O que Pirlo e Guardiola têm a ver com Venezuela na final do Mundial sub-20

Do UOL, em São Paulo

  • Jung Yeon-Je/AFP

Não há jogadores do Manchester City entre os 21 convocados pelo técnico Paul Simpson para a seleção inglesa que disputa a edição 2017 do Mundial sub-20. Ainda assim, o treinador Pep Guardiola terá um motivo especial para acompanhar a decisão do próximo domingo (11), em Suwon (Coreia do Sul), com início previsto para 7h (de Brasília): o meio-campista Yangel Herrera, 19, titular, capitão e um dos pilares de uma campanha história para o futebol da Venezuela. O líder da equipe sul-americana encantou o comandante espanhol a ponto de ter sido contratado pelo Manchester City no início do ano, foi elogiado também pelo francês Patrick Vieira e barrou o italiano Andrea Pirlo.

Nascido em La Guaira, município situado a cerca de 30 quilômetros de Caracas, Herrera não foi uma criança forjada em peladas nas ruas. Ao contrário, sequer tinha costume de jogar futebol – na região em que ele vivia, a modalidade mais popular era o beisebol.

O futebol só entrou na vida do venezuelano aos dez anos, quando Herrera se mudou com a família para Monagas. Os primos dele jogavam em um time da cidade, e o garoto, que até então não tinha uma rotina de esportes, resolveu testar a modalidade apenas para se enturmar. No começo, sofreu para coordenar os movimentos; menos de cinco anos mais tarde, já era capitão da seleção sub-15 de seu país.

Aos 16, Herrera já defendia o Monagas na segunda divisão do futebol venezuelano. Naquela época, já mostrava características que têm sido escancaradas no Mundial sub-20 deste ano: a tranquilidade, o bom passe e a disposição para percorrer todo o campo, por exemplo.

O bom desempenho de Herrera no Monagas levou o meio-campista ao Atlético Venezuela, time que ajudou a atingir as semifinais da Copa da Venezuela em 2016. Também chamou atenção de Rafael Dudamel, técnico da seleção sub-20 do país sul-americano, que deu ao garoto a braçadeira de capitão.

Herrera foi um dos pilares da Vinotinto em campanha surpreendente no Sul-Americano sub-20 de 2017: a Venezuela terminou em terceiro em hexagonal que distribuía quatro vagas para o Mundial da categoria – Brasil e Colômbia foram eliminados. Isso chamou atenção de scouts do Manchester City e do próprio Guardiola, e o meio-campista acabou negociado com o time inglês.

Ahn Young-joon/AP

Sem espaço no elenco da equipe inglesa, contudo, Herrera acabou cedido ao New York City, time da MLS (liga profissional de futebol dos Estados Unidos) ligado à equipe de Manchester.

Em Nova York, Herrera outras duas referências na posição. O time da MLS é comandado por Patrick Vieira e tinha Andrea Pirlo como um de seus pilares. Contratado em 2015, o italiano era um dos líderes em minutos disputados pela equipe norte-americana. Em abril, acabou preterido para abrir espaço ao venezuelano.

"Eu buscava características diferentes", explicou o treinador ao canal Univision. "Sei o que posso obter de Yangel e o que Andrea pode me dar, e essa é a explicação para a mudança", completou.

Em menos de uma década, Herrera deixou de ser o garoto que sequer tinha costume de jogar futebol para se transformar num meio-campista que chamou atenção de Guardiola, arrancou elogios de Vieira e barrou Pirlo. Além disso, desenvolveu com o italiano uma relação de tutoria.

"Vieira e Pirlo me ajudaram muitíssimo. Aprendi que o nível de futebol fora do país é maior e vi que preciso melhorar muito para me consolidar. Estou muito feliz por ter essas figuras na minha carreira", disse o meio-campista à Rádio Nacional da Venezuela.

Mundial sub-20, um novo salto para Herrera

A trajetória de Herrera tem alguns turning points bem claros. A mudança para Monagas e o consequente contato com o futebol, por exemplo. A disputa do Sul-Americano sub-20 de 2017, catapulta para o Manchester City. Entretanto, nada se compara ao que tem sido o Mundial disputado na Coreia do Sul.

Para entender isso, é fundamental saber o que o torneio representa para toda a Venezuela. O país tem histórico paupérrimo no futebol e não contabilizava sequer classificação para um Mundial sub-20 até 2009. Nas Eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, ocupa a décima posição entre dez seleções (seis pontos em 14 partidas).

Independentemente do resultado da decisão de domingo, a campanha da Venezuela no Mundial sub-20 já é inédita. Também é um alento em meio a uma crise política e econômica que assola o país – o momento, aliás, foi tema de entrevistas de jogadores e do técnico Dudamel na Coreia do Sul.

No dia em que a Venezuela bateu o Uruguai nos pênaltis e avançou à decisão, um garoto de 17 anos morreu no país ao manipular um explosivo em um protesto, segundo o governo. A oposição fala em provas forjadas e trata o caso como assassinato.

Diante de um país esfacelado, com problemas econômicos e políticos, a campanha no Mundial sub-20 é especialmente relevante. E Herrera, mais uma vez, tem sido um dos grandes responsáveis por isso. O meio-campista anotou apenas um gol, mas está entre os maiores destaques do torneio.

"É um dos melhores jogadores da competição, mas isso não é nenhuma surpresa para mim", disse Vieira ao site da revista Fourfourtwo. "Ele é um líder natural", completou Dudamel.

Quando o Mundial acabar, a ideia do estafe do venezuelano é que ele volte ao New York City. E meta agora é dar muitos minutos para que Herrera evolua, e o retorno ao Manchester City só deve acontecer posteriormente. Dado o histórico do meio-campista, é bom não apostar que isso leve muito tempo.

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