Técnico supera atrito com CR7 e sanções dos EUA e põe Irã na Copa de novo

Leandro Miranda

Do UOL, em São Paulo

  • AP Photo/Martin Meissner

    Carlos Queiroz revitalizou a seleção do Irã e virou ídolo no país

    Carlos Queiroz revitalizou a seleção do Irã e virou ídolo no país

Carlos Queiroz já era um nome muito respeitado no futebol europeu por seu trabalho como assistente de Alex Ferguson no Manchester United. Comandou o Real Madrid e realizou um sonho profissional ao dirigir a seleção de seu país, Portugal, na Copa do Mundo de 2010. Mas foi no nada pomposo Irã que o treinador, hoje com 64 anos, alcançou o maior nível de idolatria de sua carreira.

Após fazer história e classificar a seleção asiática a duas Copas consecutivas pela primeira vez, Queiroz se tornou o rosto e a voz do futebol iraniano. O caminho trilhado desde sua chegada, porém, foi repleto de obstáculos – o que torna ainda mais impressionante o feito de se tornar a segunda seleção a garantir no campo a vaga no Mundial da Rússia (a primeira foi o Brasil).

Desde polêmicas com seu compatriota Cristiano Ronaldo até as sanções internacionais contra o Irã lideradas pelos Estados Unidos, passando por brigas com a própria federação do país e a falta de experiência internacional de seus atletas. Estes foram alguns dos problemas superados por Queiroz para fazer do Irã a melhor seleção asiática no ranking da Fifa (30º lugar).

Fiasco no Real e atrito com CR7

Estela Silva/EFE

Quando chegou à seleção do Irã, em 2011, Queiroz vinha de experiências profissionais ruins. A passagem pelo Real Madrid na temporada 2003/04 foi fracassada – seus métodos rígidos e ênfase na organização defensiva não combinaram com o time, e ele durou só um ano no cargo. Ele voltou ao United para ser auxiliar de Ferguson até 2008, quando foi convidado para treinar a seleção portuguesa.

Dirigindo a equipe de seu país, mais uma passagem criticada. Conseguiu se classificar à Copa de 2010, mas um com um time tido como excessivamente cauteloso, que não empolgava a torcida. No Mundial, só fez gols contra a Coreia do Norte, em uma vitória por 7 a 0. Após empates sem gols com Costa do Marfim e Brasil na primeira fase, a equipe caiu nas oitavas para a Espanha, por 1 a 0.

Após a eliminação, o astro Cristiano Ronaldo foi direto ao ser questionado sobre a derrota: "Pergunte a Queiroz". O técnico não comentou o caso na época, mas anos depois admitiu que se sentiu magoado com o jogador e que os dois nunca mais conversaram. Na eleição para melhor do mundo de 2016, Queiroz não votou em CR7, mas em Messi. O craque português ganhou o prêmio.

Barreiras dentro e fora de campo

Jamie McDonald/Getty Images

Há seis anos, Queiroz aceitou o desafio de comandar a seleção iraniana para reoxigenar a carreira, com um contrato até o final da Copa do Mundo de 2014. Logo de cara, as dificuldades ficaram evidentes para o português, acostumado a trabalhar em centros de excelência como Real Madrid e Manchester United: a federação iraniana tinha sérios problemas financeiros, decorrentes especialmente das sanções econômicas impostas ao Irã pela comunidade internacional, liderada pelos Estados Unidos, por causa do programa nuclear do país.

Na campanha de classificação para o Mundial do Brasil, Queiroz chegou a ter problemas até para encontrar lugares para treinar, e alguns períodos de treinos foram cancelados por falta de dinheiro. Era difícil marcar amistosos contra adversários qualificados, o que complicava ainda mais o desenvolvimento de uma equipe repleta de jogadores sem experiência internacional.

A solução encontrada? Trabalho, muito trabalho. Com condições abaixo do ideal, Queiroz se concentrou em formar um grupo coeso de jogadores, mantendo uma regularidade nas convocações, e implantou com eficácia suas ideias de futebol: um time defensivo, organizado, aplicado. Ver o Irã em campo era assistir a um conjunto de atletas que fazia movimentos coordenados como máquina, sufocando o adversário em um bloco compacto e negando espaços. Já na parte criativa, o time sofria, e dependia basicamente de jogadas aéreas e bolas paradas.

Na Copa de 2014, que começou com um festival de gols e partidas espetaculares, o primeiro 0 a 0 foi inevitavelmente do Irã: o time protagonizou um empate bastante esquecível contra a Nigéria em Curitiba. A equipe acabou eliminada na primeira fase, mas saiu de cabeça erguida: perdeu para a Argentina por 1 a 0 só por causa de um golaço de Messi nos minutos finais, e acabou derrotada pela Bósnia por 3 a 1 no jogo que definiu a eliminação na última rodada.

Mais prestígio, mais problemas

Jamie McDonald/Getty Images

Queiroz ganhou muita moral após a campanha de 2014 e renovou seu contrato, mas os problemas continuaram. No ano seguinte, o treinador disparou contra a federação iraniana pela falta de verba e de planejamento para o desenvolvimento de novos jogadores, algo que havia sido prometido a ele. A entidade nacional se defendeu dizendo que a Fifa não havia liberado os fundos pela participação da seleção na Copa do Mundo, por causa das sanções internacionais.

O treinador chegou a abandonar o cargo em 2015 por atritos com a federação, mas voltou atrás duas semanas depois. Também teve que encarar críticas de Branko Ivankovic, técnico do clube mais popular do Irã, o Persepolis, que reclamou que as convocações estavam prejudicando sua equipe. Nada disso impediu o constante desenvolvimento da seleção, que mesmo com um plano de preparação para as Eliminatórias rejeitado por falta de verbas, conseguiu a classificação ao Mundial da Rússia.

Com uma linha de trabalho constante há seis anos, o Irã de hoje é pouco diferente do de 2014: na segunda fase das Eliminatórias da Ásia, por exemplo, não sofreu um único gol em oito jogos. Marcou só oito vezes, mas foi o suficiente para conquistar seis vitórias, dois empates e a classificação à Copa. O estilo não é ofensivo nem atraente – mas quem se importa? Certamente não os torcedores do Irã, uma nação apaixonada por futebol e que, hoje, tem em Queiroz o seu craque.

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