Ex-Roma, Mancini vê técnicos estrangeiros à frente: "Brasil parou no tempo"

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

Aposentado dos gramados há um ano, Mancini, hoje com 36 anos, começa a desenhar uma nova carreira no mundo do futebol: a de treinador. Com passagens por São Caetano, Roma, Milan e Internazionale, o ex-jogador revelado pelo Atlético-MG tem ?uma viagem programada para a Itália ainda este ano, país onde viveu em boa parte da carreira. A ideia é fazer uma série de cursos da Uefa para, se tudo correr bem, iniciar a carreira de técnico daqui a alguns anos.

GIUSEPPE CACACE-20.ago.2008/AFP
Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, Mancini, que atualmente tem o futevôlei como hobby preferido, conta sobre suas inspirações para ser técnico (entre elas Vanderlei Luxemburgo), admite que o Brasil ainda está atrasado quando o assunto é treinador, fala sobre a missão que teve de substituir o ídolo Cafu na Roma, 'agradece' a chegada de Tite à seleção brasileira e relembra a importância do São Caetano na sua carreira. Confira:


São Caetano mudou a sua carreira

O São Caetano me ajudou, porque eu subi do Atlético-MG muito novo. Fui contratado como uma promessa. Fiz no São Caetano o primeiro ano excelente, vice brasileiro, o segundo ano excelente... Já no terceiro ano as coisas foram ruins, aí eu voltei para o Atlético-MG, me recuperei e fiz 17 gols pelo Galo no Campeonato Brasileiro, eu fui o lateral artilheiro. Então a minha passagem pelo São Caetano ajudou muito a minha carreira, deslanchou de vez.

A chegada à Roma, onde ficou por 7 anos

A direção da Roma e o Fabio Capello me procuraram, me contrataram e eu fui emprestado quatro meses para o Venezia. Era o tempo de o Cafu ir embora. Eu fiz quatro meses no Venezia e foi muito bom, me ajudou muito para a adaptação. Cheguei lá [na Roma] em 2003, depois o Capello me chamou: 'eu vi você jogar no Brasil e agora eu vou colocar você para jogar na segunda linha de ponta direita', lá eles chamam de externo, no Brasil é ponta direita, aí eu cheguei lá desconhecido e fiz dois gols no Campeonato Italiano, fui para substituir o Cafu.

A missão de substituir o ídolo Cafu e o golaço na Champions

AP Photo/Riccardo De Luca
A responsabilidade foi grande. Ele tinha sido campeão italiano, ídolo lá, e eu falei: 'vamos embora, futebol é assim mesmo', e encarei, fui trabalhando com persistência. A adaptação no começo foi difícil porque Veneza é uma cidade mais fria, já em Roma é mais quente, tinham mais brasileiros, eu me senti mais à vontade. Na Roma tinha o Emerson, o Lima, depois chegaram Cicinho, Taddei. Eu fiquei sete anos na Roma, conquistei uma Supercopa da Itália e duas Copas da Itália. Faltou uma Liga (dos Campeões), é a competição mais top. Eu disputei oito ou nove Champions... o gol que eu fiz contra o Olympique da França está entre os 10 mais bonitos da Champions. Foi jogando em Lyon. Eu peguei a bola, fui pedalando, pedalando, entrei na área, o cara veio, eu driblei, fui para o lado esquerdo e chutei de esquerda e fiz o gol.

Em quem se espelha para ser treinador?

Luciano Spalletti. Com ele eu aprendi muito, o posicionamento, ser estático, me pegava pelo braço, me dava dicas, e o meu ápice na Itália foi com ele. E o Capello também, pela moral. É um cara muito sério, que consegue lidar com um grupo de estrelas. E de brasileiros, o Vanderlei Luxemburgo... No auge foi muito bom, no ápice dele.

Técnicos brasileiros ainda distantes dos europeus

Hoje em dia melhorou. Hoje a gente se aproxima muito deles [estrangeiros] até pela consciência. A gente está muito longe em relação a eles. Nós precisamos melhorar algumas metodologias, mas melhorou bastante nos últimos anos. Mas estamos longe ainda.

Seleção brasileira: "Graças a Deus apareceu o Tite"

Graças a Deus apareceu o Tite. A gente estava na lama. Os outros [países] melhoraram muito porque procuraram estudar, procuraram se infiltrar, procuraram se informar, equipararam-se na força física e na técnica. O Brasil parou no tempo.

Criminalidade impede surgimento de novos talentos

Gustavo Magnusson/Fotoarena/AE
Meu interesse pelo futebol surgiu com oito anos de idade, na brincadeira de rua, aquela coisa de infância. Eu jogava bola até mais tarde. A gente juntava amigos em Ipatinga e jogava bola até 11 horas da noite. Antigamente você podia fazer isso, hoje em dia, não. Como está perigoso, a sociedade infelizmente... Eu até penso que isso é um fator que tem causado a carência de talentos no Brasil, por conta dessa violência, a parte social... Então isso impede muito, porque com atividade você desenvolve a coordenação natural. Hoje não dá mais para brincar na rua, tem muita violência. Hoje tem escolinha de futebol, grama sintética, cobram o garoto com 17 anos como se ele fosse adulto, então tudo isso é complicado.

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