Meninos? Meninas mais velhas? Sub-15 feminino detona e quer conquistar o SP

Bruno Grossi

Do UOL, em São Paulo (SP)

  • Divulgação/São Paulo FC

    Meninas do sub-15 foram homenageadas no intervalo de jogo no Morumbi

    Meninas do sub-15 foram homenageadas no intervalo de jogo no Morumbi

Há duas semanas, terminou o primeiro Campeonato Paulista Feminino Sub-17. O São Paulo ficou com o título, em parceria com o Centro Olímpico, mas o clube do Morumbi está em segundo plano, por enquanto. Os holofotes devem ser voltados para uma geração que atropelou a diferença de até quatro anos para as adversárias. As meninas que brilharam este ano já haviam derrubado rivais masculinos para serem campeãs em 2016. E agora esperam para saber o que o Tricolor fará com tanto talento e tamanha oportunidade.

A história da máquina que é o time sub-15 do Centro Olímpico, que fez brilhar os olhos são-paulinos, foi contada pelo site Dibradoras em 22 de junho. No ano passado, preocupado em dar mais rodagem e experiência às meninas, o clube decidiu levá-las para a disputa da Copa Moleque Travesso, competição masculina e sub-13. Houve quem torcesse o nariz, quem duvidasse. Mas houve quem respeitasse, lutasse e comemorasse o título no fim. "Surpreendemos a todos", vibra a zagueira e capitã Lauren, de 14 anos, ao UOL Esporte

O São Paulo entra no roteiro ainda no fim de 2016. Para começar a se adequar às exigências do Profut e da Conmebol, o clube decidiu entrar mais uma vez no futebol feminino. O Centro Olímpico, tradicional celeiro de craques para a modalidade, foi procurado, mas havia um problema. As meninas do sub-17 já estavam inscritas para o Paulistão. Os tricolores, então, receberam o presente de contar com o grupo que havia desafiado e derrubado barreiras na Moleque Travesso. "Demos a garantia de que o time era forte e eles toparam", conta o técnico Thiago Viana.

Com 13, 14 e 15 anos, as meninas ganharam uniformes novos, equipamentos de treino, um novo local para revezar os treinos, verba para viagens e alimentação. O São Paulo usou a sede social do Morumbi para acolher a talentosa geração, que provou o valor em campo ao ser a melhor das 17 equipes participantes do Paulistão. Foram nove vitórias, dois empates e uma derrota, com 25 gols marcados e seis sofridos. O título veio contra o São José, fora de casa, e contou até com vitória sobre o próprio Centro Olímpico e suas meninas mais velhas.

Divulgação/São Paulo FC
Time sub-15 do São Paulo foi campeão contra o São José

"Nós podemos chegar onde quisermos se tivermos muita garra. E foi isso o que nós mostramos", avisa Giovanna, ponta direita de 14 anos e vice-artilheira do Paulistão com cinco gols. Thiago Viana, o Centro Olímpico e uma figura importante no futebol feminino do Brasil têm certeza de que ela está com a razão. Agora, querem convencer o São Paulo a apostar mais uma vez nessa e em outras gerações. A parceria, a princípio, está encerrada, mas já há negociações para que seja retomada com novos moldes, mais ampla e duradoura.

"Fiquei muito feliz, era um sonho jogar no São Paulo, ainda mais sendo torcedora do clube. Mas é triste saber que os times femininos foram desmontados várias vezes aqui. Com toda a estrutura que eles têm para os homens, por que não manter um time feminino também?", questiona Giovana, que acompanhou as colegas de time em volta olímpica no Morumbi no último domingo, durante o jogo contra o Fluminense, e em homenagem feita pelo Conselho Deliberativo do Tricolor na segunda-feira.

Em nome da lei

Houve, de fato, quem incentivasse o investimento no futebol feminino como um movimento mais espontâneo e de consciência social no São Paulo. Um dos entusiastas era o então diretor-executivo de futebol Marco Aurélio Cunha, que estava de licença do atual cargo de coordenador de seleções femininas da CBF. É preciso lembrar, no entanto, que investir na modalidade agora é uma obrigação dos clubes, tanto pelas adequações ao Profut, lei de refinanciamento das dívidas fiscais dos clubes, quanto pelas novas regras da Conmebol para participação na Copa Libertadores da América.

"Elas esperaram muito tempo pela boa vontade dos dirigentes, algo que nunca existiu. A partir do momento em que a lei impõe, mexe com a parte financeira dos clubes, impostos, eles começam a se mexer. A lei faz toda diferença para a modalidade avançar, ou então ficaria sempre estagnada", opina Thiago Viana, que já vê sua capitã Lauren pronta para defender a mesma tese com personalidade: "Essa lei foi muito boa para nós. Os clubes agora precisam investir no futebol feminino, mas ainda pode ser muito melhor. O investimento ainda não é grande, precisa melhorar".

