Em busca de direitos, familiares de vítimas de voo da Chape lançam entidade

Daniel Fasolin

Colaboração para o UOL, em Chapecó (SC)

  • Andre Penner/AP

    Associação é encabeçada por viúva de Luiz Cesar Martins Cunha, ex-fisiologista do clube

    Associação é encabeçada por viúva de Luiz Cesar Martins Cunha, ex-fisiologista do clube

Nesta segunda-feira (3), familiares das vítimas do voo da LaMia que caiu em Medellín em 2016 e tirou a vida de 71 pessoas – entre eles jogadores e comissão técnica da Chapecoense, além de convidados e membros da imprensa – oficializaram a "Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da Chapecoense".

Em um carta enviada em primeira mão para o UOL Esporte, os familiares anunciaram que estão se reunindo na entidade para lutar por seus direitos, amparar uns aos outros e garantir que a tragédia não seja esquecida.

Ao todo, 24 pessoas já fazem parte da associação que "estará de portas abertas para quem quiser juntar-se a causa" e atuará em cinco frentes: "responsabilidade moral", "amparo", "voz", "suporte" e "justiça". Segundo a presidente da associação, Fabianne Belle, viúva de Luiz Cesar Martins Cunha, que era fisiologista do clube, a iniciativa "não foi uma ideia, mas uma necessidade".

"Com o passar dos meses, vimos que precisávamos nos unir para garantir que o acidente não seja esquecido e que as famílias das vítimas não sejam deixadas de lado. Passadas as homenagens, o que nos sobrou foram apenas perguntas sem respostas", disse. "Vamos atrás destes esclarecimentos. Juntos, acreditamos que podemos lutar com mais força no amparo das famílias, na busca de nossos direitos, na punição dos responsáveis e na defesa da memória dos que se foram."

Ainda segundo Fabianne, a associação terá a finalidade de ajudar familiares que também não farão parte do grupo. Para isso, o grupo já disponibilizou também um e-mail de contato para que outros familiares possam aderir à causa.

"Hoje, já somos 27 pessoas. Nossas portas estão abertas para todos os familiares dos passageiros do avião, sejam eles parentes de jogadores, dirigentes, comissão técnica, profissionais da imprensa ou convidados. Acreditamos que a nossa representatividade só tem a aumentar na medida em que as famílias forem aderindo ao projeto. Além disso, toda e qualquer ação da associação será em busca do bem comum de todos os dependentes, faça ele parte do nosso grupo ou não", disse ela, que ainda abriu portas para o apoio da própria Chapecoense na entidade.

"O que todos chamam de 'tragédia da Chapecoense', para nós, é um drama familiar. A diferença é que o clube teve amplo apoio dos mais diversos parceiros para se reerguer - as famílias não. Queremos a Chapecoense do nosso lado, pois acreditamos que o clube possui uma responsabilidade institucional e moral para com as vítimas. Vamos procurar a direção do clube e propor ações de amparo e suporte financeiro às vítimas do acidente. Antes de novas homenagens, acreditamos que a melhor maneira de respeitar todas as pessoas que estavam naquele avião é ajudando seus familiares e dependentes", explicou Fabianne.

Muitos familiares brigam na Justiça contra a Chapecoense por responsabilizarem o clube pela escolha da LaMia para realizar o transporte na ocasião da tragédia, e esperam ainda uma resposta da seguradora Bisa, responsável pelo seguro da aeronave, sobre as indenizações preteridas. A associação promete a união de forças para que todos os direitos sejam garantidos aos familiares de todas as vítimas do "Voo da Chapecoense".

Confira a carta de apresentação da associação na íntegra:

Somos a "Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da Chapecoense". Para nós, a noite de 28 de novembro de 2016 nunca acabou. O que o mundo chama de desastre "da Chapecoense", para nós, é a tragédia de nossas vidas. Lindas e merecidas homenagens foram prestadas, mas hoje, o que sobrou para as famílias é um misto de angústia, incerteza e a dolorosa sensação de impunidade.

