Como a filha de Roger aceitou e decidiu sobre a própria deficiência

Luiza Oliveira

Do UOL, em São Paulo

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    Giulia ficou famosa após matéria com o pai Roger, atacante do Botafogo

    Giulia ficou famosa após matéria com o pai Roger, atacante do Botafogo

"Mamãe, você já me perguntou se eu quero enxergar?".

Foi em um dia comum, ao sair do banho, que Giulia, filha do atacante Roger, fez a pergunta que a mãe Elizabeth jamais imaginaria ouvir. "Não, filha. Você quer enxergar?". E se surpreendeu mais uma vez com a resposta: "Não, mamãe. Eu sou feliz assim".

Elizabeth ganhou uma baita lição e entendeu que o desejo dela não era, necessariamente, o da filha. Mais que isso, viu que a pequena já tinha condições de fazer as suas próprias escolhas e saber o que a fazia feliz de verdade. Mesmo com seus dez anos.

A pouca idade foi suficiente para Giulia passar por muita coisa. Foi submetida a um tratamento agressivo na China na tentativa de enxergar. No ano passado, a mãe se animou diante de uma nova possibilidade ao assistir a uma reportagem no Programa do Gugu sobre um método 'revolucionário' surgido na Tailândia. "Mamãe, posso te pedir uma coisa? Não mexe mais com isso, não!". Assunto encerrado.

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Não é difícil perceber como Giulia é feliz e aceita a sua condição. Foi justamente o que encantou o Brasil inteiro na matéria veiculada pela TV Globo em que ela 'viu' um gol do pai por meio de uma impressão em 3D. "A minha felicidade vem de Deus, só pode ser dele, se não fosse dele, não teria de onde vir. Amor por Deus. Ele ama cada um e fez a pessoa do jeito que achava que devia ser. Todo mundo nasceu perfeito, então a gente tem que dar valor ao que somos, somos perfeitos à nossa maneira", disse ela, ao UOL Esporte.

Giulia não encontra motivos para reclamar da vida e muito menos necessidade de viver em busca de uma realidade que não vai mudar. Afinal, ela é uma criança saudável, ativa, inteligente, cheia de amigos e com a autoestima lá em cima desde os primeiros passos, quando a babá Ângela a soltava no meio das outras crianças para brincar: 'Se vira, você pode'.

"Temos uma família unida que sempre deu muito amor a ela e sempre mostramos o cuidado de Deus com ela. Eu não vou manter a minha filha dentro de casa. Ela vai fazer tudo o que puder, tudo o que tiver direito", conta a mãe. "Ela é muito inteligente, independente, faz tudo, nunca ficou excluída. Às vezes tem uma criança cega que ninguém corrige a lição porque acha que não é capaz de fazer. A minha filha é capaz. Ela acorda sozinha, liga a TV, vai ao banheiro, pega copo de água, tudo. Ela se vira".

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Tratamentos difíceis do outro lado do mundo

Para a família, a aceitação não foi tão fácil. Roger e Elizabeth fizeram tudo o que podiam para dar a visão à filha. A luta começou aos três meses de idade, quando veio o diagnóstico de displasia septo-óptica, uma deficiência causada por má formações da linha média do sistema nervoso central.

Elizabeth deixou o bebê Nícolas, que ainda amamentava, em casa, e partiu com a filha de três anos para um tratamento experimental na China. Giulia foi submetida a um processo pesado em que tomava oito injeções de uma vez. Foram os piores 45 dias da vida da menina.

"Ela tomava quatro injeções intravenosas e quatro na espinha. Tinha de ficar em jejum desde 6h, tomava anestesia geral e dormia. Levavam ela para um bloco cirúrgico e tinha uma faixa amarela que eu não podia passar. Eu ficava com o coração na mão. Quando ela voltava, ela tinha que ficar mais 2h sem se mexer porque o líquido não podia escorrer pela espinha porque poderia paralisar as pernas. Era muito agressivo. Ela passava por um monte de aparelho, de choque, para estimular o nervo. E tinham seções de acupuntura com agulhadas no rosto, no olho. Ela chorava, não queria. Eu entrava no chuveiro e chorava todos os dias. Mas eu pensava: estou passando por isso por algum propósito", conta.

A experiência traumática não foi a única tentativa. Quando moravam na Coreia e Roger jogava no Suwon Bluewings, em 2014, Giulia também passou por exames com robôs para um processo inovador. Nada confortável. As experiências não trouxeram arrependimento, mas sim alívio por terem tentado de tudo. E, por fim, a aceitação.

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Preconceito e dificuldades na escola

Outras provações ainda estavam por vir. A maior parte delas vindas de quem deveria ajudar a educar e construir. Elizabeth perdeu as contas de quantas vezes deu com a cara na porta porque disseram 'não' para a sua filha. Quando Roger fechou com o Botafogo, ela viajou de Campinas até o Rio para visitar uma instituição para cegos. Ficou na fila de 9h às 16h e não conseguiu ser atendida.

Hoje, Giulia estuda em uma escola particular que lhe dá atenção, mas não a estrutura que merece. Até hoje ela não tem os mesmos livros dos colegas porque não existe uma versão em braile. Por isso, ela faz aulas com professores particulares de português e matemática, as disciplinas mais difíceis para ela.

Pior que isso só o preconceito de alguns coleguinhas com questões do tipo: "Por que você não enxerga?" ou "você não vai ler porque você não vai conseguir". A mãe conta que certa vez um menino colocou algumas canetas bem diante dos olhos da menina e pediu para ela dizer o que era. Giulia foi ensinada desde pequena a se defender e deu a melhor resposta.

"Eu não enxergo com os olhos, mas eu enxergo com o coração. Pode por na minha mão que eu vou sentir e te dizer o que é".

Fama após reportagem

Mesmo com as dificuldades, Giulia sabe que é uma privilegiada. E ela quer usar a visibilidade que conquistou com a matéria da TV Globo para se tornar um símbolo da causa. Carismática e expressiva, ela ganhou um batalhão de fãs e criou uma conta no Instagram. Já tem quase 4 mil seguidores em apenas dois dias.

Na última semana, ela fez "lives" para contar o seu dia a dia agitado (aula, natação, jiu jitsu, etc) e responder às várias perguntas dos seguidores. Assim, tem ajudado pessoas que têm a mesma deficiência. Surge de tudo: desde como ela faz contas de matemática até como funciona sua higiene pessoal. E ela já escuta relatos mais profundos das pessoas. Um homem, por exemplo, enviou uma mensagem dizendo que sofre de depressão e que saiu da cama após ver a matéria. Outro a abraçou chorando no shopping.

"Tem muitas pessoas parando para tirar foto, falando que mudei a vida delas, falando que eu fui um grande exemplo. Eu gostaria de ajudar as pessoas, contando como faço as minhas coisas para elas aprenderem".

A família quer que Giulia sirva a um bem maior. Acha que ela pode se tornar símbolo da causa, fazer campanhas e até ajudar a família a abrir um instituto voltado para deficientes visuais em Campinas em um futuro próximo. "Falo para o Roger que a gente tem de levantar uma bandeira. Graças a Deus, a minha filha tem condições de ter uma máquina em braile, um colégio particular, um professor particular. Mas e quem não tem? Às vezes a gente chora e sente a dor da pessoa mais humilde. A gente tem condições. A gente quer ajudar essas pessoas", conta a mãe.

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