Ele é mentor de Cássio no Corinthians e também especialista na bola parada

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

O ritmo de treino quase orquestrado salta aos olhos de quem assiste à cena. No vai e vem frenético da bola, o preparador de goleiros Mauri é também protagonista e dono do roteiro. Com rara facilidade para bater na bola, ele é responsável pelo trabalho de Cássio, Walter e outros arqueiros do Corinthians nos treinamentos diários e atividades que antecedem os jogos do time alvinegro.

Aos 52 anos e com dez títulos em menos de dez temporadas no clube, Mauri concedeu entrevista ao UOL Esporte e não fugiu de nenhum tema. Nem mesmo aos mais polêmicos. Ele elegeu Cássio o maior goleiro da história do Corinthians e contou como ambos se desculparam após rusgas ocorridas em 2016.

Mauri ainda explicou como conseguiu chegar ao patamar atual de treinamento e de que forma virou especialista após encerrar a carreira de goleiro em 1998. O preparador também falou sobre a trajetória no Corinthians, as dificuldades no começo da carreira, seleção brasileira e o goleiro Felipe. 

APTIDÃO OU TREINAMENTO?

O atleta profissional, seja o goleiro ou o de linha, tem de saber bater na bola, tem de usar os dois pés para na hora do aperto saber o que fazer. O goleiro ainda mais, porque ele pode fazer uma reposição curta, fazer uma reposição longa e ligar um contra-ataque para criar uma chance de gol. O goleiro tem de trabalhar sempre isso. Como goleiro eu sempre usava, usava menos a perna esquerda, mas usava durante os jogos. Já tinha facilidade para isso.

COMEÇOU A VIRAR ESPECIALISTA EM 1998

Quando comecei a treinar goleiro, em 1998, nos primeiros dias já pensei: 'vou me aperfeiçoar e usar as duas pernas'. Não era para ser diferente, era para trazer benefícios para o trabalhar e para os seus goleiros, porque você faz uma situação de jogo. A batida é diferente de uma perna para outra, quando for fazer um trabalho específico. Vi que aquilo era viável. Tenho a obrigação de tentar fazer o melhor e fazer com que a bola chegue da melhor maneira para o goleiro. O detalhe não é fazer gol, é condicioná-lo para ele chegar no tempo certo. A velocidade que tem de colocar é preciso dividir também, porque cada um tem uma velocidade e uma forma diferente. Ajudou a crescer e melhorar o trabalho dentro de campo dos goleiros.

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Mauri está no Corinthians desde o começo de 2008 e já conquistou dez títulos

A BATIDA NA BOLA NOS TEMPOS DE GOLEIRO

Usava muito o bate-pronto. O meu balão era o bate-pronto. As bolas mais curtas eu fazia o voleio, pegava mais em cima. A bola mais longa tinha uma velocidade muito grande com o Leto, do Mogi, e o Nivaldo, que jogou no Sport e no Cruzeiro. A bola do bate-pronto sai mais forte e mais reta.

MAURI DÁ DICAS AOS JOGADORES DE LINHA

O pessoal aqui te abraça de coração. Às vezes falo para bater assim na bola, pegar mais no meio dela, para não colocar força, só jeito. Às vezes me procuram e dou conselhos. É uma forma de ajudar. Muitos escutam e pedem conselhos. Para os goleiros é igual. Vou passando e eles vão administrando. Maycon, Jadson, Fagner batem bem na bola. Bater falta não é fácil.

IDEIAS PARA TREINAR OS GOLEIROS

Eu vejo alguma coisa e crio em cima daquilo que vejo. Acrescento algumas coisas que podem ser úteis.

CÁSSIO É O MAIOR DA HISTÓRIA CORINTIANA

Ele é o maior goleiro da história do Corinthians. Os goleiros do passado também ganharam muitas coisas, como Jairo, Tobias, Gilmar, Solitinho, Solito, Dida, Ronaldo. Todos são importantes, mas o Cássio é o maior.

