No campo que surgiu 2º goleiro mais caro do mundo ninguém quer ser goleiro

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • Adriano Wilkson/UOL

Quando Gilberto Lopes, o treinador que descobriu o segundo goleiro mais caro da história do futebol*, atende o telefone, ele não diz alô, ele diz "Jesus te ama".

"Jesus te ama!"

"Oi, eu queria fazer uma reportagem sobre o campinho aí onde treinou o Ederson."

Os sites de notícias internacionais anunciavam que o goleiro brasileiro praticamente desconhecido no próprio país já tinha sido vendido ao Manchester City pelo Benfica por algo como um caminhão de dinheiro: 40 milhões de euros ou R$ 145 milhões.

Gilberto Lopes, o Giba, concorda. "Sexta às 16h fica bom para você?"

Divulgação/Manchester City

Ficava ótimo. Na sexta por volta das 16h10 o tom de Giba já era outro. Ele estava muito preocupado com o futuro de alguns dos vinte e poucos meninos do time, todos querendo trilhar um caminho de sucesso para um dia virarem jogadores profissionais.

"Aqui não é lugar pra ficar falando palavrão", disse o professor, a voz firme e segura dando início ao pito. "Não é lugar pra ficar gritando que nem mulher. Às vezes o cara fala: 'Ele é tão bom e joga na várzea'. Joga na várzea porque não é profissional. Foram 17 jogadores que saíram daqui".

Ele aponta ao campo de terra. "Se quiserem jogar só para não ficar na rua, aqui não é o lugar. Aqui é para quem tem respeito, para quem quer ser profissional".

Os atletas se dividem em dois times, vestem coletes verdes e vermelhos, se reúnem no centro do terrão e dizem palavras de incentivo. Antes de a bola rolar, gritam: "1, 2, 3 Jesus!". Um hino religioso desce o barranco vindo de uma igreja vizinha e atinge os jogadores e o técnico antes do jogo.

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Foi nesse terreno eclesiástico em Osasco, região metropolitana de São Paulo, que Ederson Moreira virou goleiro. Contam Giba e Ozias Matos, os dois fundadores da escolinha, que o goleiro que no futuro defenderia a seleção brasileira chegou ali com uns oito anos, jogando de lateral esquerdo.

"Ele era meio desengonçado com os pés e mandei pro gol", conta Giba, que sempre toma a mesma providência quando encontra um garoto ruim de linha. "Ele não gostou muito, mas fechava o gol e logo percebemos que tinha talento natural".

Ex-jogadores profissionais, os dois fundaram a escolinha como uma forma primeiro de tirar os meninos da rua e depois de revelar talentos para o futebol profissional. Evangélicos praticantes, escolheram um nome curioso: Ebenézer, um termo bíblico que significa "até aqui o Senhor nos ajudou". Depois Ozias acrescentou a palavra "champions" ao nome do projeto. "Para dar um algo a mais", disse ele.

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Entre as centenas de garotos que passaram pelo Champions Ebenézer, 17 vingaram. Esse número é repetido às gerações de jogadores mirins como uma forma de incentivá-los. O campo de terra laranja cercado por pequenos morros fica dentro de um espaço da prefeitura de Osasco, mas os treinadores dizem não receber salários desde janeiro e continuam dando aulas por amor à causa.

Nas paredes da sala em que Giba e Ozias descansam eles pregaram fotos de alguns dos 17 meninos que viraram profissionais. Ederson é a figura mais recorrente. "De todos eles, ele é o único que mostrou alguma gratidão, o único que jamais esqueceu de onde veio", conta Giba, mostrando algum ressentimento em relação a seus outros pupilos.

Ele perdeu a visão de um de seus olhos e reclama de nunca ter sido suficientemente ajudado por seus meninos que viraram profissionais.

No dia da entrevista, Giba escolheu vestir uma camisa oficial do Benfica com o nome de Ederson, um presente de seu ex-aluno e amigo. "Sempre que está de férias, ele vem aqui, brinca com os meninos, conversa com todo mundo", conta o professor. "Se ele estivesse aqui agora, você nem diria que ele é o Ederson."

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Morador de uma rua na vizinhança, o garoto apareceu por intermédio do irmão Remerson, que já jogava no Champions Ebenézer. Religiosa, sua família costumava frequentar orações na casa de Ozias e levava o garoto, que mais tarde tatuaria o corpo com frase bíblicas e referências a Deus. Mas sua trajetória no campinho de Osasco foi curta.

Fechou gol em um amistoso e, observado por Toninho Natal, um técnico de categorias de base, foi convidado a jogar no São Paulo. Dispensado aos 16 anos, voltou a bater bola no campinho perto de casa. Como goleiro não pode ficar parado, conta Giba, ele colocava Ederson em seu carro e o levava a Três Montanhas, um bairro de Osasco, onde três preparadores de goleiro davam treinos específicos ao garoto. "Ele saía de lá morto", lembra o professor.

Até que um dia apareceu um olheiro do Benfica e o levou embora a Portugal. Os especialistas dizem que Ederson tem tudo para ser o goleiro titular do Brasil no próximo Mundial.

Adriano Wilkson/UOL

Por mais que a história de sucesso do goleiro inspire os garotos de Osasco, não havia nenhum lá em uma sexta-feira recente que dissesse querer jogar futebol com as mãos. Os dois que estavam pegando no gol eram jogadores de linha escolhidos para a função só para quebrar um galho. Não tinham luvas, nem estatura para o metiê.

"Aqui o pessoal quer é fazer gol", disse Caio, um rapaz magro e baixo que joga de zagueiro ou volante normalmente. "Não sei por que os goleiros não estão vindo mais. Aí a gente tem que se revezar ali." Só ele já tinha salvo uns cinco gols naquela tarde. Seu time perdera de 15.

Talvez em sua próxima visita ao campinho de terra laranja, o goleiro mais caro do Brasil possa tentar mudar essa história.

* Em valor bruto, a venda de Ederson é a maior transferência de um goleiro na história, superando os 38,7 milhões de euros que a Juventus pagou por Buffon ao Parma em 2001. Porém, na ocasião, o time de Turim também cedeu os direitos federativos do Jonathan Bachini, que estavam avaliados em 15,5 milhões. Com a soma destes valores, Buffon segue sendo o goleiro mais caro da história do futebol.

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