Muito além de Luxa x Marcelinho: os bastidores do título do Grêmio em 2001

Emanuel Colombari e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

Em 2001, Tite era um treinador novato à frente do Grêmio. Bicampeão gaúcho pelo Caxias (2000) e pelo próprio Grêmio (2001), teria a chance de levantar seu primeiro troféu nacional justamente naquela temporada. A missão: conquistar a Copa do Brasil diante do Corinthians.

As finais não pareciam promissoras. No jogo de ida em Porto Alegre, o Corinthians chegou a abrir 2 a 0, graças a gols de Marcelinho Carioca e Müller, mas Luis Mário marcou duas vezes e garantiu o 2 a 2. Confronto decidido?

Nada disso. Na volta, a surpresa. Diante de cerca de 80 mil torcedores no Estádio do Morumbi, o Grêmio abriu 2 a 0, com gols de Marinho e Zinho; Ewerthon deu esperanças ao Corinthians com um gol na etapa final, mas Marcelinho Paraíba descontou nos minutos finais e deu o título ao Grêmio de Tite.

Aquelas finais, por outro lado, ficaram negativamente marcadas para o torcedor do Corinthians. Além do título perdido, o time paulista ainda viu o meia Marcelinho Carioca – brigado com Vanderlei Luxemburgo, então treinador corintiano – se transferir para o Santos.

Neste domingo, Grêmio e Corinthians se reencontram em Porto Alegre, em jogo pela 10ª rodada do Campeonato Brasileiro. O confronto, que reúne o líder (Corinthians) e o vice-líder (Grêmio) do Brasileirão, é fundamental para as pretensões dos dois times na campanha para o título. Por isso, o UOL Esporte falou com alguns dos protagonistas dos jogos das finais da Copa do Brasil de 2001, justamente o último título nacional decidido entre os dois times. Confira:

10 de junho, o jogo em Porto Alegre: já ganhou?

Para Ewerthon, aquele empate em 2 a 2 "não era um resultado ruim". "Era excelente, fora de casa. Chegando em São Paulo, a gente tinha conquistado o Campeonato Paulista (diante do Botafogo-SP) e tinha tudo para conquistar a Copa do Brasil em 2001", diz o ex-atacante, então revelação corintiana. Ele ainda foi além.

"Pela equipe que o Corinthians tinha, os jogadores que nós tínhamos, nós estávamos convictos de que íamos ganhar o título. Mas futebol é assim: quando cai numa tarde que não é boa… Infelizmente perdemos um título aí. E eu sempre cito para todo mundo que foi o título mais fácil que eu perdi na minha carreira."

Pela equipe que o Corinthians tinha (...), nós estávamos convictos de que íamos ganhar o título
Ewerthon, ex-Corinthians

Com o placar adverso em casa, o Grêmio precisou correr atrás do empate. No segundo tempo, Luís Mário marcou duas vezes e recolocou o time comandado por Tite na briga pelo título.

"Nos primeiros 15 minutos do primeiro tempo, nós jogamos bem. Fizemos uma pressão no Corinthians, mas não conseguimos fazer gol, e o Marcelinho Carioca fez - um chute que acertou no zagueiro Marinho. Foi uma infelicidade, (mas) aí o Corinthians cresceu no jogo", relembra Luís Mário, que marcaria o primeiro aproveitando uma sobra na área e faria o segundo arriscando um chute da intermediária.

"No segundo tempo, até os 20 min, o Corinthians jogou muito mais que o Grêmio. No jogo todo, eu estava muito confiante. Aí, comecei a chamar a responsabilidade para mim. Fiz algumas jogadas importantes e fui feliz no primeiro gol, quando a bola sobrou para mim e eu fiz o gol de perna esquerda. No segundo gol, eu fiz a jogada por dentro que o Maurício acabou aceitando. Acredito também que o Maurício não esperava aquele chute meu - ele estava de cabeça baixa e eu estava longe", completa.

Jefferson Bernardes/Folhapress
Em Porto Alegre, Corinthians abriu 2 a 0, mas Grêmio foi buscar o empate

O goleiro do Corinthians, por sua vez, assume a responsabilidade pelo segundo gol. "Até hoje eu me sinto meio culpado por aquele gol que eu tomei do Luís Mário. A bola não desviou em ninguém - ela bateu no chão na minha frente, mas eu me atrapalhei. Esse foi erro meu. Todo mundo viu que foi uma falha minha. Mas todo mundo erra, né?"

O resultado no Estádio Olímpico poderia ter sido pior, mas foi sentido no Grêmio. Abatido, o então lateral Ânderson Lima relembra as dificuldades que o time teria para superar na partida de volta.