CONVERSA COM CÁSSIO E PEDIDOS DE DESCULPAS

Foi ele, foi a cabeça dele e as pessoas que estavam perto [responsáveis pela melhora em 2017]. O que passamos no ano passado, de problemas... Erramos os dois. Eu queria que fosse dessa forma [como foi esse ano]. No fim do ano passado conversamos bastante, no começo desse ano, quando voltamos, conversamos bastante, nos desculpamos. Ele pediu para eu ajudar. E falei que ele sempre terá minha ajuda. Depois que fomos campeões, eu falei que a única coisa que queria no ano passado era isso [melhor desempenho]. Não era uma cobrança grande. Perdemos um ano, porque esse ano ele poderia estar na seleção. Mas ele pode chegar lá. Ele acreditando e trabalhando, porque ele tem potencial para isso. Esse é o Cássio que todo mundo queria. Esse é o Cássio que quero. Esse é o Cássio que ele quer e buscou. Ele nos ajudou muito, ele está muito bem, peso, percentual de gordura, trabalhando como sempre tem de ser. Isso fez com que ele ajudasse a buscar esse título. Torcemos para ele ir à seleção brasileira.

N.R: Cássio foi barrado do time titular há um ano, contra o Vitória, e não escondeu o descontentamento.

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Mauri trabalha com Cássio desde 2012

ELOGIOS A WALTER

Vem de criação, o profissionalismo, a maneira como ele se porta, a maneira como ele torce para os demais, a maneira como ele ajuda os mais novos e até o próprio Cássio também. Ele tem qualidade para ser titular em qualquer clube do Brasil e já mostrou isso aqui. Veio de um time que foi rebaixado. Engraçado que o Tite até perguntou quando indiquei. Eu falei que ele está sempre na ponta da navalha, Ele veio e tem nos ajudado muito. Goleiro tem que ter paciência sempre, porque só joga um e ele só sai se tiver lesão ou errando muito. A vida é assim. Tivemos Júlio e Danilo que tiveram a chance de sair. O Weverton que trabalhou junto aqui está na seleção brasileira.

AMIZADE ENTRE OS GOLEIROS

A gente faz (encontros) entre os quatro goleiros e as famílias. É uma convivência muito boa, quando está de folga, dentro dos limites. É uma coisa que tem a família. Convivemos mais do que com a família. As famílias se conhecem e formam uma amizade. No futebol isso é essencial.

N.R; Além de Cássio e Walter, o Corinthians tem dois jovens no elenco: Matheus Vidotto e Caique França.

CORINTHIANS É UMA SELEÇÃO

Esperança sempre tem. Por tudo aquilo que nós conquistamos aqui e trabalhamos. Mas sei que isso é uma preferência. A seleção está bem representada. O Taffarel deve ser um grande treinador de goleiros. Não conheço o trabalho dele, mas ele foi um dos melhores goleiros do Brasil. É opção do Tite, tenho de respeitar. Conversamos depois sobre as coisas. É uma preferência. Me coloco no meu lugar porque ele já esteve na seleção. É uma coisa que queria participar, mas não posso reclamar porque trabalho numa seleção. São dez títulos em dez anos. Eles conhecem meu trabalho. É uma opção e tenho de respeitar.

CARILLE TEM FUTURO IMENSO

Ele é um profissional exemplar, desde que chegou [em 2009]. Procurou, olhou outros treinadores, sempre correu atrás. Sempre teve seus trabalhos guardados, anotados. Um cara que tem uma visão muito boa do futebol. E do bem. Ele é merecedor desse momento que está vivendo. Ele deu o retorno que todos nós esperávamos e sabíamos pela qualidade dele. Tem um futuro imenso como treinador.

MAURI É UM ATLETA

Eu sempre me cuido, chego mais cedo, faço academia, fortalecimento para evitar lesões. Mesmo assim eu tenho, pois é um trabalho repetitivo. Os erros não conto, só as [bolas] que vão certo. Também cuido da alimentação, sono. Bater na bola com as duas pernas me ajuda, pois compensa a região lombar, o apoio do quadril. Isso te dá uma condição melhor de vida naquilo que faz. Me preparo como um atleta.

DEZ TÍTULOS EM MENOS DE DEZ ANOS

O tempo passa e a cobrança no futebol é tão grande que não dá tempo de olhar para trás às vezes. São dez títulos, um por ano. Para qualquer atleta é fantástico. Estou muito orgulhoso de ter participado disso, de viver isso nesse clube.

N.R: Mauri conquistou três Paulistas (2009, 2013 e 2017), dois Brasileiros (2011 e 2015), uma Série B (2008), uma Copa do Brasil (2009), um Mundial (2012), uma Libertadores (2012) e uma Recopa (2013).

