu pai começou a trabalhar e porque passou a me acompanhar no Botafogo. Até em viagens ele ia junto, mas ele quer muito voltar a fazer a escolinha. Muita gente depois que acabou o projeto se perdeu, foi para o mundo das drogas. Alguns perderam a cabeça, é algo que deixa meu pai muito triste", lamenta o volante do Botafogo.

"É uma coisa muito triste. Tenho contato com vários garotos que vi crescer. Sempre instruí para o caminho certo. Era o único lazer que tinham. Pais trabalhavam e eles ficavam nas ruas. Falava o que era certo e errado, acabava educando, né? Com o término, facilitou o desvio de alguns deles e muitos foram para o caminho do tráfico. Pedem para eu voltar com o projeto e quero isso. Hoje ainda não dá. Meu sonho é montar um projeto com estrutura, dar alimentação, informática, curso de inglês. Se puder tirar jovens de 12, 13 anos desse caminho... [emocionado]. Eles me respeitam. Quando passo por um desses que estão no tráfico, abaixam a cabeça porque sabem que nunca aprovei isso. Gosto muito desses meninos e fico triste com a situação", completou Reinaldo.

Veja outras respostas de Matheus Fernandes:

Escolinha

No início era só eu e ele. Tinha uma bola só. A galera passava, me via treinando e queria participar também. Pessoal foi trazendo bolas e foi juntando no campinho. Até que um dia meu pai conseguiu apoio da Prefeitura com coletes, materiais esportivos. Ganhamos bolas, cones, coletes. Melhorou bastante as condições de trabalho.

Rejeitou Flu por Botafogo

Desde que cheguei aqui é que mudou tudo na minha vida, né? Clube grande, que te dá visibilidade. Peguei seleção brasileira após chegar aqui. Me identifiquei desde que cheguei. Tive proposta para jogar no Fluminense, mas preferi vir para o Botafogo. Vim fazer uma visita, gostei da rapaziada, geral humilde. Me identifiquei com o clube e não quis ir para o Fluminense. Sempre escutamos que o Fluminense é o maior formador, mas não acredito nisso. Se olhar mais para base, sai muito jogador bom. O Botafogo tem feito isso e está se dando bem. Olharam para mim, Marcelo, Marcinho. Está dando resultado.

Base aproveitada no Botafogo

Muito bom porque peguei o Emerson Santos na base. Agora subi e ele está aqui no profissional. Ele também é de Itaboraí e me deu muita força quando cheguei. Cada vez mais chega jogador novo. Jair fala que é o momento. Se estiver bem e mostrar, vai ser aproveitado.

Carinho da torcida

Fico feliz de a torcida me apoiar. Acredito no meu futebol e que vou dar resultado. Passar pela seleção dá confiança. Você trabalha no clube e seleção vem como bônus. Seleção é muito legal. Viajei para México, Chile e Estados Unidos.

Carreira

É um sonho, ne? Sempre sonhei chegar nos profissionais. Mas até chegar aqui passei por coisas que nem imaginava, como seleção, viajar para fora. Agora é se firmar e tentar a seleção principal.

História no Botafogo

Todo jogador pensa em fazer história no clube que é formado. Quero muito deixar meu nome gravado aqui. Se porventura aparecer uma boa proposta, vamos ver o que o Botafogo tem a dizer. Não é pegar a proposta e sair. Criei história aqui, me identifiquei e gosto do clube.

Identificação

Eu sempre quis ser jogador então nem tinha clube do coração. Meu avô sempre foi botafoguense e pedia para eu jogar aqui. Nunca fui ligadão em ver jogos, gostava mais de jogar. Quando cheguei no clube (com 13 anos) é que criei essa identificação e passei a torcer.

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