"Sabíamos que seria difícil (o jogo de volta). Se o Corinthians empatasse em 0 a 0, 1 a 1, seria o campeão. Para a gente, o que importava era só a vitória. No contexto geral, a gente sabe que foi frustrante", completou.

Mulher no quarto? Na véspera da decisão, reunião

Entre o jogo de ida, em 10 de junho, e o jogo de volta, no dia 17, muita coisa rolou fora de campo. No sábado (16), véspera da partida em São Paulo, os jogadores do Corinthians teriam recebido mulheres no hotel onde haviam se concentrado, dando início a uma sequência de fatos complicados.

Os corintianos negam a versão. "A única coisa que teve é que outros jogadores de um outro time que estavam no hotel de folga estavam com mulheres lá, e ele (o técnico Vanderlei Luxemburgo) achou que os nossos jogadores também estavam", explica o goleiro Maurício. "As mulheres que estavam lá eram de programa ou alguma coisa assim, e ele (Luxemburgo) achou que os jogadores do Corinthians estavam com mulheres também. Da parte dos jogadores do Corinthians, não teve nada disso isso", completou, sem citar de qual time eram os jogadores citados.

João Carlos, então zagueiro do time e hoje treinador sem clube, também despista a respeito, mas nega a farra dos jogadores no hotel. "Eu sei quem é, mas não posso falar. Os caras não tinham nada a ver, são pessoas casadas", resume.

O episódio levou Luxemburgo a se reunir com os jogadores de madrugada em busca de esclarecimentos.

Ali começava um período mais tenso e intenso do desentendimento entre Luxemburgo e o então meia Marcelinho Carioca. Anos depois, em 2007, os dois bateram boca em um programa esportivo da Rede Bandeirantes, no qual Luxa disse já ter retirado mulher do quarto do então atleta.

Juca Varella/Folhapress
Luxemburgo e Marcelinho se desentenderam na véspera de jogo decisivo

Os jogadores, por sua vez, dizem que a tal acusação a Marcelinho não foi especificamente abordada na reunião. "Não foi uma briga do Marcelo. Foi um desentendimento do grupo no sábado, na véspera do jogo. Nós tivemos uma reunião até tarde da noite, mas isso (reunião) não interferiu (no resultado)", diz Ewerthon.

"Quando se perde, vai se pegar os pequenos pontos e falar que foi por causa disso ou daquilo. Não foi por causa disso; foi porque nós tivemos uma desatenção. Treinamos a semana inteira e sabíamos que a grande jogada do Grêmio era a bola no primeiro pau. Treinamos muito na semana, treinamos tudo que eles tinham de forte", acrescentou.

Ewerthon engrossou o coro. "Eu não vou citar nomes porque isso não aconteceu. Houve um desentendimento interno dentro do nosso elenco, e aí tivemos uma reunião com o Vanderlei. Agora, fora de cogitação falar que foi o Marcelinho Carioca", assegura. "Foi um desentendimento que fica lá, dentro do futebol, coisas que acontecem dentro dos bastidores do futebol. Fica lá, já passou. Faz parte do passado."

O que não quer dizer, no entanto, que Luxemburgo não tenha tentado descobrir detalhes a respeito da suposta presença de mulheres no hotel.

"A gente ficava em um andar e os seguranças dele ficavam direto. Onde você descia tinha segurança. Como uma pessoa poderia fazer alguma coisa?", questiona Maurício. "Ele chamava, fazia a reunião, dizia que ia descobrir se era verdade que tinha entrado mulher e não sei o quê… Então, a pessoa não dormindo direito, perturbada, em uma concentração para jogar no outro dia contra uma equipe igual era a do Grêmio… Complicado, né?"

A gente ficava em um andar e os seguranças dele ficavam direto. Onde você descia tinha segurança. Como uma pessoa poderia fazer alguma coisa?
Maurício, ex-Corinthians

A reunião, dizem os jogadores do Corinthians, terminou durante a madrugada. Mas se a noite mal dormida atrapalhou o time paulista, os jogadores do Grêmio garantem que não perceberam em campo. Pelo contrário.

"A gente ficou sabendo dessa semana conturbada do Corinthians quando estávamos no hotel, mas eu penso que tinha muitos jogadores experientes lá no Corinthians. Não acho que (o Corinthians) perdeu o título por isso, não. Na real, é que o nosso time fez um grande jogo. Foi um jogo épico porque nós dominamos o jogo do início ao fim", diz o ex-atacante Luís Mário, que defendeu o Corinthians entre 1998 e 2000, chegando ao Grêmio justamente em 2001.