Feitas as homenagens às meninas do sub-15, o São Paulo agora discute como ampliar a parceria com o Centro Olímpico, dando sequência ao projeto colocado em prática por Rogério Hamam, superintendente de desenvolvimento e governança do Tricolor. "Não pode ser apenas a nossa categoria, eles precisam investir em tudo o que o Centro Olímpico tem", pede Giovanna.

Marco Aurélio Cunha concorda, e defende: "O São Paulo precisa estruturar esse projeto. Quem der condições e garantias agora, terá um time forte no futuro, ainda mais com essa geração do sub-15. Quem deixar para ter time na hora H, quando a lei não der mais brechas, vai passar apuros. E o São Paulo tem essa chance de planejar uma equipe que pode ser trabalhada pelos próximos três ou quatro anos para representar o profissional. Futebol é socialização, oportunidade e igual para todos. Tem de ser assim. E o feminino é irreversível, não tem volta".

Arquivo histórico/São Paulo FC
Lendário time feminino do São Paulo completou 20 anos do primeiro título

Resgate do Orgulho

Em 28 de junho de 1997, o São Paulo ganhava seu primeiro título no futebol feminino, também um Paulistão. As cores do clube eram defendidas por nomes lendários como Formiga, Kátia Cilene e Sissi, que ouviam a torcida clamar para que fossem utilizadas na equipe masculina, que atravessava má fase. Os tempos áureos passaram, e a imagem que chegou para as meninas do sub-15 do Centro Olímpico, foi a do fracasso do time formado em 2015, que sofreu com atrasos salariais, corta de verba e fim repentino do projeto bancado pelo Capes (Centro de Apoio Profissionalizante, Educacional e Social).

"Repetir esses momentos bons e ter os nossos marcados na história do futebol é um sonho. Elas são grandes atletas que servem de inspiração para todas. Temos que levar essa comparação para o lado bom, pois estamos ganhando mais visibilidade e mídia", pondera Lauren.

Preconceito enraizado

A são-paulina Giovanna diz viver uma "felicidade inexplicável" pela conquista pelo Tricolor contra atletas mais velhas no último dia 18, pelo avanço do futebol feminino e pelo destaque alcançado pelo Centro Olímpico. Mas a trajetória do time sub-15 guardou momentos de angústia na disputa da Copa Moleque Travesso, quando os pais dos meninos derrotados xingavam os filhos pelo simples fato de terem perdido, com justiça, de um time formado por meninas.

"Foi muito triste ver um pai xingar o filho porque perdeu para as meninas. Isso só mostra como essas pessoas colocam nosso futebol em um nível abaixo. E não é bem assim. Os meninos ficarem bravos pela derrota, tudo bem. O problema era ver a atitude dos pais", relata Giovanna. Esse tipo de cena foi recorrente, lembra o técnico Thiago Viana, que chegou a presenciar um pai pedindo que o filho agredisse uma das atletas do Centro Olímpico por considerar que, por serem mulher, se perderia emocionalmente com mais facilidade.

"Foi um choque muito grande dos pais dos meninos, um tapa na cara deles. Ainda mais com elas sendo campeãs. Foi o choque cultural. Tinha agressão verbal com os filhos pelo inconformismo de perder para as meninas. Os meninos em si não reclamavam, jogavam na bola. Um pai ficava pedindo para tentar agredir as meninas, por achar que são emotivas demais, que se desestabilizariam. Só que elas levam tudo isso como motivação. Temos um trabalho forte com elas de psicologia, e isso serve para elas se superarem. Elas se tornaram competitivas, poucas coisas abalam essas meninas", exalta o treinador.

O futuro é hoje

Se você já se pegou criticando o discurso vazio de jogadores de futebol, tratando como clichê as respostas nas entrevistas, certamente foi surpreendido pela maturidade de Lauren e Giovanna. Aos 14 anos, elas buscam conhecer a realidade do esporte que praticam, informações sobre a lei que pode mudar o futuro delas e tornar o futebol uma profissão real, concreta, não mais um sonho distante. "O nosso futuro está nisso e é muito mais difícil para nós. Há times masculinos em todo canto, mas e femininos?", indaga Giovanna.

Para Marco Aurélio Cunha, o futebol é uma rodovia que liga uma cidade grande ao litoral, em dia de feriado. "No lado que desce para a praia, há trânsito, muitos carros, pouco espaço para crescer. Esse é o futebol masculino. Do outro, na subida, a estrada está vazia, com o caminho livre para avançar. É o futebol feminino, que agora pode ser tratado como profissão. O momento é de expansão. Antes, os pais tinham vergonha, forçavam as filhas a frequentar aulas de ginástica, de vôlei... Agora, procuram a gente pelo futebol", relata o dirigente da CBF.

Lauren também vê o preconceito diminuindo, deixando as portas abertas para mais meninas se arriscarem no futebol: "As pessoas agora vão atrás dos times. Eu e minhas companheiras não temos nenhum problema mais com incentivo familiar. Muito pelo contrário. As famílias estão sempre presentes para apoiar e incentivar. E isso ajuda muito". 

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