Passados sete meses desde que nossos parentes se foram, decidimos nos unir na dor e na esperança para que juntos possamos recomeçar. Já somos um grupo de 24 pessoas e as portas estão abertas para quem quiser juntar-se a nós. De mãos dadas teremos representatividade e força para lutar uma batalha que, infelizmente, parece estar ainda muito longe do seu fim.

A "Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da Chapecoense" atuará em cinco frentes: Responsabilidade Moral, Amparo, Voz, Suporte e Justiça.

Responsabilidade Moral
Nosso primeiro desafio é construir uma agenda de prioridades perante a Associação Chapecoense de Futebol. Acreditamos que o clube carrega uma responsabilidade institucional intransferível em relação às famílias. Não só dos jogadores e funcionários, mas também de membros da imprensa e convidados que estavam naquele avião.

O clube foi abraçado pelo mundo. Rapidamente, refez seu corpo técnico, recebeu jogadores por empréstimo, patrocínio, doações e o amor e carinho de torcedores que agora se espalham por todos os quatro cantos do planeta. Nas nossas casas, infelizmente, nada disso aconteceu. Portanto, é chegada a hora de a Chapecoense olhar de maneira efetiva para esse lado da história, fazendo com que, assim como o clube, todas as famílias tenham condições de seguir com suas vidas.

Amparo
Embora nunca tenham sido tratadas como tal, nossas famílias são o elo mais frágil desse trágico acidente. Hoje, não há nenhum tipo de acompanhamento - psicológico ou social - para pais, mães, esposas e filhos. Nossa intenção é que exista uma estrutura de suporte para que, cada um à sua maneira, aprenda a lidar com a dor e possa se refazer das feridas deixadas pelo desastre aéreo.

Voz
O acidente é visto apenas de forma institucional, quando, na verdade, ele é acima de tudo um drama familiar. O clube perdeu seu patrimônio, mas lares perderam seus arrimos. Mesmo assim, desde sempre, fomos colocados no fundo da sala de discussões quando, de fato e de direito, deveríamos estar na primeira fila. Abriremos canais de diálogo para que os verdadeiros representantes das vítimas possam ser ouvidos pela imprensa, políticos, órgãos públicos, interessados em ajudar, instituições de direitos humanos, Ministério Público e responsáveis pelas investigações.

Suporte
As famílias precisam de suporte financeiro para garantia de moradia, alimentação, saúde e educação pelo período em que perdurar a luta por indenizações dignas. Embora não seja de conhecimento da opinião pública, pessoas passam por sérias dificuldades, sobrevivendo com a ajuda de amigos e parentes. Por isso, atuaremos perante o clube pela instituição de um fundo financeiro de assistência às famílias, apresentando também propostas para a captação destes recursos.

Justiça
Enquanto ainda houver uma única questão que precise ser esclarecida, lutaremos por respostas. Hoje, pouca coisa avançou e os familiares ainda navegam em um mar de incertezas e informações desencontradas. Vidas foram perdidas pela ganância e pela negligência daqueles que deveriam proteger as pessoas que entraram naquele avião. Porém, a nuvem da impunidade forma-se com cada vez mais força diante de nós. Independentemente das indenizações, é preciso que sejam apuradas as responsabilidades. As autoridades aeronáuticas do Brasil, Bolívia e Colômbia nos devem não apenas respostas, mas também a garantia que algo naquela noite não foi em vão e que este crime não se repetirá.

Assim, iniciamos as atividades da "Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da Chapecoense". Afinal, entendemos que, antes de novas homenagens, a maneira mais nobre de lembrar os que se foram seria priorizar os dependentes que ficaram.

Fabianne Belle
Presidente da Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da Chapecoense

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber notícias de esporte de graça pelo Facebook Messenger?
Clique aqui e siga as instruções.

UOL Cursos Online

Todos os cursos