Opinião semelhante tem Zinho, titular do meio-campo gremistas nos dois jogos das finais. "Aí é uma coisa mais interna deles", diz.

Segundo jogo: pesou a polêmica da véspera?

A partida no Morumbi começou equilibrada, e o Corinthians dava mostras de que não deixaria um tropeço levar o título para o Rio Grande do Sul. Desatenção? Cansaço? Noite mal dormida? Para os gremistas, o time de Luxemburgo começou o jogo dando trabalho.

"Até os 10 min de jogo, o Corinthians veio para cima. Eu lembro que o Anderson Polga tirou uma bola quase de dentro do gol. Vi o Corinthians muito atento, querendo vencer o jogo, querendo conquistar o título. Só que o nosso time era muito perigoso", reforçou o próprio Luís Mário. "A gente era muito perigoso no contra-ataque, gostava de jogar fora de casa, porque a gente tinha um contra-ataque muito rápido. Acho que foi um fator importantíssimo ali: o nosso jogo foi muito bem trabalhado e rápido", completa.

Sem ceder à pressão, o Grêmio abriu o placar aos 42 min do primeiro tempo. Após cobrança de escanteio pelo lado esquerdo do ataque, Marinho apareceu na primeira trave e desviou de cabeça para o gol de Maurício. Para piorar a situação corintiana, aos 2 min do segundo tempo, João Carlos perdeu a bola na defesa para Marcelinho Paraíba, que rolou para a área; sozinho, Zinho bateu cruzado e ampliou.

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Marinho abriu o placar no fim do primeiro tempo; no começo do segundo, Zinho ampliou

"Era um lance fácil. Eu podia jogar a bola para a lateral vendo que o atacante estava vindo", lamenta ainda hoje João Carlos. "No jogo, eu via que eu não estava legal. Também via que a maioria dos jogadores também não estava legal - reflexo de tudo o que aconteceu", completou, citando a conturbada noite anterior ao jogo.

No jogo, eu via que eu não estava legal. Também via que a maioria dos jogadores também não estava legal
João Carlos, ex-Corinthians

Se o Corinthians entrou em campo longe das condições ideias, o Grêmio aproveitou. E o canhoto Zinho, que completava 34 anos naquele dia, aproveitou para fazer um de seus gols de perna direita.

"A perna direita não era a minha força - para canhoto, é mais difícil usar tanto a perna direita. Tive alguns momentos assim, Não era o meu forte, mas parece que eu gostava de fazer só na final, né?", brinca Zinho, hoje comentarista da Fox Sports. Foi também de pé direito que ele marcou o primeiro gol da vitória do Palmeiras por 4 a 0 sobre o Corinthians nas finais do Campeonato Paulista de 1993.

A esperança corintiana se reacendeu aos 30 min da etapa final. Após arrancada da intermediária, Ewerthon invadiu a área pela direita e bateu cruzado. Danrlei aceitou.

No fim, porém, o Grêmio decidiu o jogo. Aos 42 min, Zinho tocou da entrada da área para Fábio Baiano; da direita, ele tocou rasteiro para Marcelinho Paraíba, que recebeu em condição legal na pequena área – João Carlos, sem sucesso, tentou interceptar a jogada. Com o gol aberto, o camisa 10 escorou com tranquilidade para as redes, selando a conquista.

Eduardo Knapp/Folhapress
Corinthians fez pressão, mas Marcelinho Paraíba selou a conquista do Grêmio em SP

"No segundo jogo, infelizmente, tivemos uma tarde muito ruim. Saímos de cara atrás do marcador e depois o Grêmio fez 2 a 0. Eu fiz 2 a 1 e, depois da infelicidade também da nossa zaga, acabamos tomando o terceiro gol", relembra Ewerthon. "É claro que o Grêmio tinha uma grande equipe naquela época, naquele momento, com grandes jogadores - Marcelinho Paraíba, Zinho, Mauro Galvão, Marinho, Danrlei, Luís Mário. Tinha uma grande equipe também."

Por que o Grêmio ganhou?

Hoje, Zinho comemora sua participação naquele jogo. Segundo ele, foi uma de suas melhores apresentações com a camisa do Grêmio.

"Eu era o capitão do time e levantei a taça. Fiquei marcado na história do Grêmio, botei meu pé na Calçada da Fama… Tudo por causa desse jogo. O jogo em si foi um dos melhores que eu fiz na minha carreira: joguei muito bem, participei dos três gols, bati o escanteio para o gol do Marinho, fiz o gol de pé direito, participei da triangulação com o Fabio Baiano para o Marcelinho Paraíba fazer o terceiro gol… modéstia à parte, foi um dos melhores jogos meus, e o coletivo do nosso time foi muito bom, porque o nosso time era muito forte nisso", avalia o ex-meia, que também destaca a participação do então novato Tite na conquista.

