Ídolo corintiano ajudou Arana na base e já ocupou vaga de Zé Ricardo no Fla

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

  • Antonio Gaudério/Folha Imagem

    Marcelinho Paulista chegando a treino do Corinthians com um Fusca

    Marcelinho Paulista chegando a treino do Corinthians com um Fusca

Dois 'Marcelinhos' tiveram passagens marcantes pelo Corinthians na década de 90: o Carioca, um dos grandes ídolos alvinegros e mais conhecido da torcida, e o Paulista, revelado no próprio "terrão" e que acumulou 250 jogos pelo time profissional. Hoje executivo da Think Ball, empresa que gerencia a carreira de jogadores, o segundo deles ainda tem no Corinthians – clube pelo qual torce desde pequeno e ao qual chegou com apenas 12 anos de idade – as suas principais lembranças.

Em conversa com o UOL Esporte, Marcelinho Paulista recorda o início de carreira no clube alvinegro, o recuo para a posição de volante, a inspiração nos ídolos Wilson Mano e Marcelo Djian, as passagens pela seleção brasileira (incluindo a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1996) e a oportunidade que teve para trabalhar nas categorias de base do Flamengo, inclusive substituindo o atual técnico do time profissional, Zé Ricardo.

O início no Corinthians: seis conduções por dia

Eu fui para o Corinthians fazer uma avaliação com 12 anos de idade. De Cotia eram três conduções para ir e três para voltar. Esse trajeto eu fazia com 12 anos de idade, sozinho. Ou eu pegava o trem ou eu pegava um ônibus até o Largo da Concórdia, ali do Brás, e de lá eu pegava um ônibus até Pinheiros, e de Pinheiros eu pegava um para Cotia, e para voltar o mesmo trajeto: Cotia para Pinheiros e de Pinheiros até o Largo da Concórdia [risos]. Hoje existe essa maldade no mundo. E naquela época não tinha celular... Então, às vezes, o que eu fazia? Quando chegava ao clube eu ligava do orelhão para falar com a minha mãe: 'Ó, já cheguei e está tudo bem' [risos].

Os títulos do Paulistão e da Copa do Brasil em 95

Lalo de Almeida/Folhapress
Foram importantes porque é o que você sonha, e a década de 90 foi muito difícil para o Corinthians porque as outras equipes, como Palmeiras e São Paulo, tinham capital, tinham muito dinheiro: o Palmeiras pela Parmalat e o São Paulo pela sua estrutura que já era fenomenal naquela época. Então a gente vinha muito na cara e na coragem. Você pegava um Palmeiras, o banco de reservas era um timaço. Você pegava o São Paulo tinha Raí, Muller, Palhinha, o Palmeiras tinha o Djalminha, Luizão, enfim, eram grandes equipes. Então esses dois títulos do Corinthians em 95 foram importantes pelas equipes que a gente enfrentava naquele período, equipes que tinham um aporte financeiro muito, mas muito maior do que o nosso. Foram títulos muito importantes pelo cenário que a gente tinha na época.

Mais de dez anos de Corinthians até a saída para o Bota

Eu cheguei ao Corinthians em 87 e saí do Corinthians em 1998. Eu subi para o profissional do Corinthians em 91, então eu fiquei no profissional sete anos... É mais que natural a saída. Eu joguei 250 jogos pelo Corinthians como profissional e, na época, chegou o momento que eu tinha que sair, eu tinha que rodar mais, era uma oportunidade e eu acabei indo para o Botafogo, que foi uma das grandes experiências da minha vida também.

Turbulência financeira 'ajuda' a revelar jogadores

Reprodução/Álbuns Panini
Muito, muito diferenciado. No período que eu subi para o profissional nós treinávamos em Arujá, isso estou dizendo o profissional do Corinthians, então a gente não tinha esse aporte de centro de treinamento que as duas equipes [Palmeiras e São Paulo] já tinham. Hoje o Corinthians não perde em nada em estrutura para essas equipes. E o Corinthians, quando passa por esses momentos de alguma turbulência financeira, como acontece hoje, em partes, é quando aparecem possibilidades  para jogadores que crescem dentro do clube. Hoje é o caso do Arana, do Maycon, o Pedro Henrique, o Léo Príncipe... Você começa a dar oportunidade para muita coisa boa que tem dentro de casa. Se o Corinthians tivesse com o aporte financeiro alto talvez esses jogadores jovens não tivessem essa oportunidade que estão tendo. Essa é uma leitura que eu faço da vivência que eu tive, esse momento do Corinthians que está dando oportunidade... Não é simplesmente porque os jogadores são bons, é também pelo momento financeiro do clube, eu não tenho dúvida disso. Então é uma grande diferença que infelizmente acontece no clube. Só quando ele passa por essas turbulências financeiras. 

