Corintianos acendem sinalizador em protesto contra "morte do futebol"

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • Fernando Donasci/UOL

No último sábado, enquanto o Corinthians vencia o Santos, dezenas de torcedores acenderam pequenos artefatos luminosos atrás de um dos gols da Arena, o que provocou a interrupção da partida e a ação da polícia na tentativa repreender o gesto.

Mas a cena não era apenas um ato de rebeldia estética dos torcedores. O acendimento de sinalizadores se tornou o símbolo da resistência que as organizadas do Corinthians encontraram para protestar contra o que consideram a "morte do futebol".

No jogo de sábado os artefatos foram empunhados por membros da Pavilhão 9, mas a direção da Gaviões da Fiel, o maior grupo alvinegro, já marcou uma assembleia para discutir com os membros a importância de manter os sinalizadores acesos. Eles consideram que os objetos não são perigosos, não machucam ninguém e nem afetam a segurança durante uma partida.

"Quando uma torcida da América do Sul ou da Europa acende sinalizadores, que são dez mil vezes mais potentes que os daqui, o que a gente vê por parte dos comentaristas esportivos são elogios", escreveu o diretor de uma organizada do Corinthians depois de um questionamento do UOL Esporte. "Mas aqui a imprensa tenta ir a favor das decisões das entidades e a tal segurança dos estádios no fim do dia só tem um propósito: acabar com as torcidas organizadas de uma vez."

Reprodução
Gaviões faz reunião para "resgatar a arquibancada"

A ação na Arena provocou reação da Polícia Militar, que diz basear se na lei paulista 1.470 de 1996, segundo a qual é proibido portar fogos de artifício em estádios.

Apesar da lei já ter mais de 20 anos, a repreensão ao sinalizador é bem mais recente.

A partir do Brasileiro de 2017, orientados pela CBF, a arbitragem nacional começou a interromper as partidas toda vez que algum fogo aparecer na arquibancada.

Artefato que matou boliviano não é o mesmo usado hoje

A repressão ao sinalizador aumentou depois da morte do garoto boliviano Kevin Espada, atingido em 2013 por um rojão náutico, um tipo de sinalizador usado para orientação de barcos e navios, que partiu do meio da torcida do Corinthians durante um jogo da Libertadores. Porém, tanto torcedores quanto a própria polícia dizem que os artefatos usados atualmente guardam pouquíssima semelhança com aquele que vitimou Kevin.

"São coisas totalmente diferentes", disse o major Alexandre Vilariço, que comandou o policiamento no jogo de sábado. "Esse que eles usam agora, que a gente chama de pisca-pisca, é um negócio um pouco maior que um cigarro. Mesmo assim não pode acender porque ele faz fumaça, que pode causar problemas respiratórios em quem está perto, além de queimaduras caso seja lançado em alguém."

Reprodução/PFC

Assim como a Gaviões, as outras grandes organizadas de São Paulo são a favor do uso de sinalizador no estádio. Com a proibição de bandeiras e mastros, os clássicos de torcida mista e a livre circulação em ruas no entorno de arenas, São Paulo talvez seja o estado brasileiro onde a polícia e o Ministério Público mais limitaram a ação das torcidas alegando questões de segurança.

Procuradas pela reportagem, tanto a Mancha Alviverde, do Palmeiras, quanto a Independente, do São Paulo, disseram que gostariam de acender sinalizadores, mas como estão proibidos, não pretendem "confrontar o sistema".

"Acendemos no corredor fora do estádio, para receber o ônibus dos jogadores. Isso é festa, embeleza o esporte", disse Reginaldo Pereira, conselheiro da Mancha. "A fumaça não atrapalha o jogo. A proibição é uma forma radical de punir a torcida. Mas a Mancha acha que se é proibido, vamos seguir a lei. Não dá para ser rebelde sem causa. Não estamos aqui para brigar contra o sistema, para afrontar ninguém."

Dassler Marques/UOL Esporte

Reginaldo disse que as cenas de confronto entre polícia e torcedores dentro do estádio do Corinthians no sábado mostram que o que era para ser festa acabou se tornando uma guerra. "Dá repercussão negativa, atrasa o jogo, uma coisa que era para ser positiva vira negativa. A fronteira entre festa e guerra é muito tênue."

O presidente da Independente, maior organizada tricolor, adota a mesma linha: é a favor do sinalizador, mas não pretende desrespeitar a proibição. "Não interfere em nada o espetáculo, deixa uma plástica bonita. Já tiraram nossas bandeiras, instrumentos. Estão querendo matar o futebol", disse Henrique Gomes, o Baby.

"A Independente não entra com sinalizador. Não vamos bater de frente. A [polícia de] Choque tem o dever de coibir. Isso pode dar uma situação de confronto e não queremos isso. Tem de sentar e conversar e eles têm de entender que sinalizador não mata ninguém. A festa tem de voltar."

PM diz ser impossível impedir entrada de sinalizador

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar diz que não consegue fazer uma revista minuciosa de maneira a evitar que os torcedores entrem com objetos inflamáveis no estádio.

"Já faz muitos anos fazemos essa proibição", disse o major Alexandre Vilariço. "Como a nossa revista é de prevenção, não é minuciosa. O torcedor consegue nos ludibriar porque não podemos pedir para todos tirar tênis, blusa. Às vezes eles colocam esse material, que é muito pequeno, pouco maior que um cigarro, perto do corpo, na região genital."

O policial também disse acreditar que os sinalizadores são colocados no estádio por prestadores de serviço, como vendedores de bebidas e lanches e mais tarde distribuídos aos organizados.

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