FELIPE É UM TALENTO DESPERDIÇADO

Para mim foi. Trabalhava com ele sempre pensando em seleção. Pela qualidade que ele tem, a parte técnica que tem e tudo que tem de um goleiro, era para ter chegado na seleção. Depois que ele saiu do Corinthians, ele me falou que podia ter escutado mais. Mas foi tarde. Ele teve a chance de jogar no Flamengo. O problema maior às vezes era um pouco de cabeça. Se ele tivesse, com certeza estaria na seleção brasileira, porque a qualidade é muito grande.

N.R: Felipe já estava no Corinthians quando Mauri chegou. O goleiro deixou o Corinthians em agosto de 2010. Júlio César assumiu a titularidade.

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Mauri e a batida perfeita na bola

MELHORES DO MUNDO

Eu gosto muito do Buffon e do Neuer, cada um com suas características. Um mais técnico, outro nem tanto, mas de uma qualidade muito grande. Um que trabalha mais com o pé e outro nem tanto.

NO BRASIL, NÍVEL ALTO

Nós temos hoje uma quantidade de goleiros com qualidade boa, no mesmo nível. O trabalho com os preparadores de goleiros cresceu muito, é um dos melhores do mundo. Isso ajudou que os goleiros brasileiros crescessem na condição técnica. Tanto que estamos exportando muitos goleiros para a Europa, isso nunca aconteceu. É por causa desse trabalho.

INÍCIO DA TRAJETÓRIA NO FUTEBOL

Saí de casa com 17 anos para disputar campeonatos amadores, sou de Jataí, Goiás. Tive a chance de ir para Goiânia para fazer um teste na equipe de base do Goiás. Eu passei, mas não consegui uma escola, pois estava terminando o segundo grau. No ano seguinte eu voltei. Fiquei no Goiás por sete anos, base e profissional. Depois fui para Náutico, Mogi Mirim, Inter de Limeira. O futebol traz certas coisas na vida da gente que às vezes eu paro para pensar, por aqui que já passei e consegui, precisa ter um persistência muito grande para vencer. Hoje é mais fácil, antes era mais difícil.

MAURI ERA GOLEIRO DO MOGI DE RIVALDO E VADÃO

Joguei profissionalmente por 15 anos. Fiz parte do carrossel caipira, o time do Mogi Mirim em 1992. Fui goleiro daquele time por dois anos e meio, com Leto, Válber, Rivaldo, Capone. Depois os três [Leto, Válber e Rivaldo] vieram para cá (Corinthians) junto com o Admilson.

CARREIRA ATÉ O CORINTHIANS

Comecei em 1998, no Náutico, já nos profissionais. Não passei pela base, mas deveria ter trabalhado, porque gosto de valorizar a base. Em 2001 vim para o Guarani e depois voltei para o Náutico. Em 2006, antes da Copa do Mundo, fui para o Juventude e conheci o Antônio Carlos Zago. Ele era jogador ainda. Ele falou para mim que seria treinador de futebol depois que encerrasse a carreira e que queria que eu fizesse parte da comissão dele. Em 2008 ele assumiu como diretor de futebol do Corinthians. Veio o Mano para a comissão e ele fez o convite. São dez anos, décima temporada.

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Tite e Mauri conversam no ano passado, antes de o técnico assumir a seleção

AS DIFICULDADES NO COMEÇO

Saí de Caxias [trabalhava no Juventude à epoca] e vim sozinho para São Paulo em 2008. Minha esposa ficou lá com as minhas filhas porque sempre existe a incerteza se você vai continuar ou não. Mas você tem de acreditar no seu potencial. Nós viemos depois todos juntos em 2009. O Corinthians fez uma coisa fantástica e o crescimento do clube também se deu por isso, de fazer uma comissão fixa. Os profissionais se adaptam melhor. O clube se profissionalizou nesse sentido e tive a chance de continuar. Não sei quanto tempo vão me aguentar [risos].

EXPERIÊNCIA NO ÍBIS

Estive no Íbis em 1999. Pedi um aumento de salário no Náutico e não consegui. Aí decidi sair. Me chamaram para o Íbis. Fui ver como era a experiência. Me fez ganhar muito como experiência de vida. Fui muito importante, fiquei dois meses ganhando menos que eu ganhava no Náutico. E o Íbis me fez voltar ao Náutico. Nós ganhamos por 1 a 0 e o Íbis não ganhava do Náutico havia 46 anos. Depois do jogo me chamaram e me contrataram de novo pelo dobro do que eu ganhava. Pedi ao Íbis se podia sair. Agradeci por viver tudo aquilo. A gente dá valor pelas coisas que vivemos. Eu fazia do Íbis o melhor time do mundo. Dava o melhor para deixar os goleiros bem.

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