"Com o esquema montado pelo Tite, a gente jogava com três zagueiros. Fizemos uma competição muito regular, sólida. No 2 a 2, muita gente falava: 'Pô, o Corinthians joga por 0 a 0, 1 a 1'… Isso não nos afetou, pelo contrário. Por a gente ter buscado o empate no primeiro jogo, isso nos deu uma motivação para o segundo jogo. A preleção do Tite foi muito boa. A parte motivacional foi muito bem trabalhada", acrescentou.

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Trabalho de Tite no Grêmio foi elogiado pelos jogadores do time em 2001

O trabalho do técnico – que depois faria história justamente no Corinthians – também foi elogiado por Anderson Lima. Hoje auxiliar-técnico no Água Santa, time que disputa a Série A2 do Campeonato Paulista, o ex-lateral relembra a confiança passada pelo treinador na ocasião.

"A gente se preparou, o time estava muito bem preparado, muito bem treinado pelo Tite. A gente tinha confiança. É claro que a gente não tinha a soberba que poderia ganhar, mas tínhamos a confiança que poderíamos fazer uma boa partida. O Tite implantou o 3-5-2, e foi o melhor 3-5-2 que eu já vi no futebol brasileiro", disse, indo além.

"Dentro de campo, o Grêmio se impôs muito, e o Corinthians realmente tomou o golpe, não reagiu (ao 2 a 0 em SP). Eu não sei como aconteceu isso, mas a nossa equipe entrou muito forte. É claro que a gente ficou sabendo do que aconteceu no hotel, mas isso não é um problema nosso. Senti o Corinthians diferente do que foi o Corinthians em Porto Alegre, com certeza", completou.

Por que o Corinthians perdeu?

Os ex-jogadores do Corinthians consultados são unânimes ao apontar a polêmica a respeito da presença de mulheres no hotel e a reunião da véspera do jogo como fatores fundamentais para explicar a derrota de 17 de junho de 2001. Aí, sobrou para Luxemburgo.

"Lógico que somos nós que entramos em campo, mas na semana (do segundo jogo), ele não deu treino. Treinador tem que dar o treino, tem que passar o que nós vamos fazer em campo, a tática, o esquema que ele quer implantar pro jogo. O Luxemburgo era um treinador que falava muito do adversário, a gente entrava dentro de campo sabendo de tudo do adversário; nesse jogo, ele não falou nada", afirma o ex-zagueiro João Carlos.

"Foi um título que eu pessoalmente lamento até hoje de ter perdido, porque o título estava nas nossas mãos. Só que, no dia a dia, na semana para o segundo jogo, na véspera do jogo, no dia do jogo… Foi muito confuso, isso aí tirou muito a nossa concentração. Nosso vestiário era muito alegre, sempre brincamos, descontraíamos para os jogos; nesse dia, parecia um velório, só tristeza. Indo para o Morumbi foi o pior ambiente que eu já vi foi no dia do jogo. Entramos apáticos por tudo o que aconteceu", completou.

O ambiente conturbado também foi citado por Maurício. E, a exemplo de João Carlos, o ex-goleiro relembrou a falta de treinos na semana.

"Durante a semana, não treinamos direito, não nos concentramos direito. Foi uma semana conturbada com o Vanderlei. A gente jogou muito mal, não concentrou direito. A semana não foi boa", opinou Maurício – sem, no entanto, fazer críticas contundentes a Luxemburgo.

Juca Varella/Folha Imagem
Para ex-goleiro Maurício, programação na semana do jogo atrapalhou Corinthians

"Não sei se ele (Luxemburgo) foi o culpado, porque nós (jogadores) é que entramos em campo. Mas ele não deu treino para nós. Todo final de campeonato em que a gente disputava títulos, a gente viajava para Atibaia, concentrávamos dois ou três dias antes, ou ficava uma semana na concentração para disputar o título. Naquela semana, o Vanderlei não quis nem concentrar. Nós concentramos no sábado mesmo, em São Paulo. Acho que nós perdemos ali. O comportamento do Vanderlei foi totalmente diferente aquela semana", acrescentou.

Ainda assim, o então goleiro criticou a reunião da noite de sábado. "Toda hora tinha reunião, reunião, até 1h, 2h da manhã… Foi uma noite conturbada e as coisas depois não deram certo", diz Maurício.

Procurado, Luxemburgo não retornou a reportagem para comentar o que aconteceu antes daquela decisão.

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