De meia para volante, graças a Basílio

Eu jogava na meia, um pouco mais avançado. Essa é uma história até legal porque, tecnicamente, existiam outros atletas até melhores dotados tecnicamente do que eu. Então, eu sempre era deslocado ou pra jogar de beirada ou para jogar no meio, ou para jogar como segundo volante, então isso sempre acontecia. Isso foi na base inteira até quando eu cheguei, com 17 anos, quando eu comecei a ir para os jogos dos aspirantes. Naquela época existia a Copa João Saad de aspirantes, então a gente jogava antes dos profissionais, e foi ali que eu fui observado pelo Cilinho, que era o técnico do profissional, e ele começou a me acompanhar, e já me puxou para o profissional. Eu fiquei treinando durante um período e, a partir dali, ele me deu a chance para jogar. Com o Cilinho eu estreei como segundo atacante, praticamente. Jogava eu e o Dinei na frente. Depois, quando trocou de técnico, veio o Basílio. Ele tinha a opção de jogar com um ponta mais aberto... A gente conversou, aí eu voltei a disputar a posição no meio-campo como segundo volante, e foi ali que eu tive a oportunidade. Eu entrei, aí veio a seleção de base e, a partir dali, a coisa engrenou realmente, jogando no meio-campo.

Wilson Mano e Marcelo Djian como referências

A maior referência que eu tive no Corinthians era o Wilson Mano. Ele era um cara que, você colocava ele para jogar na lateral ele jogava, colocava ele para jogar na meia, ele jogava, de zagueiro ele arrebentava, e quando jogava na posição dele, que era no meio-campo, como volante ou segundo volante, ele era craque. Era um cara que batia de perna direita, de esquerda, então quando eu subi para o profissional do Corinthians eu olhava muito ele, porque era um profissional correto, trabalhava bastante, sempre puxava a molecada, então para mim foi uma grande referência. Eu conversava bastante com ele no período que eu subi e com o Marcelo Djian. Esses dois foram as maiores referências que tive no Corinthians.

Reprodução
Quando eu estava subindo, naquela época, os valores eram bem inferiores aos de hoje, mas quando eu comecei a ganhar um dinheirinho o Marcelo Djian me chamava e falava: 'Vamos almoçar comigo', e eu ia. E ele parava em frente a um prédio e falava: 'Aqui eu tenho um apartamento'. Ele parava em outra rua e falava: 'Aqui eu tenho mais um apartamento, aqui eu tenho outro', enfim, era assim, e ele andava num Monzinha vermelho. Pô, o que ele queria dizer é que isso não importava, o que importava era o futuro, o futuro da família, então tinha que guardar dinheiro. Então, eles sempre foram a minha referência não só como atleta, mas como homem também. Eles eram de uma conduta profissional muito limpa e, como homem, você nunca ouviu falar nada deles, então eles eram caras em que me espelhava muito.

A concorrência na seleção brasileira

Em 97 eu tive seis convocações para a seleção brasileira principal, sendo que tinham Flávio Conceição, Dunga, César Sampaio, Amaral, Zé Elias, e num ano de véspera de Copa do Mundo. Eu sei o que eu produzi, coloco-me de uma maneira bem simples, mas eu sou um cara que sempre soube aproveitar as oportunidades que tive. Pelo histórico de convocações eu me sinto orgulhoso porque, dentro desta década, existiam grandes jogadores, e você estar entre os melhores é muito legal.

A medalha de bronze 1996: "frustração"

A frustração fica pela equipe que tinha, era sensacional. O que aconteceu naquela tarde é difícil de explicar porque a gente ganhava o jogo [contra a Nigéria, pela semifinal] por 2 a 0, e com facilidade. Não um 2 a 0 que você fala: 'nossa, achou dois gols'. Fizemos 2 a 0 com uma facilidade enorme. Quando voltou para o segundo tempo era muito mais controlar a partida... Para se ter uma ideia, quem estava no banco naquele jogo era o Rivaldo, então, quer dizer, eu estar no banco era normal, ok. Nós tínhamos Rivaldo, Juninho Paulista, Sávio, Luizão, todos no banco de reservas, era uma seleção formidável. Às vezes eu brinco com o pessoal que era mais difícil você treinar do que você jogar porque, quando tinham os treinamentos, os caras eram muito bons, e se você vacilasse... A minha concentração era não fazer bobeira nos treinos porque o nível dos caras era elevadíssimo. Então a frustração vem pela equipe que a gente tinha. Realmente, sem sobra de duvidas, é uma das seleções inesquecíveis.

O trabalho na base do Flamengo e o encontro com Zé Ricardo

Eu fui contratado pelo Flamengo para entrar no lugar de um cara que você não vai acreditar: o Zé Ricardo, hoje treinador principal do Flamengo [risos]. Aí o Flamengo estava fazendo algumas mudanças e eu cheguei para o lugar do Zé Ricardo, para a categoria sub-13 e 15, e ali eu conheci o Zé Ricardo bem rapidamente... Mas eu tinha muitos amigos em comum e todos falavam que ele era um cara sensacional. Eu conversei com ele muito pouco, depois a gente se encontrou algumas vezes e beleza...

