Novo técnico do Barcelona queria ser fotógrafo e simboliza "novo" estilo

Guilherme Costa

Do UOL, em São Paulo

  • Facebook/Athletic Bilbao

    Valverde vai comandar o Barcelona

    Valverde vai comandar o Barcelona

O Barcelona anunciou oficialmente na última segunda-feira (29) o nome de seu novo técnico. Quase três meses depois de ter decidido que encerraria o período de Luis Enrique, 47, à frente do time, a diretoria catalã fechou com Ernesto Valverde, 53, que dirigia desde 2013 o Athletic Bilbao. E isso representa uma mudança drástica de estilo.

Valverde é um treinador com muita experiência em âmbito europeu – algo que o distancia dos nomes que o Barcelona escolheu para comandar a equipe na última década. Desde 2002, quando assumiu o Athletic Bilbao B, levou o Espanyol à decisão da Copa da Uefa (hoje Liga Europa), construiu um currículo vitorioso no grego Olympiacos e voltou ao Athletic Bilbao para classificar a equipe à Liga dos Campeões da Uefa pela primeira vez em 15 temporadas. Em todos os trabalhos, notabilizou-se por um estilo pragmático e por montar defesas sólidas.

O perfil, é claro, é radicalmente diferente do que o Barcelona construiu como identidade nas últimas temporadas. Isso afeta até questões táticas – Valverde é adepto do 4-2-3-1 e tenta estruturar todas as equipes que comanda a partir desse desenho, enquanto os catalães usam um 4-3-3 pelo menos desde a era Frank Rijkaard, treinador catalão de 2003 a 2008.

Na prática, isso quer dizer que a contratação dele demandará adaptações de alguns atletas. O brasileiro Neymar, por exemplo, precisará desempenhar mais funções defensivas do que o atual repertório de atacante aberto pelo lado esquerdo. Andrés Iniesta, um dos pilares do meio-campo que o mundo aprendeu a escalar com Sergio Busquets e Xavi, terá de se adaptar fisicamente à realidade de um volante ou atuar de costas para o gol como um meia.

Alvaro Barrientos/AP Photo
Neymar terá funções mais defensivas no estilo de jogo de Ernesto Valverde

E por que o Barcelona apostou em Valverde, então? A resposta passa, antes de mais nada, pela história de vida do treinador. Ele foi atleta do próprio time catalão – como atacante, entre 1988 e 1990, com 29 partidas e dez gols. Foi comandado pelo holandês Johan Cruyff, que a atual diretoria entende como mentor do estilo que o clube tenta vender para o mundo. O técnico conhece, portanto, o clube e a ideologia que a atual cúpula pretende impingir no elenco.

Valverde também é um treinador que entende de identidade. Passou muito tempo no Athletic Bilbao, como atleta e como técnico, e poucos times do mundo têm uma relação mais clara de orgulho com a própria história do que o Athletic Bilbao. A equipe é do País Basco, região separatista, e aceita apenas atletas bascos em suas fileiras. Depende de jogadores egressos de suas categorias de base e prioriza a relação com os valores que a constituem.

No Barcelona, o uso das categorias de base é uma questão premente. O time catalão, que na era Pep Guardiola construiu um estilo a partir de jogadores de suas canteras, hoje sofre para emplacar revelações na formação principal. Se há alguns anos era comum ver a escalação cheia de nomes forjados na cultura catalã – Piqué, Xavi, Iniesta e Messi são apenas alguns exemplos –, a realidade das últimas temporadas tem sido mais cruel com os novatos.

Na última temporada, por exemplo, o Barcelona recorreu ao mercado quando pensou em reforçar o elenco. A diretoria despejou 120 milhões de euros em contratações como o meio-campista André Gomes (35 milhões de euros), o atacante Paco Alcácer (30 milhões de euros) e o lateral direito Lucas Digne (17 milhões de euros), e nenhum deles conseguiu se mostrar uma opção viável para o elenco.

Gomes, Alcácer e Digne estão, aliás, entre os nomes que devem deixar Barcelona nos próximos meses. A lista ainda tem outras contratações que não se mostraram prolíficas, como Arda Turan e Mathieu. Valverde terá, portanto, de reconstruir o elenco catalão.

Esse processo de reestruturação terá de ser feito a contento de Lionel Messi, a grande estrela da companhia. O argentino tem contrato com o Barcelona até o meio de 2018 e ainda não assinou um novo vínculo. Além de questões financeiras, a discussão do jogador com a diretoria catalã passa por méritos esportivos – ele espera um elenco reforçado e quer ter a certeza de um projeto futebolístico parrudo para se comprometer com a equipe por mais tempo.

Alvaro Barrientos/AP Photo

Valverde conhece o clube, sabe o que a diretoria quer e entende de identidade, mas também tem bom histórico na relação com os principais nomes de seus elencos. É menos aficionado por futebol do que treinadores como Pep Guardiola e Luis Enrique e tem um estilo menos centralizador que seu antecessor. Delega mais, conversa mais com jogadores e ouve mais as lideranças. Nesse sentido, a contratação é uma forma de fazer com que Messi e outros atletas experientes participem mais diretamente do processo de renovação do elenco.

Valverde quase seguiu outro rumo

Quando encerrou a carreira de jogador, Valverde pensava em trabalhar como fotógrafo. O espanhol havia estudado o tema quando ainda atuava como atacante e sempre foi apaixonado pela área. Publicou em 2013 um livro apenas com imagens – a obra recebeu o título "Meio tempo".

"Pensava em me dedicar à fotografia quando deixasse a carreira de jogador, mas o futebol é algo que vicia você e absorve sua cabeça", declarou Valverde quando foi questionado sobre a mudança de planos.

O senso estético é mais um dos motivos que ligam o treinador ao Barcelona. É parte do que a diretoria pensa para a equipe no futuro de curto prazo, ainda que o estilo de Valverde represente uma mudança em relação aos caminhos que o clube tentou nas últimas temporadas.

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