Montillo quase não atuou, mas emocionou e deixou saudades no Botafogo

Bernardo Gentile e Bruno Braz

Do UOL, no Rio de Janeiro

  • Bruno Braz / UOL Esporte

    Fisioterapeuta do Botafogo se emociona e chora ao se despedir de Montillo

    Fisioterapeuta do Botafogo se emociona e chora ao se despedir de Montillo

O relógio marca 12h10. Montillo encosta seu carro na entrada do estádio Nilton Santos e, acompanhado de sua família, aguarda Edson, segurança e porteiro do local, realizar a ação de todos os dias de abrir o portão para a entrada do jogador. O roteiro esperado era o mesmo: baixar o vidro, dar o tradicional "boa tarde" e acelerar até o estacionamento. Esta quinta-feira, porém, era diferente e reservava fortes emoções. A começar por ali mesmo, longe das câmeras e holofotes quando, inesperadamente, Edson desabou em lágrimas. Era o pontapé inicial para a sua despedida do futebol.

Sim, foram só seis meses de Botafogo. Sim, em quase nada Montillo contribuiu dentro de campo para o clube, mas tente falar mal do argentino lá dentro. Atencioso, humilde e bom de papo, ele conquistou os funcionários alvinegros.

"Esse cara é gente boa demais. Sempre tratou todo mundo bem. Do porteiro ao presidente. Sempre chegava, dava bom dia para todo mundo. Vai deixar saudades", disse Edson ao UOL Esporte em bate-papo informal, encostado num cantinho da sala de imprensa, onde se emocionava com o discurso de despedida do meia.

Tímido, o segurança preferiu não gravar e dar entrevistas oficialmente, mas ganhou protagonismo quando, surpreso, presenciou Montillo revelar que ele havia sido o responsável pelo momento de maior emoção do jogador no Nilton Santos.

"Quando encontrei o segurança hoje na porta, ele começou a chorar. Isso me deixa feliz. Esse carinho que deixo como jogador de futebol. O carinho é pelo dia a dia. Me mostrei como sou, com os pés no chão. Sou igual a todos. Respeito todo mundo. Não olho ninguém de cima para baixo. Isso me deixa muito feliz. Saí pela porta grande. Entrei e vou sair assim. Vou chorar de novo. Mas faz parte (risos)", disse Montillo contendo as lágrimas.

A expressão do porteiro ao presidente nunca foi tão real. Carlos Eduardo Pereira é só elogios ao argentino. Do início das negociações à despedida emocionada no Nilton Santos.

"Apesar do craque que foi, agora que encerrou a carreira, o Montillo surpreende com a humildade e a forma como trata as coisas. O fato dele ter oferecido a devolução do salário, o que recusamos, mostra bem o caráter do atleta, que sempre foi muito profissional. Não houve 'migué'. Espetacular pessoa, atleta... uma pena muito grande não ter dado certo no Botafogo", lamentou.

O lado triste de não poder estar em campo com a sequência de cinco lesões trouxe ao menos, para o argentino, esta convivência com os funcionários mais humildes do Botafogo. Por ficar mais tempo no clube se recuperando das contusões, tinha a oportunidade e fazia questão de conhecer histórias de vida daquelas pessoas. Quando podia, ajudava, como quando doou pares de sapatos para um deles que estava sem nenhum.

"Conheci muita gente aqui que trabalha depois dos treinos. Tem alguns que trabalham dez horas por dia. Jogador treina por duas horas e vai embora. E tem cara que não quer nada em troca. Às vezes, só de você conversar com ele, o cara fica feliz, e você fica feliz também, porque ele conta coisas que acontecem na família dele... Isso não tem preço", destaca o meia.

No departamento médico Montillo também deixará saudades. Leandrinho, fisioterapeuta do clube, aguardou pacientemente todo o processo da entrevista coletiva do argentino para se despedir. Sozinho, sentado no banco, olhava para o jogador com os olhos marejados. Quando finalmente o abraçou, não segurou as lágrimas.

"Pare de chorar, Leandro! Deixe para chorarmos juntos no sábado", dizia Montillo, lembrando que neste sábado (1) estará novamente no Nilton Santos, desta vez para se despedir do elenco, uma vez que o time estava em Belo Horizonte (MG) para a partida contra o Atlético-MG pela Copa do Brasil.

Mulher e filhos em lágrimas

Bruno Braz / UOL Esporte
Valentín, Melina e Santino emocionados com o adeus de Montillo

Melina Ianazzo, mulher de Montillo, chegou com um semblante emocionado. Acompanhada dos filhos Santino e Valentín, não conseguiu segurar as lágrimas por muito tempo. Bastou o marido pronunciar suas primeiras palavras para ela chorar e ser acompanhada por seus herdeiros.

Santino, o caçula, tem Síndrome de Down. Para o jogador, a aposentadoria lhe trará mais tempo para acompanhá-lo.

"Fiquei muito tempo fora de casa, foram três anos difíceis na China. Todos sabem que meu filho tem Síndrome de Down. Eles precisam de mim. Mas a maior causa não foi eles. Se eu tivesse condições de jogar, eu continuaria. Meu filho Santino precisa de muito tempo. Agora vou ter um tempo para dedicar a ele. Ele precisa ser acompanhado no dia a dia. Minha esposa sempre o levava para todos os lugares. Ela é tipo o Ayrton Senna, vai para todos os lados. Agora vou ser um pouquinho pai também. Não só jogador (risos). Vamos dividir".

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