Gilvan de Souza/ Flamengo
O tempo passou e eu fiquei três anos na base do Flamengo, peguei do sub-13 ao sub-17. E essa safra toda do Flamengo, o Matheus, filho do Bebeto, que hoje foi vendido para o Sporting, Thomás, que está no Santa Cruz, Negueba, que assinou com a Ponte Preta, e por aí vai... Uma série de jogadores que eram todos dessa safra, que passaram comigo lá no Flamengo, e eu recebi uma proposta do Sendas pelo Brunoro: 'Eu tenho lá 26 jogadores, são atletas que estão lá há muito tempo e eu não estou preocupado, não, eu quero que você faça um trabalho com esses jogadores', falou ele. 'Você pode contratar dois caras', e eu peguei e levei o Léo Inácio, que jogava no Flamengo e que tinha trabalhado comigo, e outro jogador que não me recordo. E aí eu fui para o Sendas. Quando eu chego no Sendas, quem é o técnico do sub-17 do Sendas [risos]? Zé Ricardo. E aí foi ótimo porque, quando tinha tempo, eu falava: 'Zé, fica aqui no profissional comigo e me ajuda'. Um cara sensacional, ele veio aqui em São Paulo, teve um jogo do Flamengo, e a gente tem um amigo em comum, e acabamos jantando juntos na casa desse amigo. São as viradas da vida.

Polêmicas na base do Corinthians

O que acontece na realidade é o seguinte: quando você entra para trabalhar no Corinthians, 50% das pessoas ficam felizes e outras 50% ficam tristes, é assim que é. O período em que eu trabalhei não foi o mesmo do Fábio Barrozo [ex-gerente geral da base no Parque São Jorge]. Nesse período em que eu trabalhei na base do Corinthians o Fábio Barrozo estava envolvido com projeto da parceria na Argentina, então eu tive pouco contato com ele, apesar que é um cara que eu conheço da época do Rio de Janeiro ainda, e na época em que eu trabalhava no Rio ele trabalhava no CFZ [Zico], mas em relação ao Corinthians e estes tipos de comentários eu sempre deixei as portas do clube, sempre abertas para que as pessoas pudessem vir e conversar.

Alceu Atherino/site oficial do Avaí
Sempre recebi todos, só que é aquela história: você pode receber todos, mas às vezes eu vou falar para determinada pessoa aquilo que ela não gostaria de escutar, então isso é normal em qualquer business, em qualquer negócio. Então eu posso fazer ou não posso fazer. Esse período em que eu fiquei no Corinthians foi muito gratificante, tivemos várias conquistas. Todos esses atletas são do período que a gente iniciou o trabalho lá atrás pelo convite do Fernando Alba. Então Arana, Maycon, Malcom que está fora do país, todos esses atletas que hoje estão aí são atletas que eram sub-15, sub-13, no período que eu estava no Corinthians, então foi uma safra que a gente trabalhou. Mas é o que eu sempre falo: quando você trabalha no clube você não revela ninguém, você tem uma participação na formação desse atleta... Porque a gente sempre escuta as pessoas falarem: fui eu que revelei. Não, não, existia um trabalho anterior que deu a parcela para o clube. Eu entrei e deixei também a minha parcela durante três anos. Eu saí também por uma proposta, eu não saí do Corinthians por nenhum tipo de problema, simplesmente eu recebi uma proposta para o profissional do Avaí, para dirigir o profissional do Avaí como gerente de futebol, porque a minha caminhada começou na área técnica e depois eu fui para a área da gestão.

Trabalho atual: diretor executivo na Think Ball

Hoje eu recebi uma proposta da empresa Think Ball, ela faz a gestão de carreira e consultoria para atletas. Então o Marcelo Robalinho me convidou porque a empresa tem atletas em mais de 15 países. Ele me chamou e falou: 'Marcelinho, o negócio é o seguinte: eu tenho essa carteira aqui fora que me ocupa muito'. Ele fica três, quatro vezes por ano fora do Brasil, inclusive agora ele está fora do país, 'e eu tenho a carteira Brasil que eu não consigo mais controlar, eu não consigo tocar isso sozinho, eu quero que você assuma a minha diretoria no Brasil. Então hoje eu estou nessa área, fazendo a diretoria esportiva dessa empresa. Eu deixo as coisas irem acontecendo, procuro me atualizar sempre, independente do setor que você está trabalhando, você tem que entender o que está acontecendo de novo. Então, o tempo todo a gente está buscando as informações, buscando cursos para estar em dia no que diz respeito a tudo aquilo que é novo.

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